Reforma tributária e juros altos colocam pequeno negócio de Campo Grande sob pressão, afirma ACICG
Presidente da Associação Comercial, Renato Paniago, alerta que a combinação de endividamento das famílias, crédito caro e nova tributação pode levar micro e pequenas empresas a fechar as portas se não houver planejamento e capacitação
PREOCUPAÇÃO“Para o pequeno negócio, uma mudança de tributo pode significar fechar as portas.” A frase do presidente da Associação Comercial e Industrial de Campo Grande (ACICG), Renato Paniago, resume o principal alerta dele para 2026: o ano começa com lojas cheias de promoções, mas, nos bastidores, o comércio convive com juros elevados, famílias endividadas, crédito difícil e a transição para a reforma tributária, que deve exigir um esforço extra de adaptação das empresas.
Em entrevista ao jornal A Crítica, Paniago avaliou o desempenho de 2025, comentou o início de ano no comércio da Capital e detalhou as principais preocupações da entidade com o novo ciclo econômico. O tom é de cautela, mas também de oportunidade para quem estiver disposto a se modernizar e buscar apoio institucional.
O início do ano é tradicionalmente um período de liquidações, descontos agressivos e queima de estoque nas lojas de Campo Grande. Segundo Paniago, as empresas aproveitam o momento para girar os produtos comprados para o Natal e, ao mesmo tempo, tentar atrair um consumidor pressionado por impostos e despesas típicas de começo de ano, como materiais escolares e tributos.
“Todo começo de ano é um momento em que as empresas aproveitam para fazer promoções e conceder descontos. Muitos consumidores já fizeram suas compras de fim de ano, mas uma parcela ainda deixa para comprar após a virada. Como também é período de pagamento de tributos, é importante que as empresas ofertem condições especiais para conseguir vender e finalizar os estoques", avalia.
Até o dia 20 de janeiro, a ACICG ainda não tinha um balanço fechado das vendas, mas a percepção é de movimento presente, ainda que mais seletivo. “Ainda não temos um número consolidado para janeiro, mas percebemos que os consumidores estão frequentando as lojas e empresas de Campo Grande. É uma boa oportunidade para vendas, desde que o comércio esteja preparado e atrativo", informa.
Além das campanhas individuais, o setor começa o ano amparado pela Convenção Coletiva de Trabalho 2025/2027, firmada no fim de 2025, que definiu reajustes salariais, novos pisos, regras para o período festivo e outros benefícios para trabalhadores e empresas, dando mais previsibilidade à programação do comércio da Capital.
2025: consumo moderado, crédito caro e alta inadimplência - Ao olhar para trás, Paniago classifica 2025 como um ano “bom, mas difícil”. Houve crescimento de consumo em relação ao ano anterior, porém em ritmo modesto e com forte pressão de custos.
“2025 foi um bom ano, mas não foi um ano de fácil acesso ao crédito. As empresas tiveram muita dificuldade de conseguir financiamento por causa da alta taxa de juros. Isso inibe a expansão dos negócios, desestimula investimentos e deixa o empresário mais cauteloso", opina.
Com a taxa Selic ainda em patamar elevado e só começando a sinalizar quedas tímidas ao longo de 2026, o crédito para empresas segue caro e seletivo. Previsões de grandes bancos apontam que o ciclo de redução deve ser lento, em um cenário de inflação apenas moderadamente controlada.
Do lado das famílias, o quadro também preocupa. Em 2025, o número de brasileiros inadimplentes passou de 77 milhões de pessoas, quase metade da população adulta, de acordo com o Mapa da Inadimplência da Serasa. Dados da Confederação Nacional do Comércio mostram que a inadimplência atingiu cerca de 30% das famílias, o maior nível da série histórica, com cerca de 30% da renda comprometida com dívidas.
Paniago conecta esses números à realidade das lojas de Campo Grande. “A falta de recursos financeiros das famílias, somada à inadimplência elevada, impacta diretamente o comércio. Quando falamos em inadimplência das famílias, também estamos falando em inadimplência das empresas, porque o caixa aperta dos dois lados", afirma.
Segundo ele, o comércio conseguiu se manter, mas às custas de muito esforço: “A economia se sustentou com muita dificuldade e muito trabalho das empresas, que precisaram se desdobrar para cumprir compromissos tributários, realizar vendas e atender o consumidor", complementa.
2026: ano de trabalho intenso, eleição e reforma tributária - Para 2026, a avaliação do presidente da ACICG mistura prudência e otimismo moderado. De um lado, Campo Grande segue como polo de serviços, comércio e sede de matrizes de empresas que atuam em todo o Estado.
“Campo Grande continua muito bem movimentada. A população consumidora se mantém, não é uma cidade que perdeu relevância. A Capital concentra matrizes e escritórios de empresas, inclusive de negócios que se instalam no interior, mas escolhem Campo Grande como base pela qualidade de vida e pela estrutura que o município oferece.”
Do outro lado, aparecem três fatores de preocupação: juros ainda altos, um ano de eleições nacionais e a implementação da reforma tributária do consumo, que entra em fase decisiva de regulamentação.
“Será um ano de muito trabalho. A expectativa é de alguma redução dos juros, mas ainda em patamar elevado. E é um ano de eleição, o que sempre mexe com o comportamento da economia e do consumo, principalmente em relação a investimentos e decisões de Capital.”
Se há um ponto que vale a atenção é a reforma tributária. A mudança, baseada no modelo de IVA dual (CBS federal e IBS estadual/municipal), prevê um longo período em que o sistema atual conviverá com o novo regime, o que aumenta a complexidade para o empresário, especialmente o de menor porte.
“Será um ano de reforma tributária, um desafio enorme para as empresas administrarem seus negócios e cumprirem todas as novas exigências. Já saiu mais uma regulamentação, e ainda estamos entendendo o que cada ponto significa para poder orientar nossos associados.”
O presidente da ACICG não esconde a preocupação com o impacto no setor de serviços, que hoje responde por grande parte das empresas da Capital. “Quando se fala em alíquotas que podem chegar a algo entre 25% e 28% para serviços, a preocupação é grande. É preciso ver como muitos negócios vão conseguir enfrentar essa mudança e sobreviver", informa.
Para ele, o período em que o Brasil terá de conviver com dois regimes tributários ao mesmo tempo, o atual e o novo modelo de IVA, é especialmente sensível: “Manter dois regimes tributários simultâneos é um desafio muito grande. Para uma empresa grande, isso é mais administrável. Para um pequeno negócio, uma mudança de tributo pode significar fechar as portas", alerta.
Além da carga tributária, Paniago lembra que a transição exige forte adaptação tecnológica, tanto por parte das empresas quanto do próprio poder público: “Há necessidade de muita tecnologia, inclusive dentro do governo. Já neste começo de ano tivemos dificuldades em alguns estados para emissão de nota fiscal eletrônica, por causa das mudanças tecnológicas ligadas à reforma. As empresas dependem desses sistemas para pagar tributos, acessar informações e prestar contas", diz.