Gabriel Hirabahasi e Mateus Maia | 15 de janeiro de 2026 - 13h15

Alckmin diz que EUA dificilmente vão sobretaxar países que mantêm comércio com o Irã

Vice-presidente afirma que medida atingiria mais de 70 países e destaca avanço nas negociações para reduzir tarifas americanas sobre produtos brasileiros

COMÉRCIO EXTERIOR
Vice-presidente Geraldo Alckmin comentou comércio internacional e negociações tarifárias em entrevista à EBC - Foto: Cadu Gomes / VPR/ABrasil

O vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, avaliou que é pouco provável que os Estados Unidos levem adiante a ameaça de impor tarifas adicionais a países que mantêm relações comerciais com o Irã. Segundo ele, a aplicação de uma medida desse tipo teria impacto amplo e atingiria dezenas de nações, inclusive países europeus que mantêm fluxo regular de exportações para o mercado iraniano.

A declaração foi feita durante entrevista ao programa Bom Dia, Ministro, da Empresa Brasil de Comunicação (EBC). Na avaliação de Alckmin, a complexidade das relações comerciais globais torna inviável uma política de sobretaxação generalizada. “Os EUA colocaram que não querem comércio com o Irã, mas o Irã tem cerca de 100 milhões de pessoas. Mais de 70 países exportam para lá, inclusive europeus. A maioria dos países tem algum tipo de relação”, afirmou.

Alckmin destacou que, no caso brasileiro, o comércio com o Irã tem peso limitado. Mesmo assim, o saldo é favorável ao Brasil. De acordo com ele, as exportações brasileiras para o país do Oriente Médio somam cerca de US$ 2,5 bilhões, enquanto as importações não chegam a US$ 200 milhões. “A nossa relação é pequena, mas temos um superávit expressivo. Não vejo relação direta que justifique esse tipo de medida”, disse.

Além de vice-presidente, Alckmin acumula o cargo de ministro do Desenvolvimento, da Indústria e do Comércio. Na entrevista, ele também comentou sobre as negociações comerciais com os Estados Unidos e afastou a possibilidade de que o acordo firmado entre o Mercosul e a União Europeia atrapalhe o diálogo com o governo norte-americano.

Segundo Alckmin, os dois processos seguem caminhos distintos e não são excludentes. Para ele, o mercado dos Estados Unidos continua sendo estratégico para o Brasil, especialmente pela compra de produtos com maior valor agregado. “Os EUA são muito importantes porque é para onde exportamos produtos de valor agregado”, explicou.

O vice-presidente afirmou que o governo brasileiro mantém esforços contínuos para reduzir as tarifas impostas durante a gestão do ex-presidente Donald Trump. Ele lembrou que, no início, uma ordem executiva americana afetava cerca de 37% dos produtos brasileiros, com uma tarifa que combinava 10% mais 40%.

Desde então, segundo Alckmin, houve avanços graduais. “Reduzimos de 37% para 36%, depois para 34%, 33%, 22% e hoje está em 19%”, detalhou. Ele acrescentou que o trabalho agora é focado tanto na diminuição das alíquotas quanto na ampliação da lista de produtos excluídos do tarifaço.

Entre os itens que deixaram de ser taxados nas rodadas mais recentes de negociação, Alckmin citou café, carne e frutas. Em etapas anteriores, já haviam sido retirados produtos como suco de laranja, aviões e alguns itens do setor madeireiro. A estratégia, segundo ele, é ampliar o acesso de produtos brasileiros ao mercado norte-americano, mantendo diálogo constante com as autoridades dos EUA.

Para o vice-presidente, o cenário internacional exige cautela, mas também persistência nas negociações. Ele avalia que decisões unilaterais de grande alcance, como a taxação de países que negociam com o Irã, tendem a enfrentar dificuldades práticas e resistência diplomática, especialmente quando afetam um número elevado de parceiros comerciais.