Bia Cardoso | 20 de janeiro de 2026 - 08h40

Matt Damon diz que streaming muda jeito de fazer filmes

Ator afirma que diretores agora são pressionados a colocar grandes cenas de ação logo nos primeiros minutos e a repetir enredo por causa do uso de celulares

INDÚSTRIA DO CINEMA
Matt Damon e Ben Affleck em cena de "Dinheiro Suspeito" - (Foto: Claire Folger/Netflix)

Matt Damon avalia que o streaming e o uso constante de celulares estão mudando profundamente a forma de se fazer cinema. Em entrevista ao podcast The Joe Rogan Experience, o ator disse que diretores e roteiristas já são orientados a pensar filmes voltados para um público que assiste em casa, muitas vezes distraído pela tela do smartphone.

Segundo ele, isso tem impacto direto na estrutura das histórias: é preciso prender a atenção logo no início, com cenas de grande impacto, e repetir várias vezes os pontos principais do enredo, para não “perder” quem está olhando o celular enquanto assiste.

Damon explicou que a experiência de ver um filme no cinema é diferente da de assistir em casa, em plataformas de streaming. Na sala escura, com tela grande e som alto, a atenção tende a ficar totalmente voltada para a obra. Já no sofá, o espectador divide o foco com notificações, redes sociais e outros estímulos.

Ele contou que, hoje, muitas orientações que chegam às equipes criativas tratam diretamente dessa “disputa pela atenção”. Uma das exigências mais comuns é começar o filme com uma grande sequência de ação, antes mesmo da história se estabelecer por completo.

Matt Damon lembrou o modelo clássico de estrutura usado em produções do gênero. “A maneira padrão de se fazer um filme de ação que aprendemos era: você geralmente tem três grandes cenas de ação (set pieces). Uma no primeiro ato, uma no segundo e uma no terceiro.”

Nessa lógica, a maior parte do orçamento era direcionada ao clímax, no final da história.

“Você gasta a maior parte do seu dinheiro naquela do terceiro ato. Esse é o seu final”, explicou o ator.

De acordo com Damon, a pressão atual é por impacto imediato. “E agora eles dizem: Podemos ter uma grande logo nos primeiros cinco minutos? Queremos que as pessoas fiquem.”

Ou seja, antes mesmo da plateia conhecer a fundo os personagens ou entender o contexto, o filme já precisa entregar algo visualmente forte para evitar que o espectador mude de título ou simplesmente largue o filme no catálogo.

Outro ponto apontado pelo ator é a necessidade de repetir informações no roteiro. Segundo Damon, roteiristas e diretores já recebem a recomendação de não economizar na reiteração dos eventos principais da história.

“E não seria terrível se você reiterasse o enredo três ou quatro vezes no diálogo, porque as pessoas estão em seus telefones enquanto assistem”, disse.

Na prática, isso significa explicar o plano dos personagens mais de uma vez, reforçar conflitos já apresentados e retomar motivações que, em condições normais, bastariam ser compreendidas em uma única cena. É uma forma de tentar garantir que o público entenda o filme mesmo perdendo trechos enquanto mexe no celular.

As observações de Damon se somam a um debate crescente em Hollywood: até que ponto o formato do streaming deve determinar a linguagem dos filmes. Com mais gente assistindo em casa, obras pensadas para o cinema são adaptadas à lógica das plataformas — seja no ritmo de montagem, seja na quantidade de explicações ao longo do roteiro.

Para parte da indústria, isso é uma resposta natural a novos hábitos de consumo. Para outra, há o risco de empobrecer a experiência cinematográfica, transformando histórias complexas em produtos mais fragmentados e didáticos, pensados para um público permanentemente distraído.

Ao expor a pressão por cenas de ação nos primeiros minutos e pela repetição do enredo, Matt Damon joga luz sobre como decisões comerciais e mudanças de comportamento do público já estão redesenhando, nos bastidores, o jeito de fazer filmes em Hollywood.