PT usa vídeos com IA no WhatsApp para rebater fake news sobre Pix e atacar direita
Conteúdos ironizam lideranças conservadoras e reagem a vídeo do deputado Nikolas Ferreira sobre suposta taxação
POLÍTICAGrupos de WhatsApp ligados à rede de comunicação próxima ao Partido dos Trabalhadores (PT) passaram a divulgar vídeos produzidos com uso de inteligência artificial (IA) para contestar informações falsas sobre o Pix e, ao mesmo tempo, atacar lideranças da direita que difundiram esse tipo de conteúdo. As peças misturam humor ácido, ironia política e linguagem visual típica das redes sociais, com críticas diretas ao que o partido classifica como desinformação.
Um dos vídeos segue uma tendência recente no uso de IA, que transforma objetos inanimados em personagens animados, com expressões humanas e falas diretas ao público. Na animação, a própria logomarca do Pix ganha forma de boneco e reage, em tom exaltado, às acusações de que o sistema de pagamentos seria monitorado ou taxado pelo governo.
“Esse povo da extrema direita não me deixa em paz. Ficam mentindo dizendo que eu vou vigiar, que eu vou taxar, que eu vou acabar. Tá de sacanagem, né?”, diz o personagem, em linguagem informal e tom agressivo.
Outro vídeo, que também circula nos grupos de WhatsApp, utiliza uma metáfora visual mais pesada. Lideranças e influenciadores da direita são retratados como “baratas da extrema direita”, descritas como criaturas que “vivem no esgoto” e “saem voando e espalhando mentira”.
Com auxílio de inteligência artificial, o material cria cenas que simulam situações cotidianas, com personagens apresentados como usuárias comuns do Pix sendo perseguidas pelas baratas. A narração afirma que essas figuras espalham boatos de que o Pix seria monitorado pelo governo.
“As baratas dizem que o Pix da Ana e da Maria vai ser monitorado, que o governo tá de olho nelas. Isso é mentira”, diz o vídeo.
A peça termina com a imagem de duas mulheres eliminando as baratas com o chamado “inseticida da verdade”, reforçando a mensagem de que não existe vigilância nem taxação sobre o sistema de pagamentos instantâneos. “O Pix não é vigiado nem vai ser taxado”, afirma a narração final, que associa fake news a tentativas de assustar a população.
Os vídeos são uma resposta direta a publicações do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), que voltou a falar sobre o Pix em vídeo divulgado na semana passada. Na gravação, o parlamentar afirma que o governo teria passado a monitorar transações feitas pelo sistema e que isso teria ocorrido de forma “escondida” e “disfarçada”, por meio de uma instrução normativa publicada em agosto de 2025.
“O Estado passou a olhar para o seu Pix como se fosse um dinheiro suspeito”, afirma o deputado no vídeo.
No entanto, conforme já apontado pelo Estadão Verifica, a norma citada não cria monitoramento em tempo real das transações nem representa novidade específica para o Pix. A instrução apenas estende a fintechs e carteiras digitais as mesmas obrigações que bancos tradicionais já cumprem há anos.
A norma determina que instituições financeiras informem à Receita Federal movimentações acima de R$ 5 mil, independentemente de serem feitas via Pix, transferências bancárias ou outros meios. Esse procedimento existe desde a criação do Pix, em 2020.
As informações são repassadas semestralmente e não incluem dados detalhados, como destinatário ou finalidade da transação. Não há acesso em tempo real nem quebra de sigilo bancário, segundo a Receita.
Com a nova onda de publicações sobre o tema, a Receita Federal divulgou uma nota oficial para orientar a população sobre informações falsas relacionadas ao Pix e à tributação.
“Mentiras desse tipo voltam a circular nas redes sociais com o objetivo de enganar as pessoas e atender aos interesses do crime organizado”, diz o texto.
O vídeo das “baratas” começou a circular na sexta-feira, dia 16, em grupos de apoiadores do PT, três dias após a publicação de Nikolas Ferreira. No mesmo dia, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou adversários por espalharem informações falsas nas redes sociais.
“A gente precisa enfrentar esse debate e não se acovardar diante das mentiras e fake news que essa gente faz todo santo dia”, afirmou Lula. Em tom crítico, o presidente também comentou o alcance de influenciadores que, segundo ele, ganham visibilidade com conteúdos distorcidos. “Se o cara estiver falando bobagem, pode até ter 20 milhões. O Bolsonaro tinha 30 milhões”, disse.
A estrutura responsável pela disseminação dos vídeos não tem, oficialmente, vínculo com a comunicação institucional do Palácio do Planalto. Ainda assim, reportagens anteriores do Estadão já mostraram interação entre as duas frentes.
Essa rede de comunicação é formada por integrantes do Instituto Lula, da Fundação Perseu Abramo e de sindicatos, atuando principalmente em grupos fechados de WhatsApp e outras plataformas digitais.