18 de janeiro de 2026 - 14h30

Lula critica ação dos EUA na Venezuela e alerta para enfraquecimento da ordem global

Em artigo no The New York Times, presidente diz que ataque e captura de líder venezuelano ferem o direito internacional e ameaçam a estabilidade mundial

POLÍTICA INTERNACIONAL
Presidente Lula durante agenda internacional; em artigo, ele critica ação dos EUA na Venezuela e defende respeito às regras globais. - (Foto: Imagem ilustrativa/A Crítica)

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva publicou neste domingo (18) um artigo no jornal The New York Times em que faz duras críticas aos bombardeios realizados pelos Estados Unidos em território venezuelano e à captura do presidente da Venezuela, ocorridos no início de janeiro. Para Lula, o episódio representa “mais um capítulo lamentável da contínua erosão do direito internacional e da ordem multilateral estabelecida após a Segunda Guerra Mundial”.

Logo no início do texto, o presidente brasileiro chama atenção para o que considera um movimento recorrente de grandes potências no cenário internacional: o enfraquecimento deliberado de organismos multilaterais, especialmente a Organização das Nações Unidas (ONU) e o seu Conselho de Segurança. Na avaliação de Lula, quando essas instâncias são ignoradas, o uso da força deixa de ser exceção e passa a ocupar um espaço perigoso na condução da política externa.

“Quando o uso da força para resolver disputas deixa de ser exceção e passa a ser regra, a paz, a segurança e a estabilidade globais ficam ameaçadas”, escreveu o presidente.

Ao longo do artigo, Lula constrói um argumento centrado na defesa do multilateralismo, das regras internacionais e da soberania dos Estados, apontando que a aplicação seletiva dessas normas compromete todo o sistema global.

Segundo ele, quando regras são respeitadas apenas por conveniência, o resultado é um cenário de desordem que fragiliza não apenas países isoladamente, mas o conjunto das relações internacionais. “Se as normas são seguidas apenas de forma seletiva, instala-se a anomia, que enfraquece não apenas os Estados individualmente, mas o sistema internacional como um todo”, afirmou.

Ainda de acordo com o presidente, a inexistência de regras coletivamente pactuadas torna inviável a construção de sociedades livres, inclusivas e democráticas. Para Lula, o respeito ao direito internacional não é apenas uma formalidade diplomática, mas uma condição básica para a convivência pacífica entre as nações.

Responsabilização não justifica ações unilaterais - Em outro trecho do artigo, Lula aborda a questão da democracia e da responsabilização de líderes políticos. Ele reconhece que chefes de Estado ou de governo, “de qualquer país”, podem e devem ser responsabilizados por ações que atentem contra a democracia e os direitos fundamentais. No entanto, faz uma ressalva clara sobre os meios utilizados para isso.

Para o presidente brasileiro, não cabe a um Estado agir como juiz e executor de outro. “Não é legítimo que outro Estado se arrogue o direito de fazer justiça”, escreveu.

Lula alerta que ações unilaterais têm efeitos que vão muito além do país diretamente atingido. Segundo ele, esse tipo de prática ameaça a estabilidade global, afeta o comércio internacional, desorganiza investimentos, amplia fluxos de refugiados e enfraquece a capacidade dos Estados de enfrentar desafios comuns, como o crime organizado e outras ameaças transnacionais.

No artigo, o presidente demonstra preocupação especial com a aplicação dessas ações à América Latina e ao Caribe, regiões que, segundo ele, historicamente buscam a paz por meio da igualdade soberana entre as nações, da rejeição ao uso da força e da defesa da autodeterminação dos povos.

América do Sul sob ataque inédito - Um dos pontos mais sensíveis do texto é quando Lula destaca o caráter inédito do episódio envolvendo a Venezuela. Segundo o presidente, em mais de 200 anos de história independente, esta é a primeira vez que a América do Sul sofre um ataque militar direto dos Estados Unidos.

A afirmação reforça o tom de alerta do artigo e ajuda a explicar o peso político que o episódio assume na visão do governo brasileiro. Para Lula, a situação ultrapassa o debate sobre a Venezuela e passa a representar uma ameaça direta à estabilidade regional.

Ao tratar da América Latina e do Caribe de forma mais ampla, o presidente lembra que a região reúne mais de 660 milhões de habitantes e possui interesses próprios, que não podem ser subordinados a disputas geopolíticas externas. Em um mundo cada vez mais multipolar, ele defende que nenhum país deve ter suas relações internacionais questionadas por buscar diálogo e cooperação com diferentes atores globais.

Lula é direto ao afirmar que a região não aceitará uma posição subalterna no cenário internacional. “Não seremos subservientes a empreendimentos hegemônicos”, escreveu, ao defender que a construção de uma América Latina próspera, pacífica e plural é o único caminho possível para o desenvolvimento regional.

Agenda regional além das ideologias - Outro eixo central do artigo é a defesa de uma agenda regional positiva, capaz de superar diferenças ideológicas entre governos. Para Lula, a cooperação entre países latino-americanos deve se concentrar em objetivos concretos, que impactem diretamente a vida da população.

Entre as prioridades citadas estão a atração de investimentos em infraestrutura física e digital, a promoção de empregos de qualidade, a geração de renda e a ampliação do comércio dentro da região e com países de fora dela.

Segundo o presidente, somente por meio da cooperação será possível mobilizar os recursos necessários para enfrentar problemas históricos da região, como a fome, a pobreza, o tráfico de drogas e as mudanças climáticas. No texto, Lula deixa claro que esses desafios não reconhecem fronteiras e exigem respostas coordenadas.

Ao tratar especificamente da Venezuela, o presidente reafirma a posição do Brasil de que o futuro do país deve ser decidido pelos próprios venezuelanos. “O futuro do país, assim como o de qualquer outro, deve permanecer nas mãos de seu povo”, afirmou.

Lula defende que apenas um processo político inclusivo, liderado internamente, pode levar a Venezuela a um futuro democrático e sustentável, sem interferências externas que agravem ainda mais a instabilidade.

Cooperação com Venezuela e diálogo com os EUA - No trecho final do artigo, Lula aborda a relação do Brasil tanto com a Venezuela quanto com os Estados Unidos. Em relação ao país vizinho, o presidente afirma que o Brasil seguirá trabalhando com o governo e o povo venezuelanos para proteger os mais de 1.300 quilômetros de fronteira compartilhada, além de aprofundar a cooperação bilateral em áreas estratégicas.

A menção à fronteira ressalta que, para o Brasil, a estabilidade da Venezuela tem impactos diretos na segurança, na economia e na dinâmica social da região Norte do país, o que torna o diálogo e a cooperação ainda mais relevantes.

Sobre os Estados Unidos, Lula adota um tom diplomático, mas firme. Ele lembra que Brasil e EUA são “as duas democracias mais populosas do continente americano” e que há espaço para cooperação em temas de interesse comum.

Segundo o presidente, unir esforços em torno de planos concretos de investimento, comércio e combate ao crime organizado é o caminho mais produtivo para a relação bilateral. “Somente juntos podemos superar os desafios que afligem um hemisfério que pertence a todos nós”, escreveu.

Ao publicar o artigo em um dos jornais mais influentes do mundo, Lula busca não apenas criticar uma ação específica, mas inserir o Brasil no centro do debate global sobre soberania, multilateralismo e respeito às regras internacionais. O texto também funciona como um recado claro de que o país pretende atuar como voz ativa na defesa da estabilidade regional e de uma ordem internacional baseada no diálogo, e não na força.