Renúncia de Casares muda estratégia da oposição no São Paulo
Conselheiros aguardam avanço de investigações para avaliar possíveis sanções ao ex-presidente
CRISE NO MORUMBISA renúncia de Julio Casares à presidência do São Paulo alterou o rumo das articulações da oposição dentro do clube. Até então, o foco era a convocação de uma assembleia geral para ratificar o afastamento do dirigente, aprovado provisoriamente pelo Conselho Deliberativo. Com a saída voluntária, esse passo deixou de ser necessário, embora novas medidas internas não estejam descartadas.
Casares havia sido afastado de forma provisória por ampla maioria no Conselho: 188 votos favoráveis, 55 contrários e dois votos em branco. Após a renúncia, discutiu-se a possibilidade de manter a assembleia para eventual aplicação de sanções ao ex-presidente. O entendimento majoritário, no entanto, foi de que o processo de impeachment não deveria tratar de punições pessoais.
Segundo conselheiros, o procedimento teve caráter estritamente político e institucional, motivado pela avaliação de que Casares não reunia mais condições de governabilidade diante dos recentes escândalos envolvendo sua gestão. “A votação não é uma questão de prejulgar pessoas. Os nossos temas são políticos. Nós enxergamos que, politicamente, o Júlio Casares não reunia mais condições de seguir no comando da instituição”, afirmou Flávio Marques, conselheiro e um dos signatários do pedido de afastamento.
O Estatuto do São Paulo prevê a possibilidade de inelegibilidade por até dez anos, mas não vincula automaticamente essa penalidade à destituição do cargo. Essa lacuna gerou interpretações distintas sobre o futuro de Casares dentro do clube após a renúncia.
Diante disso, a oposição decidiu aguardar o avanço das investigações conduzidas pela Polícia Civil e pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP) antes de adotar novas providências. Casares é alvo de apurações nas esferas cível e criminal. Caso as investigações apontem materialidade de atos lesivos ao clube, um novo procedimento interno poderá ser aberto para eventual punição.
Além do Estatuto do clube, conselheiros também citam a Lei Geral do Esporte como possível base para sanções. O artigo 65 da legislação estabelece impedimento mínimo de dez anos para o exercício de funções de direção em organizações esportivas nos casos de afastamento por gestão temerária ou fraudulenta, seja por decisão interna ou judicial.
Na esfera cível, o MP-SP investiga Casares por gestão temerária, tipificada pela Lei de Responsabilidade Fiscal no Esporte como a adoção de riscos excessivos e irresponsáveis ao patrimônio da entidade. Entre os critérios, está a ocorrência de déficit ou prejuízo anual superior a 20% da receita bruta do ano anterior, situação registrada em dois exercícios da gestão Casares: 2021 e 2024.
A cautela adotada pela oposição também leva em conta precedentes históricos. Em 2015, o então presidente Carlos Miguel Aidar renunciou em meio a acusações de desvios na administração. Anos depois, em 2022, ele foi absolvido em processos por furto no São Paulo e lavagem de dinheiro, o que reforça a opção atual por aguardar o desfecho das investigações antes de novas medidas.
Outro fator considerado é o custo de uma assembleia geral. Avaliando que o clube atravessa um momento financeiro delicado, conselheiros entendem que não há justificativa para despesas adicionais sem efeito prático imediato.
Com a renúncia, Harry Massis Júnior assume a presidência de forma definitiva até o fim de 2026, prazo final do mandato de Casares. O mesmo cenário ocorreria caso a assembleia tivesse confirmado o impeachment.
Até a última semana, Massis mantinha pouca atuação na política interna do São Paulo. Desde sexta-feira, porém, passou a se inteirar da situação administrativa e dos diferentes setores do clube. Em meio à transição, ele já alinhou mudanças na estrutura: Antonio Donizeti Gonçalves, o Dedé, deixou a diretoria social, e Márcio Carlomagno foi afastado da superintendência geral.
Dedé formalizou sua saída por meio de renúncia, após conversas com o novo presidente. Já Carlomagno permanecerá no cargo até o fim de janeiro, para auxiliar no processo de transição administrativa.