Pequeno negócio em Campo Grande precisa se modernizar para não desaparecer do mapa
Digitalização, qualificação e apoio da ACICG viram linha de frente para que empresas locais sobrevivam a juros altos, reformas e esvaziamento do centro
COMÉRCIOSe no Brasil os pequenos negócios já respondem por cerca de 97% das empresas e são responsáveis por mais de 70% dos novos empregos formais, tornando-se a base da economia nacional, em Campo Grande essa realidade ganha contornos ainda mais delicados. Pressionados por juros altos, mudanças tributárias, transformação do consumo e esvaziamento gradual do centro, os pequenos empresários da Capital sabem que a palavra de ordem para 2026 é uma só: modernizar.
Em entrevista ao A Crítica, o presidente da Associação Comercial e Industrial de Campo Grande (ACICG), Renato Paniago, resume o desafio em poucas linhas: “Um grande negócio, diante de uma mudança de legislação ou de tributo, consegue absorver melhor o impacto. Já um pequeno negócio pode não suportar e acabar encerrando as atividades.”
É a partir desse alerta que ele defende o caminho da informação, capacitação constante e aproximação com entidades de apoio, como a própria ACICG, que reúne cerca de 9,4 mil CNPJs e se prepara para completar 100 anos de atuação em 2025.
Modernizar para sobreviver, não mais para ‘crescer um pouco’ - A imagem clássica do pequeno comércio, o empresário “fazendo de tudo um pouco”, confiando apenas na experiência e na intuição, está cada vez mais distante da realidade. Levantamento de Sebrae e Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial mostra que aproximadamente metade dos pequenos negócios brasileiros já usa mídias digitais para vender, mas ainda enfrenta dificuldades em gestão, automação e análise de dados.
Nesse cenário, Paniago insiste que o pequeno empresário campo-grandense não pode se isolar. “Para se modernizar e sobreviver, o pequeno negócio precisa frequentar a Associação Comercial, participar das capacitações, dos encontros, das palestras. No ano passado oferecemos eventos sobre reforma tributária e, neste ano, vamos intensificar ainda mais. Quem se informar e se preparar terá mais chances de se manter no mercado", revela.
A modernização, na leitura dele, não passa apenas por abrir um perfil em rede social ou colocar o catálogo em um marketplace. Envolve repensar processos internos, aprender a usar dados para tomar decisões, entender a nova legislação e, principalmente, buscar ajuda. “Aqui o empresário encontra ferramentas para análise de crédito, recuperação de crédito, planos de saúde, mentorias, consultorias e capacitações. Muitas vezes é isso que permite trazer tecnologia para dentro do negócio, ajustar processos e tomar decisões com mais segurança", opina.
O ambiente macroeconômico também impõe limites. Mesmo com alguma expectativa de queda, as taxas de juros continuam em patamar elevado, o que encarece o crédito e desestimula projetos maiores de expansão. Segundo Paniago, a consequência direta é que muitos pequenos negócios adiaram a abertura de novas lojas ou reformas mais profundas, priorizando ajustes internos:
“Algumas empresas ainda conseguem investir com recursos próprios. Já aquelas que dependem totalmente de crédito adiaram ou reduziram investimentos, porque o custo do dinheiro está muito alto e o risco de não conseguir pagar também", diz.
Os investimentos que acontecem, explica ele, passaram a mirar três frentes principais. “Observamos investimentos em infraestrutura, tecnologia e equipe. As empresas buscam oferecer melhores condições e benefícios para seus colaboradores, para formar e manter boas equipes. Isso se tornou um desafio maior", diz.
Na prática, isso se traduz em sistemas de gestão mais robustos, melhoria do ambiente físico (mesmo em lojas pequenas) e treinamento da equipe para lidar com múltiplos canais de venda.
Segurança, estacionamento e novas centralidades - Outro eixo de transformação que impacta diretamente os pequenos negócios é o redesenho do centro de Campo Grande. O movimento menor em áreas tradicionais de comércio não é exclusividade da Capital. em várias cidades brasileiras, o fluxo de consumidores nos centros caiu, e especialistas apontam fatores como insegurança, falta de estacionamento e migração do consumo para bairros e para o digital.
Paniago reforça que Campo Grande segue essa tendência. “Isso acontece em muitas capitais. A cidade cresce, a área ocupada aumenta e o consumidor busca praticidade e acesso mais próximo. Surgem grandes estruturas comerciais nos bairros, e o centro deixa de ser o único polo de comércio, embora continue sendo um dos principais", avalia.
Para o presidente da ACICG, existem fatores gerais, como o surgimento de grandes corredores comerciais em bairros, e outros que podem ser enfrentados com políticas específicas.
“A segurança pública é uma preocupação constante. Falta efetivo, há casos de arrombamentos, roubos e furtos. Temos trabalhado com as forças policiais, OAB/MS, Ministério Público (MPMS) e outros órgãos para apresentar as demandas e buscar soluções", diz. “A falta de vagas e a ausência de incentivo à criação de estacionamentos são reclamações recorrentes dos empresários do centro", complementa.
Ao mesmo tempo, Paniago defende que se incentive a moradia na região central, como estratégia para reaquecer o comércio local. “Promover moradia no centro é fundamental. O consumidor quer conveniência. Se ele puder morar e consumir no mesmo entorno, melhor. Com o incentivo correto, o centro pode ser um bom lugar para viver e trabalhar", avalia.
Enquanto o centro se adapta, o comércio eletrônico avança em ritmo acelerado. Em 2024, o e-commerce brasileiro faturou cerca de R$ 204 bilhões, com crescimento superior a 10% em relação ao ano anterior, consolidando o país como um dos maiores mercados digitais da América Latina.
Para Paniago, em vez de enxergar a internet como ameaça, o empresário campo-grandense precisa entender que o consumidor agora transita entre o físico e o digital com naturalidade:
“O empresário aprendeu a administrar o comércio online. Em alguns segmentos, a venda pela internet funciona muito bem; em outros, o contato presencial ainda é decisivo. Vai depender do produto, do perfil do consumidor e da região.”
Ele ressalta que as ferramentas digitais se tornaram mais acessíveis e que a própria ACICG tem atuado como ponte entre empresas e fornecedores de tecnologia: “Hoje há muito mais informação disponível. A Associação Comercial trabalha para incentivar e orientar as empresas a adotar essas ferramentas e estruturar sua presença digital", diz.
Na visão de Paniago, o equilíbrio entre o físico e o digital não será definido pelas empresas, mas pelas pessoas. “O consumidor dita o ritmo. Em muitos casos, ele pesquisa online e compra na loja; em outros, faz tudo pela internet. O importante é o empresário estar preparado para os dois canais", argumenta.
Para o pequeno negócio, isso significa que o ponto físico tende a se tornar cada vez mais um espaço de experiência, de relacionamento e de reforço de marca, enquanto a internet assume o papel de vitrine permanente e canal complementar de vendas.
A casa do empresário -Em meio a tantas mudanças, o papel da ACICG ganha relevo. A entidade, que caminha para o centenário, se consolidou como uma espécie de “hub” dos pequenos e médios negócios de Campo Grande, unindo representatividade política e serviços práticos do dia a dia.
“A ACICG sempre atuou na defesa da causa empresarial, em favor dos maiores geradores de emprego e renda. Representamos as empresas junto ao poder público, acompanhamos mudanças de lei e buscamos informar o empresário sobre tudo o que impacta o negócio.”
Na parte de soluções, a entidade tenta reduzir custos e facilitar acesso a ferramentas que, individualmente, muitos pequenos negócios não conseguiriam contratar: “Uma empresa que concede crédito para muitos clientes precisa de uma boa ferramenta de análise de crédito. No mercado, isso tem um custo; na associação, por ser associada, esse custo é mais acessível. O mesmo vale para recuperação de crédito, planos de saúde, consultorias e outros serviços.”
Por fim, há o papel de “conectora” de negócios, que ganhou força nos últimos anos: “Ao longo do ano, realizamos almoços com o presidente, cafés empresariais, happy hours, palestras e rodadas de negócios. Muitos negócios nascem dessas conexões. Somos grandes promotores de oportunidades", avalia.