Manoel Carlos trouxe a primeira protagonista negra em uma novela das 8
Taís Araújo protagonizou 'Viver a Vida' com a personagem Helena; autor morreu neste sábado (10) aos 92 anos
TELEVISÃOA história da televisão brasileira registra um marco que só ocorreu mais de quatro décadas após a fundação da TV Globo. Criada em 1965, a emissora exibiu sua primeira protagonista negra em uma novela do horário nobre apenas em 14 de setembro de 2009, quando Taís Araújo estreou como Helena em Viver a Vida, obra escrita por Manoel Carlos, autor que morreu neste sábado (10), aos 92 anos.
Na época, a escalação de Taís Araújo para viver a personagem central da trama das 21h foi amplamente debatida, mas o próprio autor evitava dar peso à questão racial. Em entrevistas concedidas antes da estreia, Manoel Carlos afirmava que a principal novidade estava na juventude da personagem, não em sua cor. “Poderia ser japonesa, para mim não faria diferença”, disse em declarações publicadas à época.
Em entrevista ao Estadão, três dias antes da estreia da novela, Manoel Carlos foi questionado diretamente sobre o fato de a Helena ser jovem e negra. A resposta foi direta. “Só dou importância ao fato de ser jovem. É natural que todos pensem que o principal é que ela é negra, mas não é”, afirmou o autor.
Segundo ele, a concepção inicial da personagem era a de uma mulher solteira, entre 25 e 30 anos, bem-sucedida profissionalmente e com vida internacional ativa. A ideia inicial, relatou, era escalar uma modelo. “O mais importante é que ela convença como top model, e a Taís, que tem uma beleza internacional, convence”, declarou, descartando qualquer intenção de levantar bandeiras raciais na narrativa.
Questionado se a novela pretendia abordar a pauta dos direitos raciais, Manoel Carlos respondeu negativamente. “Não, nada. Até pode surgir, porque tenho outros personagens negros. Mas definitivamente não é uma bandeira”, disse, defendendo que a profissão da personagem estivesse acima de qualquer conotação racial.
Anos depois, em 2019, Taís Araújo revisitou o tema ao comentar essas declarações em nova entrevista ao Estadão, durante os dez anos da estreia da novela. A atriz afirmou que, naquele momento, compartilhava da visão do autor, mas reconheceu que sua leitura sobre o Brasil mudou com o tempo. “Eu achava que o Brasil era aquele cordial que foi vendido para a gente a vida inteira. Hoje entendo que precisa, sim, tocar nesse assunto”, afirmou.
Relembre
Em Viver a Vida, Taís Araújo interpretou uma modelo de sucesso internacional que se casa com Marcos, personagem de José Mayer, e enfrenta resistência dentro da própria família do marido, especialmente da ex-mulher Teresa, vivida por Lília Cabral, e da enteada Luciana, interpretada por Alinne Moraes. Ao longo da trama, Helena também se envolve com o fotógrafo Bruno, papel de Thiago Lacerda, que mais tarde se revela filho de Marcos.
A personagem contracenava ainda com a mãe Edite, vivida por Lica Oliveira, o pai Oswaldo, interpretado por Laércio de Freitas, além dos irmãos e amigos que compunham o núcleo familiar e afetivo da protagonista.
Em 2025, Taís Araújo revelou, em entrevista ao Fantástico, que sofreu com a repercussão negativa que a personagem enfrentou durante a exibição da novela, mas avaliou o trabalho como transformador. “Helena não foi só um trabalho, foi o trabalho. A quantidade de mulheres que encontro e dizem que deixaram o cabelo crespo porque me viram na novela é algo que carrego comigo”, relatou.