João Pedro Bitencourt | 12 de janeiro de 2026 - 16h05

Moraes autoriza notificação pessoal de Augusto Heleno em processo ético

Comissão de Ética apura falas do general sobre uso da Abin em reunião no Planalto em 2022

JUSTIÇA
Ministro Alexandre de Moraes autorizou notificação pessoal de Augusto Heleno em processo da Comissão de Ética. - Foto: Imagem Ilustrativa / A Critica

O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou que servidores da Comissão de Ética Pública (CEP) da Presidência da República façam a notificação pessoal do general Augusto Heleno em um processo que apura supostos desvios éticos cometidos quando ele chefiava o Gabinete de Segurança Institucional (GSI) no governo do ex-presidente Jair Bolsonaro. A autorização foi concedida na sexta-feira (9).

A decisão atende a pedido da Comissão de Ética, que informou ao STF a instauração formal de um Processo de Apuração Ética (PAE) contra Heleno. Segundo o despacho, a medida foi necessária após repetidas tentativas frustradas de notificação por e-mail e pelos Correios. Com a autorização, dois servidores da Secretaria-Executiva da CEP poderão realizar a entrega presencial da notificação.

O procedimento foi aberto com base em voto do conselheiro Manoel Caetano Ferreira Filho, relator do caso na Comissão de Ética, que apontou indícios de autoria e materialidade de conduta incompatível com o Código de Conduta da Alta Administração Federal.

A apuração tem como foco declarações feitas por Heleno durante uma reunião realizada no Palácio do Planalto em 5 de julho de 2022, convocada pelo então presidente Jair Bolsonaro com ministros e autoridades do governo. O vídeo do encontro foi divulgado posteriormente.

Na gravação, Heleno afirma que a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) deveria montar um esquema para acompanhar “o que os dois lados estão fazendo”. “Eu já conversei, ontem, com o Vitor, que é o novo diretor da Abin; nós vamos montar um esquema para acompanhar o que os dois lados estão fazendo. O problema todo disso é se vazar qualquer coisa, qualquer acusação de infiltração desse elemento da Abin em qualquer lugar”, disse o general, conforme a transcrição constante nos autos.

Em outro trecho, Heleno defende que ações deveriam ocorrer antes das eleições e menciona a possibilidade de “virar a mesa”. “Não vai ter segunda chamada da eleição; não vai ter revisão do VAR. Então, o que tiver de ser feito tem que ser feito antes das eleições; se tiver de dar soco na mesa, é antes das eleições; se tiver de virar a mesa, é antes das eleições”, afirmou.

Para a Comissão de Ética, as falas indicam possível tentativa de instrumentalização da Abin para infiltração em campanhas eleitorais, com o objetivo de reforçar uma narrativa de fraude e atuar contra instituições do Estado. “Aparentemente, trata-se de possível desvio de finalidade, voltado a reforçar a retórica de fraudes nos processos eleitorais, contrariando o resultado da vontade popular nas urnas”, aponta o voto do relator.

À época dos fatos, a Abin integrava a estrutura do próprio GSI, comandado por Heleno, o que, segundo o colegiado, agrava a conduta. A Comissão entendeu que as declarações violam o artigo 3º do Código de Conduta da Alta Administração Federal, que exige padrões de integridade, moralidade, clareza de posições e decoro das autoridades.

Desde março de 2024, a Comissão tentou notificar Heleno por diferentes meios, sem sucesso. Diante da ausência de esclarecimentos, o colegiado autorizou a abertura do processo. Com a decisão do STF, o general deverá ser formalmente intimado e terá dez dias úteis para apresentar defesa e documentos.

A reportagem tenta contato com a defesa de Augusto Heleno. O espaço permanece aberto.

Heleno foi condenado pela Primeira Turma do STF a 21 anos de prisão por envolvimento no núcleo central da tentativa de golpe de Estado para manter Jair Bolsonaro no poder. Atualmente, o militar cumpre prisão domiciliar, após a apresentação de laudos médicos que apontam demência decorrente de Alzheimer.