Realidade do MEI em MS revela 'cidade invisível' de trabalhadores por conta própria
Separar contas, formar preços corretamente e planejar o futuro virou questão de sobrevivência para microempreendedores individuais em Mato Grosso do Sul
EMPREENDEDORISMONo começo de 2026, enquanto muita gente aproveita o início do ano para organizar a vida financeira, mais de 160 mil microempreendedores individuais (MEIs) de Mato Grosso do Sul tenta equilibrar, ao mesmo tempo, boletos da casa, contas da empresa, impostos e clientes.
Na prática, é como se existisse uma cidade inteira formada só por jardineiros, manicures, mototaxistas, encanadores e outros prestadores de serviço, que sustentam famílias e movimentam a economia sem aparecer no mapa.
Em entrevista nesta quarta-feira (21) ao Giro Estadual de Notícias, o diretor-superintendente do Sebrae/MS, Cláudio Mendonça, traduziu esse cenário em números e exemplos concretos, indo muito além do calendário do Mutirão do MEI. Ele chamou atenção para três pontos que, na visão do Sebrae, definem se o negócio do microempreendedor vai sobreviver: saber formar preço, separar as contas pessoais das contas da empresa e planejar o futuro do próprio trabalho.
Ao falar da dimensão do MEI em Mato Grosso do Sul, Mendonça recorreu a uma comparação simples e direta. “Se tivéssemos uma cidade formada apenas por MEIs, ela seria hoje a terceira maior do Estado. São mais de 160 mil microempreendedores individuais em Mato Grosso do Sul", revela.
Esses microempreendedores estão espalhados pelos bairros de Campo Grande e pelos municípios menores, atuando em mais de 400 atividades diferentes. “É o encanador, o jardineiro, a manicure, o mototaxista. Hoje são mais de 400 atividades enquadradas nessa categoria", explica.
Só em 2025, o Estado registrou o surgimento de 51 mil novos MEIs. Para Mendonça, isso não é apenas um dado econômico, mas uma mudança real na vida de milhares de famílias.
Cada CNPJ aberto representa alguém que decidiu transformar um bico em negócio, emitir nota para prestar serviços, assumir compromissos e tentar ganhar previsibilidade em uma rotina que antes era totalmente informal.
O erro de olhar apenas para o preço do vizinho - Um dos pontos em que o diretor do Sebrae foi mais enfático diz respeito à formação de preço. Segundo ele, muitos MEIs ainda definem quanto vão cobrar apenas olhando o que o concorrente faz, sem calcular os próprios custos.
“Não é porque o meu vizinho corta a grama e cobra R$ 100 que eu vou cobrar R$ 99 ou R$ 98 apenas para conseguir o serviço. Não é assim. É preciso calcular o próprio custo", salienta.
Na prática, isso significa que o jardineiro, a manicure ou o mototaxista precisa saber quanto gasta com ferramentas, transporte, material, manutenção do veículo, impostos e até o próprio tempo. Quando ignora esses fatores, o MEI pode até lotar a agenda, mas trabalhar no prejuízo sem perceber. Mendonça também lembra que o valor não está só no produto final, mas na prestação de serviço como um todo.
“Muitas vezes não se reconhece o valor do profissional que está executando o trabalho. Não é apenas o produto entregue; o serviço é o ponto principal", diz. Sem essa consciência, o microempreendedor acaba entrando em uma guerra de preços que desgasta, reduz a margem de lucro e fragiliza o negócio.
Quando a conta da família se mistura com a conta da empresa - Outro problema recorrente apontado por Mendonça é a mistura entre vida pessoal e vida empresarial. Isso aparece de forma muito clara quando o mesmo carro ou moto serve para tudo: levar os filhos à escola, ir ao mercado e atender clientes.
“Muitas vezes se misturam as contas da pessoa física com as da empresa. O mesmo carro ou a mesma moto que servem para a família são usados no trabalho. Se ocorre um acidente no fim de semana, por exemplo, como esse empreendedor vai prestar o serviço de piscineiro na segunda-feira?", questiona.
Sem reserva financeira, planejamento ou qualquer cálculo prévio, uma situação inesperada coloca em risco o negócio inteiro. Em muitos casos, o microempreendedor se vê obrigado a interromper atividades, atrasar entregas ou até perder contratos.
“É fazer conta. Separar as despesas pessoais das despesas da empresa. Planejar os clientes que se quer atender e aonde se pretende chegar. Qual será a minha retirada mensal desse negócio? Este mês é possível, não é? Como isso será feito?”, afirma. Essa disciplina permite enxergar com mais clareza se o negócio está dando lucro ou apenas pagando as contas do mês, sem criar nenhuma perspectiva de crescimento.
Para ajudar os microempreendedores individuais a começarem o ano com as pendências resolvidas, o Sebrae/MS está promovendo até o dia 30 de janeiro, o Mutirão do MEI. São 85 pontos de atendimento em todas as regiões de Mato Grosso do Sul, distribuídos entre as unidades do Sebrae e parceiros, como Salas do Empreendedor e Associações Comerciais, abrangendo 59 municípios do Estado.
Durante o atendimento no Mutirão do MEI, são disponibilizados gratuitamente serviços como: regularização de débitos; orientação sobre reenquadramento e permanência no Simples Nacional; informações sobre prazos e obrigações fiscais; emissão de documentos e formalização. Além disso, empreendedores com qualquer tipo de dúvida podem procurar os postos para esclarecimentos.
Os principais atendimentos envolvem a regularização do enquadramento: verificar se o empreendedor quer permanecer como MEI, se no ano passado faturou acima de R$ 81 mil se continuará dentro desse limite. “Outra demanda forte é a regularização de débitos. Às vezes a pessoa fica dois ou três meses sem pagar. Com o reajuste do salário mínimo, a contribuição mensal fica em torno de R$ 80, dependendo da atividade, e precisa ser paga; caso contrário, o MEI fica inadimplente", explica.
Entre os 85 pontos de atendimento, algumas opções são as unidades do Sebrae. Em Campo Grande, há a Sede, o Sebrae Parati/Aero Rancho e o escritório localizado no Pátio – o Shopping do Centro, das 8h às 17h. Já nas unidades do interior (Bonito, Corumbá, Coxim, Dourados e Três Lagoas), o atendimento será das 8h às 12h e das 14h às 17h. Dúvidas também podem ser esclarecidas pela Central de Relacionamento do Sebrae, no telefone 0800 570 0800. Escute a entrevista na íntegra abaixo: