Marcelo Paz promete elenco competitivo sem 'loucuras financeiras' no Corinthians
Executivo de futebol elogia grupo, confirma acerto com Gabriel Paulista e prevê maior venda da história do clube, mas dentro de limites orçamentários
CORINTHIANSO Corinthians apresentou oficialmente, nesta sexta-feira (9), no CT Joaquim Grava, o novo executivo de futebol, Marcelo Paz. Em menos de uma semana de trabalho, o dirigente fez um diagnóstico positivo do elenco, admitiu a necessidade de reforços e deixou claro qual será a linha de condução do departamento: montar um time forte, mas sem repetir erros recentes de gestão.
“O elenco é bom, mas temos necessidade de mercado. Queremos ter pelo menos dois jogadores por posição, mas estamos em um momento de reestruturação e não vamos fazer loucuras financeiras. Precisamos ser criativos no mercado”, afirmou.
A fala resume o tom da apresentação. Paz tenta equilibrar o discurso entre a urgência por resultados dentro de campo e a obrigação de colocar as contas em ordem. Ele evita promessas de contratações de impacto e reforça que o foco é em competitividade, e não em elenco “milionário”.
“Não vamos fazer contratações milionárias. Contratação é muito boa até ser anunciada, porque depois perguntam: ‘E a próxima?’. O que importa é ganhar jogo. Vejo na torcida do Corinthians a consciência de que precisamos ter responsabilidade financeira. Não vamos ter um elenco milionário, mas extremamente competitivo”, completou.
Logo no primeiro contato mais amplo com a imprensa, Marcelo Paz fez questão de valorizar o grupo que encontrou, ao mesmo tempo em que apontou onde pretende agir. A meta declarada é ter, em todas as posições, pelo menos dois atletas em condição de disputa.
Esse desenho passa por reforços pontuais, mas também por uma revisão interna. Ao falar em “necessidade de mercado”, o dirigente indica que o Corinthians seguirá ativo em busca de oportunidades, especialmente em atletas livres, em final de contrato ou em condições de negócio consideradas vantajosas.
Paz evita, porém, alimentar expectativas de grandes investimentos. Ao repetir que não haverá “loucuras financeiras”, sinaliza que a reconstrução passa por escolhas mais racionais e por um elenco montado com critério, inclusive do ponto de vista de folha salarial e pagamento em dia.
Entre as primeiras movimentações, Marcelo Paz confirmou que o Corinthians encaminhou acerto com o zagueiro Gabriel Paulista, que está livre no mercado. O defensor, que vinha sem contrato, se encaixa no perfil apontado pelo dirigente: jogador experiente, em condição de ser contratado sem alta taxa de transferência.
“Vejo que há grandes atletas com vontade. Já tive reunião com o pessoal do departamento financeiro para estarmos alinhados. O Corinthians precisa passar a imagem de clube pagador. Isso atrai e retem profissionais”, ressaltou Paz.
Ao enfatizar a importância de o clube ser visto como “pagador”, o executivo toca em um ponto sensível dos últimos anos. Com atrasos, disputas e cobranças públicas, o Corinthians se desgastou no mercado. O novo discurso tenta virar a chave, associando responsabilidade financeira à capacidade de atrair bons jogadores.
Além das questões esportivas e financeiras, Marcelo Paz também foi questionado sobre a turbulência política recente do Corinthians, marcada por disputas internas e mudanças na presidência. O dirigente tratou o assunto como um tema que precisa ficar o mais distante possível do vestiário.
“Conversei com os capitães e eles querem manter o CT blindado pelo futebol. Eles sabem o que é o Corinthians. Por isso peço ajuda da torcida. Ela jogando junto e apoiando é fundamental. Mas esse tema não é um bicho de sete cabeças, especialmente quando se tem essa estabilidade que o presidente (Osmar Stábile) trouxe”, afirmou.
A ideia de “blindagem” passa por impedir que conflitos de bastidores, decisões políticas e divergências na sede do Parque São Jorge contaminem o ambiente de trabalho no CT Joaquim Grava. Em um clube de grande pressão, o recado é de que a bola precisa ser o centro das atenções dos jogadores.
Mesmo com pouco tempo de casa, Paz vem atuando diretamente em temas sensíveis da gestão. A diretoria do Corinthians quitou recentemente uma dívida de aproximadamente R$ 40 milhões, já considerando impostos, com o Santos Laguna, do México, e aguarda agora a retirada do transfer ban imposto pela Fifa.
A regularização dessa pendência é fundamental para que o clube possa registrar novos reforços sem impedimentos. Ao mesmo tempo em que olha para o mercado, o executivo reconhece que será necessário negociar atletas para equilibrar as contas.
“Precisamos fazer a melhor venda possível para não ter perda técnica. Precisamos qualificar o elenco, mas está previsto no orçamento que temos de vender jogador. Temos jogadores jovens e talentosos. Então, é fazer a melhor venda possível. Creio que esse ano vamos fazer a maior venda da história do Corinthians”, projetou.
A frase indica que o clube conta com uma negociação de grande porte para fechar as contas. Ao falar em “maior venda da história”, Marcelo Paz mostra que a diretoria trabalha com a possibilidade de um negócio de alto valor, possivelmente envolvendo atletas formados na base ou em destaque recente.
Mesmo assim, ele faz uma ressalva: “Mas precisamos fazer o retorno esportivo antes do retorno financeiro”, ponderou. Ou seja, antes de pensar no caixa, o Corinthians quer explorar o potencial esportivo de seus principais ativos em campo.
Um dos nomes mais valorizados do elenco é o atacante Yuri Alberto, decisivo em conquistas recentes, como o Paulistão e a Copa do Brasil. Segundo Marcelo Paz, o Corinthians já recebeu uma proposta oficial da Lazio, da Itália, pelo jogador.
A diretoria, porém, considerou a oferta insuficiente. “A oferta não atende ainda ao Corinthians por tudo que ele representa”, resumiu o executivo.
A frase deixa em aberto a possibilidade de novas investidas, mas deixa claro que a venda de Yuri Alberto, se ocorrer, será tratada em patamar elevado. O atacante é visto como peça importante não só pela técnica, mas pela identificação com o torcedor, pelos gols em jogos grandes e pelo potencial de valorização.
Se de um lado o Corinthians corre atrás de reforços, de outro precisa lidar com saídas e renovações travadas por questões financeiras. Marcelo Paz confirmou que o clube tentou manter o volante Maycon, mas não conseguiu chegar a um acordo.
“Maycon não ficou porque extrapolou os limites financeiros do clube e a situação não fluiu porque temos uma responsabilidade financeira. Estávamos tratando da renovação e houve oferta (do jogador) para outros clubes. Conversei pessoalmente, liguei, mas temos de respeitar os limites. Ele fez uma escolha que temos de respeitar”, explicou.
O caso se tornou exemplo público da linha traçada pela nova gestão. Mesmo se tratando de um jogador importante, o clube decidiu não avançar além do que considera sustentável. A mensagem é de que a responsabilidade orçamentária está acima de qualquer nome.
Na lateral esquerda, a permanência de Angileri também virou um ponto de interrogação. As negociações estão “congeladas”, nas palavras de Marcelo Paz, por falta de consenso financeiro.
A situação reflete a postura mais cautelosa da diretoria. Sem acordo nos números, o Corinthians não pretende forçar um contrato que possa pesar no futuro. Ao mesmo tempo, a posição continua em avaliação dentro da montagem do elenco.
Paz revelou ainda que conversas de renovação com outros jogadores que têm contrato encerrando neste ano, como Memphis Depay, ainda não foram iniciadas. O motivo, segundo ele, é que o departamento de futebol ainda estuda a melhor formatação do grupo para a temporada antes de bater o martelo sobre quem permanece e em quais condições.
Ao longo da coletiva, Marcelo Paz repetiu que o Corinthians terá de ser “criativo” no mercado. Em um cenário de reestruturação, com grandes dívidas, transfer ban recente e necessidade de vender atletas, a estratégia passa por:
buscar jogadores em fim de contrato ou livres;
negociar salários e bonificações dentro de uma nova realidade;
aproveitar melhor os talentos da base;
e vender bem, mas na hora certa, para não comprometer o desempenho em campo.
A promessa de um elenco “extremamente competitivo”, mesmo sem ser “milionário”, se torna o ponto central da gestão. Em um clube acostumado a grandes nomes, o desafio de Marcelo Paz será transformar discurso de responsabilidade em resultados concretos: time forte, ambiente estabilizado e contas em direção a um equilíbrio que o Corinthians não vê há anos.
A resposta, como o próprio dirigente frisou, virá no gramado. “O que importa é ganhar jogo”, repetiu. Entre contratações pontuais, vendas estratégicas e blindagem do elenco, o novo executivo já sabe que cada decisão será medida pelo torcedor na tabela, e não só nos balanços.