Trump evita falar em uso da força e amplia pressão sobre a Groenlândia
Presidente dos EUA muda tom em entrevista, ameaça países europeus com tarifas e provoca reação diplomática e protestos na ilha
INTERNACIONALO presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, evitou dizer até onde está disposto a ir para assumir o controle da Groenlândia e recuou no discurso público sobre o uso da força. Em entrevista por telefone à NBC News nesta segunda-feira (19), ao ser questionado se consideraria uma ação militar para tomar o território, respondeu apenas: “Sem comentários”.
A declaração ocorre após um fim de semana marcado por escalada retórica, ameaças econômicas e tensões diplomáticas envolvendo países europeus e o governo autônomo da Groenlândia. Trump tem defendido abertamente a incorporação da ilha aos Estados Unidos, proposta rejeitada tanto por Copenhague quanto pelas autoridades locais.
No sábado (17), Trump afirmou que irá impor tarifas sobre mercadorias de oito países europeus como forma de pressionar por um acordo envolvendo a Groenlândia. As medidas entram em vigor no dia 1º de fevereiro, com taxa inicial de 10%. Caso não haja avanço nas negociações até 1º de junho, as tarifas devem subir para 25%.
A decisão afeta diretamente Dinamarca, Noruega, Suécia, França, Alemanha, Reino Unido, Países Baixos e Finlândia. A Groenlândia faz parte do Reino da Dinamarca, mas possui governo autônomo.
A iniciativa foi interpretada por líderes europeus como um gesto de coerção econômica e ampliou o desgaste diplomático entre Washington e seus aliados históricos.
A escalada ganhou novos contornos no domingo (18), quando Trump revelou o teor de uma carta enviada ao primeiro-ministro da Noruega, Jonas Gahr Støre. Segundo a agência Reuters, o presidente afirmou não se sentir mais obrigado a “pensar apenas na paz” após não ter recebido o Prêmio Nobel da Paz.
“Caro Jonas: dado que seu país decidiu não me conceder o Prêmio Nobel da Paz por eu ter parado mais de 8 guerras, já não me sinto obrigado a pensar exclusivamente na paz — embora ela continue sendo predominante —, e agora posso pensar no que é bom e adequado para os Estados Unidos da América”, escreveu Trump.
No mesmo dia, o republicano voltou a pressionar diretamente a Dinamarca. Em publicação na rede Truth Social, alegou que o país europeu falhou em conter a influência russa na Groenlândia e afirmou que “chegou a hora” de resolver a questão. “E isso será feito!!!”, escreveu.
Trump afirmou ainda que a Otan vem alertando há cerca de duas décadas sobre a necessidade de reduzir a presença russa na região, mas que o governo dinamarquês “não fez nada” a respeito.
A proposta de incorporação da Groenlândia foi rejeitada de forma enfática por líderes dinamarqueses e pelo governo autônomo da ilha. As autoridades reiteraram que o território não está à venda e lembraram que a Groenlândia já está protegida pelo acordo de defesa coletiva da Otan.
O fim de semana também foi marcado por protestos na ilha. Manifestantes saíram às ruas carregando cartazes, agitando bandeiras nacionais e entoando frases como “A Groenlândia não está à venda”, em defesa da autonomia e contra qualquer tentativa de anexação pelos Estados Unidos.
Enquanto Trump mantém o discurso agressivo, o clima entre os groenlandeses é de apreensão. Relatos locais apontam sentimentos de choque, irritação, confusão e medo diante das ameaças públicas feitas pelo presidente americano.
Durante séculos, a Groenlândia foi pouco considerada nas grandes disputas geopolíticas. Habitada majoritariamente por inuítes, a ilha aprendeu a sobreviver em condições extremas no Círculo Polar Ártico. Há mais de 300 anos, integra o Reino da Dinamarca, embora mantenha ressentimentos históricos relacionados a períodos de colonialismo e abusos.
Nos últimos dias, moradores de diferentes regiões e classes sociais relataram rejeição quase unânime à ideia de se tornarem parte dos Estados Unidos. A população valoriza o modelo escandinavo de bem-estar social, que inclui assistência médica e educação gratuitas, além de uma ampla rede de proteção social.
Ao mesmo tempo, há o reconhecimento de limitações econômicas. Muitos groenlandeses admitem que a ilha ainda não tem condições de se sustentar plenamente de forma independente, o que torna o debate sobre o futuro ainda mais sensível.
Na semana passada, o ministro das Relações Exteriores da Groenlândia participou de uma reunião de alto nível em Washington, a primeira do tipo envolvendo diretamente representantes da ilha. O secretário de Estado Marco Rubio e o vice-presidente JD Vance têm mantido conversas com autoridades groenlandesas e dinamarquesas, sob o impacto das declarações de Trump.
Recentemente, o presidente americano afirmou que pretende “fazer algo pela Groenlândia, quer eles gostem ou não”, frase que ampliou o temor de medidas unilaterais.