Vinicius Batista | 10 de janeiro de 2026 - 10h40

'Janeiro Branco' da SAS foca em saúde mental de servidores em Campo Grande

Programa Cuidando de Quem Cuida intensifica ações internas, avança em diagnóstico de saúde mental e prepara nova estrutura de atendimento aos 1,3 mil trabalhadores da assistência social

SAÚDE
Em ação do Janeiro Branco, equipe de psicologia da SAS realiza dinâmicas de conscientização e orienta servidores sobre saúde mental em Campo Grande. - (Foto: Reprodução SECOM CG)

A Secretaria Municipal de Assistência Social e Cidadania (SAS) de Campo Grande decidiu olhar para dentro de casa no Janeiro Branco deste ano. Durante todo o mês, equipes de psicologia estão percorrendo as unidades da rede para realizar dinâmicas de conscientização e oferecer suporte emocional aos mais de 1,3 mil servidores da pasta, dentro do programa Cuidando de Quem Cuida.

A mobilização acontece em meio a um cenário de alerta no país, com dados do Ministério da Previdência Social apontando aumento nos afastamentos por transtornos mentais. Em Campo Grande, a estratégia da SAS é atuar principalmente na prevenção de quadros como ansiedade, depressão e estresse ocupacional, que afetam diretamente a rotina de quem trabalha na assistência social.

Um dos pilares do trabalho em 2026 é a conclusão de uma pesquisa institucional iniciada no ano passado. O estudo foi desenhado com base em critérios científicos para diagnosticar a qualidade de vida no trabalho em 46 unidades da secretaria. Até agora, 280 servidores já participaram da coleta de dados.

Para a secretária de Assistência Social e Cidadania, Camilla Nascimento, o mapeamento é peça-chave para orientar decisões de gestão.

“Com esses dados, poderemos implementar ações assertivas para minimizar os riscos de adoecimento e promover uma melhora real na rotina dos nossos trabalhadores”, afirma.

A pesquisa busca identificar fatores de risco e de proteção no dia a dia dos servidores, incluindo carga de trabalho, condições de atendimento, relações internas, apoio das equipes e percepção de acolhimento institucional. A partir desse diagnóstico, a intenção da SAS é transformar os resultados em planos de ação concretos, que possam impactar tanto o ambiente quanto os processos de trabalho.

Enquanto o estudo avança, as equipes de psicologia seguem em visitas presenciais às unidades da secretaria. Nessas ações, os servidores participam de rodas de conversa, dinâmicas de sensibilização e momentos de escuta, sempre com foco na saúde emocional.

Além da discussão de temas como cansaço emocional, sobrecarga, conflitos no ambiente de trabalho e manejo do estresse, os profissionais também explicam, de forma prática, como reconhecer sinais de sofrimento psíquico e quando buscar ajuda especializada.

Durante as visitas, os trabalhadores são orientados sobre os serviços já disponíveis na SAS para o público interno, entre eles:

O objetivo é garantir que os servidores saibam onde e como pedir ajuda, sem burocracia e sem julgamento, reforçando a ideia de que cuidar da própria saúde emocional faz parte do exercício profissional.

Outra frente de trabalho da SAS é a preparação de uma sala exclusiva de atendimento aos servidores, que será inaugurada na nova sede administrativa da secretaria. O espaço deve concentrar os serviços de saúde mental voltados ao público interno, facilitando o acesso e dando mais privacidade ao atendimento.

A proposta é que o servidor tenha um local fixo para buscar suporte psicológico, participar de grupos e receber orientações, sem depender apenas das ações itinerantes nas unidades. A criação desse ambiente dedicado também simboliza, para a gestão, o compromisso de tratar a saúde mental como um tema permanente, e não apenas sazonal.

Técnico de referência do programa Cuidando de Quem Cuida, o psicólogo Eliezer Grillo destaca que um dos objetivos centrais do Janeiro Branco dentro da SAS é enfrentar preconceitos e tabus ligados à saúde mental no setor público.

“O foco é fornecer estratégias para que o trabalhador identifique sinais de sofrimento psíquico e busque apoio precocemente”, pontua.

Segundo ele, ainda é comum que servidores associem o pedido de ajuda a uma ideia de fragilidade ou incapacidade. A campanha tenta justamente inverter essa lógica: reconhecer os próprios limites, falar sobre o que sente e buscar atendimento são atitudes vistas como cuidados profissionais, especialmente em áreas de alta carga emocional, como a assistência social.

Criado em 2017, o programa Cuidando de Quem Cuida já ultrapassou a marca de 4 mil atendimentos a servidores da rede de assistência social de Campo Grande.

Somente em 2025, foram 774 atendimentos, que englobam:

Os números mostram que a demanda por apoio emocional dentro da própria estrutura da SAS é constante e tende a crescer. Por isso, o Janeiro Branco é utilizado como vitrine para reforçar serviços que funcionam o ano inteiro, e não apenas durante a campanha.

Além da equipe técnica própria, o Cuidando de Quem Cuida mantém parcerias com instituições de ensino superior, envolvendo estudantes e profissionais em formação em atividades multidisciplinares. Essa integração permite ampliar o alcance das ações e diversificar as abordagens de cuidado.

Os grupos multidisciplinares atuam, por exemplo, em:

A ideia é que, ao fortalecer a saúde mental dos servidores, a secretaria também melhore o atendimento à população em situação de vulnerabilidade, já que profissionais mais amparados tendem a ter mais condições de oferecer um acolhimento qualificado.

Embora a campanha de Janeiro Branco tenha duração limitada ao primeiro mês do ano, a SAS quer que o tema se mantenha em pauta ao longo de 2026. A pesquisa institucional, a ampliação do atendimento psicológico, a criação de espaço exclusivo na nova sede e as parcerias com universidades fazem parte de uma estratégia de longo prazo.

Na prática, o recado da gestão é de que a saúde mental dos servidores está sendo tratada como questão estruturante da política de assistência social, e não como uma ação pontual.

A cada visita de equipe, roda de conversa ou atendimento individual, o programa Cuidando de Quem Cuida tenta reforçar uma mensagem simples: quem cuida da população também precisa ser cuidado. E, em Campo Grande, a SAS está tentando transformar essa frase em prática de gestão, com planejamento, diagnóstico e ações concretas.