Feriado nos EUA reduz impacto de tensão geopolítica e Ibovespa fecha perto da estabilidade
Ausência de Nova York e baixa liquidez amorteceram efeitos das ameaças de Trump sobre a Groenlândia
ECONOMIAO feriado nos Estados Unidos em memória de Martin Luther King ajudou a suavizar, no mercado brasileiro, os efeitos da retomada da percepção de risco geopolítico provocada pelas declarações do presidente americano, Donald Trump, sobre a Groenlândia. Sem a referência de Wall Street e com fluxo reduzido, o Ibovespa teve um pregão morno nesta segunda-feira (19) e encerrou praticamente estável.
O principal índice da B3 oscilou entre a mínima de 164.264,75 pontos e a máxima de 165.154,76 pontos ao longo da sessão. No fechamento, avançou apenas 0,03%, aos 164.849,27 pontos, com volume financeiro de R$ 12,6 bilhões. A ausência de gatilhos domésticos relevantes contribuiu para a cautela dos investidores.
No cenário internacional, a cautela foi maior. Trump voltou a ameaçar impor tarifas a países europeus como forma de pressionar pela incorporação da Groenlândia — território semiautônomo sob soberania da Dinamarca — ao controle dos Estados Unidos. A União Europeia, liderada por Alemanha e França, sinalizou que pode retaliar com medidas comerciais que teriam impacto próximo de US$ 100 bilhões, caso as tarifas entrem em vigor a partir de 1º de fevereiro.
Na Europa, o aumento da aversão ao risco se refletiu nos mercados acionários. Os principais índices fecharam o dia com perdas superiores a 1%, em meio ao receio de uma nova escalada comercial entre EUA e União Europeia.
No Brasil, o impacto foi limitado pela menor liquidez. O Ibovespa contou com o desempenho de Petrobras, cujas ações subiram 0,53% (ON) e 0,41% (PN), além de ganhos pontuais em bancos como Santander (Units +0,69%). Esses movimentos ajudaram a compensar a queda da Vale ON, que recuou 0,39% e exerceu pressão negativa sobre o índice.
Entre as maiores altas do dia estiveram Hapvida (+3,85%), IRB (+3,59%) e Cury (+2,94%). Na ponta oposta, Natura (-3,41%), CSN (-3,15%) e Raízen (-2,44%) lideraram as perdas.
Apesar do pregão mais contido, analistas destacam que o ambiente tende a ficar mais volátil nos próximos dias. A partir de quarta-feira, a atenção dos mercados globais deve se concentrar no discurso de Donald Trump no Fórum Econômico Mundial, em Davos, que pode trazer novas sinalizações sobre política comercial e fiscal, segundo Bruno Botelho, especialista em câmbio da ONE Investimentos.
Na quinta-feira, a agenda internacional ganha ainda mais peso, com a divulgação do Produto Interno Bruto (PIB) dos Estados Unidos, dos pedidos semanais de seguro-desemprego e do núcleo do índice de preços PCE, indicador de inflação preferido do Federal Reserve.
Em meio às tentativas de ampliar o controle americano sobre a Groenlândia, Trump evitou comentar até onde pretende ir. Questionado se poderia usar a força, respondeu apenas “sem comentários”, em entrevista à NBC News. Já sobre as tarifas, foi direto: “Eu vou, 100%”.
O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, afirmou que as declarações do presidente devem ser levadas “ao pé da letra” e rejeitou a ideia de que o tema esteja ligado à frustração de Trump por não ter recebido o Prêmio Nobel da Paz. Ainda assim, segundo a agência Reuters, o republicano teria afirmado em carta ao primeiro-ministro da Noruega que não se sente mais obrigado a “pensar apenas na paz”.
A diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva, avaliou que ainda é cedo para mensurar os impactos das tensões comerciais recentes. Já a China reagiu às falas de Trump pedindo que Washington abandone o que chamou de narrativa de “ameaça chinesa” para justificar interesses na região do Ártico.
O chanceler alemão, Friedrich Merz, afirmou que tentará se reunir com Trump em Davos para evitar uma nova escalada das tensões. Ele reiterou que países europeus irão retaliar os Estados Unidos para proteger seus interesses, caso as tarifas anunciadas entrem em vigor.
Analistas destacam que Trump volta a adotar uma estratégia de choque nas relações comerciais. “É uma política de confronto, com ameaça de tarifas, o que eleva a volatilidade dos ativos de risco”, avalia Ramon Coser, especialista da Valor Investimentos. Para Matthew Ryan, da Ebury, a incerteza permanece elevada, já que a Dinamarca e seus aliados europeus não demonstram disposição em ceder às exigências americanas.
Mesmo em segundo plano, o mercado também reagiu de forma positiva à entrevista do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, ao Uol. Segundo Bruno Perri, economista-chefe da Forum Investimentos, pesou bem o apoio institucional do ministro ao Banco Central, especialmente no que se refere à condução da política monetária e ao processo de intervenção e liquidação do Banco Master.
Com isso, o pregão terminou marcado por baixa volatilidade, liquidez reduzida e atenção redobrada ao noticiário externo, que deve seguir ditando o ritmo dos mercados nos próximos dias.