Redação O Estado de S. Paulo* | 14 de janeiro de 2026 - 18h30

ONGs dizem que usuários da Starlink no Irã têm acesso gratuito à internet

Organizações relatam que serviço via satélite da SpaceX liberou uso sem cobrança para driblar bloqueio imposto pelo regime iraniano

MUNDO
Ativistas iranianos usam conexão via satélite da Starlink para enviar vídeos e relatos dos protestos, mesmo com o apagão de internet no país. - (Foto: Nikolas Kokovlis/NurPhoto/GettyImages)

A capacidade de manifestantes iranianos mostrarem ao mundo detalhes dos protestos sangrentos em todo o país ganhou um impulso decisivo. Organizações sem fins lucrativos afirmam que usuários da Starlink no Irã passaram a ter acesso gratuito à internet, o que ajuda a contornar a tentativa mais forte já feita pelo governo de Teerã de impedir que informações saiam de suas fronteiras.

Segundo ativistas ouvidos na quarta-feira, 14, o serviço de internet via satélite da SpaceX reduziu tarifas e passou a liberar o uso sem cobrança para quem já possui os equipamentos de recepção no país. A medida veio após o fechamento total das telecomunicações e do acesso à internet para os 85 milhões de habitantes do Irã em 8 de janeiro, quando os protestos se ampliaram em meio à economia em crise e ao colapso da moeda da República Islâmica.

A SpaceX não anunciou oficialmente a decisão e não respondeu a pedidos de comentário, mas essas organizações dizem que a Starlink está disponível gratuitamente para qualquer pessoa no Irã que tenha os receptores desde terça-feira, 13.

“A Starlink tem sido crucial”, disse Mehdi Yahyanejad, iraniano cuja organização sem fins lucrativos Net Freedom Pioneers ajudou a contrabandear unidades para o país. Ele citou um vídeo divulgado no domingo que mostra fileiras de corpos em um centro médico forense perto de Teerã.

“Isso mostrou algumas centenas de corpos no chão, que vieram à tona por causa do Starlink”, afirmou ele, em entrevista concedida de Los Angeles. “Acho que esses vídeos do centro mudaram bastante a compreensão de todos sobre o que está acontecendo, porque eles viram com seus próprios olhos.”

Desde o início das manifestações, em 28 de dezembro, o número de mortos subiu para mais de 2.500 pessoas, principalmente manifestantes, mas também agentes de segurança, de acordo com a Agência de Notícias de Ativistas de Direitos Humanos, com sede nos Estados Unidos.

A Starlink é proibida no Irã pelas regras de telecomunicações, já que o país nunca autorizou a importação, venda ou uso dos dispositivos. Ativistas temem ser acusados de ajudar os Estados Unidos ou Israel ao usar o serviço e de serem enquadrados por espionagem, o que pode acarretar a pena de morte.

As primeiras unidades foram contrabandeadas em 2022, durante protestos contra a lei do uso obrigatório do véu, depois que Elon Musk conseguiu que o governo Biden isentasse o serviço das sanções ao Irã.

Desde então, estima-se que mais de 50 mil terminais tenham sido levados ao país. Usuários se esforçam para esconder o equipamento: utilizam redes privadas virtuais (VPN) para ocultar endereços IP e tomam outras precauções, contou Ahmad Ahmadian, diretor executivo da Holistic Resilience, organização com sede em Los Angeles responsável por levar algumas das primeiras unidades Starlink ao Irã.

A Starlink é uma rede global de internet que conta com cerca de 10 mil satélites orbitando a Terra. Os assinantes precisam de uma antena com linha de visão livre para o satélite, instalada em áreas abertas — justamente onde o equipamento pode ser detectado pelas autoridades. Segundo Ahmadian, muitos iranianos disfarçam as antenas como se fossem painéis solares.

Depois que as tentativas de interromper comunicações durante a guerra de 12 dias com Israel, em junho do ano passado, se mostraram pouco eficazes, os serviços de segurança iranianos adotaram “táticas mais extremas” para interferir nos sinais de rádio e nos sistemas de GPS da Starlink, disse Ahmadian.

Ele afirmou que, após receber relatórios sobre essas interferências, a SpaceX lançou uma atualização de firmware que ajudou a contornar as novas contramedidas.

O Irã começou a permitir que as pessoas fizessem chamadas internacionais na terça-feira por meio de telefones celulares, mas chamadas de fora do país para o Irã continuam bloqueadas.

Em comparação com os protestos de 2019, quando medidas menos severas do governo conseguiram sufocar o fluxo de informações ao resto do mundo por mais de uma semana, Ahmadian avalia que a proliferação da Starlink tornou impossível impedir completamente as comunicações. Segundo ele, esse fluxo pode aumentar agora que o serviço se tornou gratuito.

“Desta vez, eles realmente desligaram tudo, nem mesmo os telefones fixos estavam funcionando”, afirmou. “Mas, apesar disso, as informações estavam saindo, e isso também mostra como essa comunidade de usuários da Starlink está distribuída no país.”

Musk já tornou a Starlink gratuita em outros contextos, como durante desastres naturais, e a Ucrânia depende fortemente do serviço desde a invasão em grande escala da Rússia em 2022. Inicialmente, o sistema foi financiado pela própria SpaceX e, depois, por meio de um contrato com o governo americano.

O empresário também levantou preocupações sobre o poder concentrado em um único sistema depois de se recusar a estender a cobertura da Starlink na Ucrânia para apoiar um contra-ataque planejado na Crimeia ocupada pela Rússia.

Como defensor da Starlink para o Irã, Ahmadian disse que a decisão de Musk sobre a Crimeia foi um alerta para ele, mas afirmou não ver motivo para o empresário agir de forma semelhante no caso iraniano. “Olhando para o Elon político, acho que ele teria mais interesse... em um Irã livre como um novo mercado”, avaliou.

Julia Voo, diretora do Programa de Poder Cibernético e Conflitos Futuros do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, em Cingapura, destacou o risco de depender de uma única empresa como “salvação”, já que isso cria um “ponto único de falha”, embora ainda não haja alternativas comparáveis.

Ela lembrou que a China vem explorando maneiras de caçar e destruir satélites Starlink. Para Voo, quanto mais o sistema se mostrar eficiente em penetrar “apagões terrestres determinados pelo governo”, mais outros Estados vão observar o modelo e buscar ampliar controles sobre diferentes formas de comunicação.

“Isso só vai resultar em mais esforços para ampliar os controles sobre várias formas de comunicação, para aqueles no Irã e em todos os outros lugares que estão observando”, afirmou.

Fonte: Associated Press.