Iury de Oliveira | 18 de janeiro de 2026 - 09h10

Após dois anos de queda, MS volta a ficar em alerta para avanço da dengue em 2026

Projeção da Fiocruz e FGV indica cenário epidêmico para o Estado, mas intervenções em Campo Grande e Dourados podem mudar o rumo da doença

DENGUE MS
Dengue pede atenção de todos já no início do ano - Foto: Reprodução

Mato Grosso do Sul entra em 2026 sob novo alerta para a dengue após dois anos de queda nos casos. Projeções do desafio internacional InfoDengue–Mosqlimate, desenvolvido por pesquisadores da Fiocruz e da FGV (Fundação Getulio Vargas), apontam aumento da transmissão no Estado ao longo deste ano.

A estimativa é que o coeficiente de incidência suba de 492,99 casos por 100 mil habitantes, em 2025, para 674,54 em 2026, nível considerado epidêmico pela OMS (Organização Mundial da Saúde).

O infectologista Julio Croda, pesquisador da Fiocruz e professor da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), destaca que a projeção indica risco, não uma certeza.

Ele explica que os modelos utilizam dados de imunidade da população, circulação do Aedes aegypti e histórico epidemiológico. “É importante destacar que esses modelos não levam em conta intervenções preventivas recentes”, afirma Croda.

Segundo o pesquisador, a queda nos casos em 2023 e 2024 deixou um grande contingente de pessoas suscetíveis, o que ajuda a explicar a expectativa de retomada da transmissão em 2026.

Campo Grande e Dourados podem mudar a curva - Croda lembra, porém, que o cenário pode ser melhor do que o previsto em razão de ações recentes nas maiores cidades do Estado, que não foram consideradas nos modelos.

Em Campo Grande, foi concluída em dezembro de 2023 a liberação do mosquito com Wolbachia, tecnologia que reduz a capacidade de transmissão da dengue. A estimativa é de redução de cerca de 63% nos casos em 2024.

Em Dourados, houve vacinação em massa com a Qdenga, em parceria entre Fiocruz, prefeitura e iniciativa privada.

“Essas duas intervenções ocorreram justamente nas maiores cidades do Estado e não foram captadas pelos modelos. Por isso, existe a possibilidade de que a projeção não se confirme na prática”, explica o infectologista.

Mesmo com essas estratégias, Croda reforça que a principal recomendação continua sendo eliminar focos do mosquito, especialmente no começo do período sazonal, quando calor e chuva favorecem a reprodução do Aedes aegypti.

Menos casos, mas ainda com mortes - Dados do Ministério da Saúde mostram que, em 2025, Mato Grosso do Sul registrou 13.888 casos prováveis de dengue, com 20 mortes confirmadas. Em 2024, foram mais de 18 mil casos prováveis e 31 óbitos.

A redução nos registros entre 2024 e 2025 indica avanço nas ações de controle, mas o número de mortes mantém a doença entre as principais preocupações da saúde pública no Estado.

Chikungunya e zika seguem em alta vigilância - Outras arboviroses transmitidas pelo Aedes também preocupam. Em 2025, o Estado teve 14.096 casos prováveis de chikungunya, segunda maior incidência do país, atrás apenas de Mato Grosso, e 17 mortes confirmadas, o equivalente a cerca de 14% dos óbitos por chikungunya no Brasil no período.

No mesmo ano, foram registrados 4.119 casos prováveis de zika, com um óbito confirmado em Mato Grosso do Sul.

SES vê início de 2026 com baixa transmissão - Procurada, a SES (Secretaria de Estado de Saúde) afirma que ainda não é possível traçar um cenário definitivo para dengue, zika e chikungunya em 2026.

Os dados iniciais da Semana Epidemiológica 01/2026 indicam baixa transmissão, mas a secretaria lembra que se trata de informações preliminares, sujeitas a alteração conforme atualização dos municípios.

Até o momento, o Estado contabiliza 132 casos prováveis de dengue, com dois confirmados, e 131 casos prováveis de chikungunya, também com duas confirmações. Em relação à zika, a SES informa que não há, por enquanto, registro de relevância epidemiológica.

A pasta destaca que o comportamento ao longo do ano dependerá de fatores como clima, densidade do mosquito, circulação viral e efetividade das ações de vigilância e controle.

Alívio parcial não elimina o risco - No caso da dengue, a SES ressalta uma redução progressiva entre 2023, 2024 e 2025, atribuída a ações integradas de prevenção e controle em todo o Estado.

Já a chikungunya manteve um cenário mais grave: não houve queda entre 2024 e 2025, ano marcado por situação epidêmica, com mais de 14 mil casos prováveis. Mesmo assim, os dados do início de 2026 mostram queda nos registros após o pico de transmissão, embora os números ainda sejam preliminares.

A secretaria alerta que o Aedes aegypti continua amplamente presente nos municípios e que mudanças climáticas ao longo do ano podem favorecer uma retomada rápida da transmissão, com risco de novos surtos, casos graves e óbitos, sobretudo entre idosos, pessoas com doenças crônicas e gestantes.

Medidas básicas continuam decisivas - Para evitar um cenário pior, a SES reforça a importância da vigilância contínua, do controle do mosquito e da participação da população.

Entre as principais orientações estão:

  • eliminar recipientes com água parada em casas, quintais e áreas comuns

  • vedar caixas-d’água e tambores

  • descartar corretamente lixo e entulho

  • manter limpas calhas, ralos e pratos de vasos de plantas

No balanço de 2026, o resultado final deve depender da soma de esforços entre poder público, tecnologia, campanhas de vacinação e a rotina de cuidados dentro de cada imóvel em Mato Grosso do Sul.