Carlos Guilherme | 14 de janeiro de 2026 - 11h20

'Cortamos despesas sem aumentar impostos'

Vice-governador afirma que Estado manteve investimentos, reforçou rede regional de saúde e só quer falar de política depois da Copa do Mundo

BARBOSINHA
Governo corta gastos sem elevar impostos, mantém investimentos e adia debate eleitoral para depois da Copa, diz Barbosinha - (Foto: Iury de Oliveira)

Em entrevista ao Giro Estadual de Notícias nesta quarta-feira (14), o vice-governador e governador interino de Mato Grosso do Sul, Barbosinha (PP), afirmou que 2025 foi “um ano extremamente desafiador” para a gestão pública, mas que o governo optou por cortar despesas sem aumentar tributos, preservando investimentos e mantendo a folha em dia.

Ao lado do governador Eduardo Riedel (PP), ele destacou o crescimento econômico do Estado, a expansão da rede regionalizada de saúde, o caráter municipalista da gestão e disse que o debate sobre as eleições de 2026 só deve acontecer depois do carnaval e da Copa do Mundo, sempre como consequência do trabalho realizado.

A Crítica: Que balanço faz da sua trajetória até aqui e da diferença entre atuar no Legislativo e no Executivo?

Barbosinha: Embora eu tenha sido duas vezes deputado estadual, a minha vida basicamente foi no Executivo. Eu iniciei como prefeito de Angélica aos 23 anos, o prefeito mais jovem do Estado até hoje, não teve ninguém mais novo do que eu a assumir um mandato de prefeito em Mato Grosso do Sul.

Depois, fui presidente da Sanesul por mais de sete anos, secretário de Justiça e de Segurança Pública e hoje vice-governador. São experiências diferentes. Na Assembleia Legislativa, como legislador, tive oportunidade de ser líder do governo, presidente da Comissão de Constituição, Justiça e Redação. Acho que foi uma experiência bastante exitosa.

Acabei virando vice-governador num momento em que o Riedel precisava de um nome para poder acompanhar. Agora estamos trabalhando e tenho a honra de, mais uma vez, estar no exercício do governo do Estado, dando ao governador a tranquilidade de poder sair com a família, viajar, e o Estado continuar caminhando em absoluta tranquilidade.

Ao longo desse período, praticamente desde o Natal, tenho percorrido Mato Grosso do Sul, as diferentes regiões, entregando obras, lançando obras, falando com as lideranças políticas, dialogando com a comunidade e mostrando que o Estado não para. É uma relação de absoluta confiança do governador no seu vice e uma equipe técnica altamente competente, um secretariado num ritmo que não deixa o Estado parado.

A Crítica: Como o senhor enxerga hoje o papel do vice-governador dentro do governo de Mato Grosso do Sul e de que forma tem buscado ampliar sua atuação?

Barbosinha: Primeiro, é importante destacar a forma como o governador Eduardo Riedel age. É uma pessoa que tem brilho próprio e, quando tem brilho próprio, não se incomoda que o vice, ao exercer a interinidade – e fazemos isso num diálogo de absoluta confiança –, siga trabalhando pelo Estado.

Para se ter uma ideia, ao longo desse período, tive oportunidade de ir a Costa Rica, Chapadão do Sul, Naviraí, Itaquiraí, Eldorado, Mundo Novo, Iguatemi, Japorã, Tacuru, percorrendo o Estado.

Esse é o Mato Grosso do Sul pujante, em que tenho oportunidade de estar ao lado do Riedel, trabalhando, lançando obras e inaugurando obras de pavimentação asfáltica, na saúde, na educação. Ontem, em Água Clara, tive oportunidade de entregar pavimentação asfáltica, visitar a construção de casas e entregar a reforma da escola Chico Mendes, um investimento de mais de 7,5 milhões de reais. Tem sido assim em todos os lugares que tenho percorrido.

Mato Grosso do Sul é o segundo Estado que mais cresceu na federação, com 13,4%. Batemos recorde de exportação em 2025: foram 10,7 bilhões de dólares exportados, com um saldo positivo de balança superior a 8 bilhões. O que queremos é que essa riqueza seja compartilhada em todos os 79 municípios, em todos os recantos do nosso Estado.

Barbosinha abre o jogo sobre crise, saúde e eleições em MS - (Foto: Iury de Oliveira)

A Crítica: O governo atual sucede a gestão de Reinaldo Azambuja, que já vinha com resultados positivos. Como o senhor avalia essa continuidade, o modelo municipalista e os principais avanços sociais e econômicos do Estado?

Barbosinha: O Reinaldo governou o Estado a partir de 2015, dois mandatos, oito anos administrando Mato Grosso do Sul. Nas reuniões do programa MS Municipalismo Ativo, o governador recebeu prefeitos, vice-prefeitos, vereadores e secretários dos 79 municípios.

Uma fala que sempre destaco é o Mato Grosso do Sul de 2015, 2016, 2017 e 2018, que juntava moedinha para pagar a folha dos servidores. Era um Estado sem capacidade de investimento. Quando o governador Reinaldo, com papel importantíssimo do Riedel como secretário de Governo, mandou para a Assembleia Legislativa um pacote que permitiu mudar os parâmetros de gestão, houve uma transformação.

Esse Mato Grosso do Sul que hoje entrega obras traz um imenso desafio: suceder uma gestão bem avaliada. Suceder gestor mal avaliado é fácil. Receber um Estado com gestão de alto nível é mais difícil. O Riedel faz isso muito bem porque foi uma sucessão absolutamente natural. Embora o Reinaldo fosse o governador, o Riedel era, de certa forma, a cabeça pensante, junto com o Reinaldo, de todo esse processo.

A transição foi absolutamente tranquila. A preocupação do Riedel com desenvolvimento vem atrelada à sustentabilidade. Quando se olha os indicadores de crescimento e a lei do Pantanal, vê-se a preocupação com a preservação ambiental. As indústrias e empresas que vêm para Mato Grosso do Sul têm foco em sustentabilidade.

Ontem tive oportunidade de visitar, em Água Clara, a Green Plac, de compensados e laminados. É uma empresa de ciclo completo, que aproveita absolutamente tudo. Há preocupação com tecnologia, com o Estado digital, com fibra ótica chegando aos 79 municípios.

Há também a preocupação social. Mato Grosso do Sul reduziu em mais de 40% a pobreza extrema. Isso mostra a preocupação do governo, não apenas em gerar desenvolvimento. Acreditamos que os dois maiores programas sociais que o Estado pode realizar são: geração de emprego, renda e oportunidades; e educação de qualidade. Nesses aspectos, todos os indicadores são favoráveis.

Somos o segundo Estado do país que mais cresceu em alfabetização. Em 2025, batemos recorde ao reduzir a reprovação em 50%. Nosso melhor indicador era de 10,7%; reduzimos para 5%. O índice de meninos deixando a escola é o menor da história do Estado.

Na saúde, o processo de regionalização é marcante: entregamos recentemente o Hospital Regional de Dourados; o Magito Tomé, em Três Lagoas, atendendo toda a região da Costa Leste; o Regional de Ponta Porã; estamos estruturando a PPP do Regional de Campo Grande e cuidando da questão de Corumbá. A preocupação em ter todas as áreas trabalhando é fundamental para alicerçar esse governo que Mato Grosso do Sul se acostumou a ter: um governo municipalista.

Tive a oportunidade de ser prefeito numa época em que não se via governo do Estado executando obras nos municípios. Hoje, vemos pavimentação asfáltica, drenagem, obras de saneamento, universalização dos serviços de água e de coleta e tratamento de esgoto. Seremos, seguramente, o primeiro Estado da federação a universalizar o serviço de coleta e tratamento de esgoto.

Isso é fruto de boa gestão, e o Riedel não abre mão de ter um Estado equilibrado do ponto de vista econômico e financeiro. Para realizar entregas, não tem milagre: ou você tem superávit entre receita e despesa, o que só se faz com boa gestão, ou as coisas não acontecem.

A Crítica: No congresso dos municípios, prefeitos relataram que 2025 foi um ano extremamente difícil para as prefeituras, principalmente na saúde. Esse é hoje um dos principais desafios da gestão estadual?

Barbosinha: Foi, sim, um ano extremamente desafiador do ponto de vista de gestão. A despesa da máquina pública não para de subir. Se pegar a folha de pagamento, mesmo sem conceder reajuste, ela aumenta mês a mês, por causa das promoções, anuênios, quinquênios. Tudo isso impacta no aumento de despesas, e a receita nem sempre acompanha.

Em 2025 tivemos uma redução abrupta de receita com o gás que vem da Bolívia, que representava uma fonte extremamente importante. E tivemos praticamente três anos de frustração de safra, de diminuição de safra, o que também impacta as receitas.

O vice-governador e governador interino detalha como Mato Grosso do Sul atravessou um 2025 “extremamente desafiador” sem aumentar impostos, mantendo investimentos e folha em dia - (Foto: Iury de Oliveira)

Há um aspecto importante: quando assumiu o governo, o Riedel fez a opção de não aumentar tributos. Em momentos de dificuldade, o gestor é tentado a duas coisas: ou aumenta tributos ou corta despesas. Em Mato Grosso do Sul cortamos despesas sem cortar investimentos. Não paralisamos investimentos, não atrasamos uma única folha de pagamento e fechamos 2025 com a CAPAG, que mede a capacidade de pagamento do ente público, como uma das melhores do Brasil. Os indicadores mostram isso, e é fruto de esforço de gestão.

A Crítica: Na saúde, especificamente, prefeitos apontam que é onde mais se gasta e menos se recebe. Como o governo estadual está enfrentando esse desafio?

Barbosinha: Saúde é um problema extremamente complexo. Somos praticamente o único país do mundo com um SUS, um sistema de saúde aberto para todas as pessoas. Estamos trabalhando o presente olhando para o futuro.

O nosso secretário de Saúde, junto com o governador Riedel, prepara o sistema, porque ele é integrado: municípios cuidam da atenção primária, dos postos e unidades básicas de saúde; o Estado cuida da média e alta complexidade, em parceria com a União. É um sistema tripartite e, às vezes, temos problemas de gestão.

Uma reclamação constante aqui em Campo Grande é a de municípios que, em vez de investir na atenção primária, investem em ambulâncias e transportam pacientes para a capital. Com a regionalização e o Hospital Regional de Dourados, que entrou em atividade com 100 leitos e capacidade de aproximadamente 1.040 cirurgias por mês, e com a segunda etapa – que devemos entregar ainda no primeiro semestre, com mais 92 ou 100 leitos –, será possível melhorar o atendimento não apenas em Dourados, mas em 32 municípios da macrorregião, que respondem por mais de 900 mil habitantes.

Tudo isso é feito para diminuir o fluxo que vem para a capital. Da mesma forma, o Hospital Regional de Ponta Porã é referência. Da mesma forma, o Magito Tomé, em Três Lagoas. Na Costa Leste, o índice de satisfação com a saúde é o melhor do Estado em razão do regional de Três Lagoas.

Queremos levar isso para Corumbá, e a PPP do Regional de Campo Grande é referência nacional. É um modelo que permitirá construir uma nova estrutura, mais do que dobrar a quantidade de leitos e, ao final, migrar para o novo prédio e reformar a estrutura antiga, formando um grande complexo.

Ao longo do tempo, haveremos de melhorar muito as condições de saúde, apesar dos imensos esforços já feitos pelo governo do Estado, como agora com a Santa Casa. O governo está presente na estrutura de saúde dos 79 municípios de Mato Grosso do Sul.

A Crítica: O senhor citou rapidamente o gás da Bolívia, uma receita importante para o Estado. Temos alguma novidade sobre esse tema?

Barbosinha: É um assunto complexo. Além da diminuição do gás da Bolívia, é preciso entender o porquê. Com a saída da Petrobras da Bolívia, o país perdeu capacidade de extração desse gás. Houve também mudança na política da Petrobras no Brasil: o gás extraído na região do Rio de Janeiro, nos campos do pré-sal, antes era não utilizado ou queimado e hoje está sendo usado em quantidade muito maior. Isso diminuiu o fluxo e a necessidade de gás vindo da Bolívia.

Estamos discutindo, por exemplo, com a Argentina, a possibilidade, junto com a rota bioceânica, de aproveitar o gás produzido em Vaca Muerta, onde há grandes reservas. Estamos dialogando, conversando, e, quem sabe, no futuro possamos aproveitar o gasoduto existente, vindo da região da Argentina, interligando esse gás de Vaca Muerta ao gasoduto que já passa por Mato Grosso do Sul. Assim, não há problema ambiental, porque é só fazer um ramal de interligação e usar a estrutura que já temos.

A Crítica: O governador Eduardo Riedel costuma dizer que não é hora de falar de eleições. Como está a sua disposição para 2026 e a possibilidade de continuar na chapa?

Barbosinha: O governador tem razão. Antes das eleições ainda teremos, primeiro, o carnaval. Depois, a Copa do Mundo. Temos que passar pelo carnaval, depois pela Copa, e espero que o Brasil traga essa alegria. Que o italiano Ancelotti consiga comandar o esquadrão canarinho e que possamos, se não ganhar, ao menos apresentar um bom futebol. Estamos precisando de um título.

Depois disso, vamos discutir eleição. Digo o seguinte: primeiro se trabalha. Política é resultado da concretização de um bom trabalho. Se você foca na política pela política, perde o rumo da gestão e da administração. Nossa preocupação é fazer com que Mato Grosso do Sul caminhe bem, chegar com todos os indicadores positivos e que a população, lá na ponta, perceba essas melhorias – com mais asfalto, mais saneamento, mais saúde, mais educação, mais segurança pública.

Estou governador interino até sexta-feira, dia 16. Nesse período, sigo viajando pelo Estado e entregando obras - (Foto: Iury de Oliveira)

Aí, sim, se chega ao momento eleitoral para fazer o debate que o Brasil precisa. Nos últimos anos, nos perdemos discutindo política e não discutindo os verdadeiros problemas: mais investimentos, geração de empregos, programas sociais. Vejo hoje um foco muito grande em programas sociais, que precisam ser temporários e voltados a quem realmente precisa. A melhor forma de fazer programa social é gerar emprego, renda, oportunidades e educação de qualidade.

O menino e a menina que estudam resgatam a si mesmos e a família inteira. Estou caminhando junto com o Riedel com muita tranquilidade. Ser ou não ser o vice na futura chapa para o governo do Estado não depende apenas de mim. Depende de uma série de conjunturas: dos partidos políticos, do próprio governador, porque vice é uma escolha muito pessoal, de quem vai caminhar ao lado.

Estou muito tranquilo. Acredito que estamos fazendo um bom trabalho. Há uma sintonia muito fina entre o governador e o vice-governador, uma relação de absoluta confiança, e tenho procurado fazer a boa semeadura. Se vamos fazer colheita ou não desse trabalho, isso não depende de mim. Acho que está nas mãos de Deus e nas mãos do povo.

Sempre caminhei assim. Eu era candidato a deputado estadual, já tinha passado pela convenção, estava a caminho quando me ligaram: precisavam de um vice, e o Riedel tinha 3% nas pesquisas. Sou um homem de fé. Acredito no trabalho e na bondade de Deus. O que tem que ser, será. Quando algo não acontece do jeito que eu imagino, entendo que não era para ser, porque o bom sempre virá. Sigo trabalhando com muita tranquilidade por Mato Grosso do Sul, ao lado do nosso governador Eduardo Riedel. Confira a entrevista na íntegra: