Gabriel de Sousa e Isadora Duarte | 09 de janeiro de 2026 - 14h35

Lula veta projeto que ampliava prazo para regularização de imóveis rurais em fronteira

Presidente alega risco à soberania e diz que proposta enfraquecia controle da União sobre terras rurais em faixa de fronteira

POLÍTICA
Lula veta integralmente projeto que ampliava prazo para regularização de imóveis rurais em faixa de fronteira e cita risco à soberania e ao controle da União. - (Foto: Imagem ilustrativa/A Crítica)

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vetou integralmente, nesta sexta-feira (9), o projeto de lei que ampliava o prazo para ratificar registros de novos imóveis rurais em áreas de fronteira. A proposta, aprovada pelo Congresso, dava mais 15 anos para regularizar vendas e concessões de terras nessas regiões, mas o governo avaliou que as mudanças fragilizariam o controle da União e poderiam comprometer a soberania e a defesa nacional.

Na mensagem enviada ao Congresso e publicada no Diário Oficial da União (DOU), Lula afirmou que o texto alteraria regras já em vigor, hoje com prazo definido até 2030, e criaria brechas que afetariam tanto o acompanhamento da União sobre esses imóveis quanto a segurança jurídica dos registros rurais. Agora, caberá a deputados e senadores decidir se mantêm ou derrubam o veto presidencial.

O projeto de lei, de autoria da bancada do agronegócio no Congresso, tratava da regularização de imóveis rurais em faixa de fronteira — áreas consideradas estratégicas por estarem próximas aos limites do território brasileiro com outros países.

Na prática, a proposta ratificava a venda ou a concessão de terras nessa faixa, permitindo que proprietários tivessem mais tempo para ajustar a situação dos imóveis. O texto concedia um prazo adicional de 15 anos para a ratificação dos registros, contados a partir da publicação da futura lei.

Além disso, previa que esse prazo poderia ser suspenso em algumas situações específicas, como:

enquanto o processo de registro estivesse em análise no cartório ou no Congresso;

em caso de proibição jurídica específica;

ou se o interessado estivesse incapacitado civilmente por perda da lucidez.

Na avaliação dos defensores do projeto, a ampliação do prazo e a flexibilização das condições permitiriam resolver pendências antigas e dar mais segurança aos produtores rurais que ocupam essas áreas.

Por que o governo decidiu vetar o projeto - Ao explicar o veto, Lula argumentou que o conteúdo do projeto enfraquecia a capacidade de fiscalização e revisão da União sobre os atos de venda e concessão de terras em áreas de fronteira. Segundo o presidente, isso colocaria em risco interesses estratégicos do País.

“A proposta também fragilizaria o controle da União na revisão desses atos e comprometeria a soberania e a defesa nacional”, diz a mensagem enviada ao Congresso.

O governo também criticou o trecho que mexia nas regras de georreferenciamento, a identificação precisa dos imóveis rurais por meio de coordenadas geográficas. De acordo com o texto do veto, ao restringir a obrigatoriedade do georreferenciamento, o projeto acabaria por:

retardar a digitalização da malha fundiária rural brasileira;

comprometer a segurança jurídica dos registros públicos de imóveis rurais.

Na prática, o Palácio do Planalto entendeu que a proposta iria na direção contrária do esforço para organizar, modernizar e tornar mais transparente o cadastro de terras no País, especialmente em locais considerados sensíveis, como as regiões de fronteira.

Um dos pontos centrais do veto é o argumento da soberania. Áreas de fronteira são tradicionalmente tratadas como zonas de interesse estratégico do Estado brasileiro, tanto do ponto de vista da defesa quanto do controle territorial.

É nesse contexto que o governo sustenta que flexibilizar prazos e critérios de regularização, sem um acompanhamento mais rígido da União, pode abrir espaço para distorções, disputas fundiárias prolongadas e conflitos com outros interesses públicos, como segurança e presença do Estado na região.

Ao apontar risco à “soberania e à defesa nacional”, o Planalto sinaliza que a discussão vai além da segurança jurídica de produtores rurais e alcança o debate sobre quem pode ocupar e explorar áreas sensíveis do território, em que condições e com qual nível de fiscalização.

Outro ponto de preocupação do governo foi o georreferenciamento dos imóveis rurais. Hoje, essa ferramenta é considerada peça-chave para organizar o cadastro de terras, evitar sobreposição de registros e combater irregularidades.

Na justificativa do veto, Lula afirmou que o projeto, ao restringir a obrigatoriedade do georreferenciamento em todo o território nacional, atrasaria a digitalização da malha fundiária. Isso significa que o País demoraria mais para ter um mapa completo, preciso e atualizado das propriedades rurais, o que é considerado essencial para políticas públicas, fiscalização ambiental, planejamento agrícola e resolução de conflitos.

Sem esse avanço, a avaliação do governo é de que a segurança jurídica dos registros de imóveis rurais ficaria comprometida, com maior risco de disputas e incertezas em torno da titularidade das terras.

O projeto vetado nasceu da articulação da bancada do agronegócio, uma das forças mais organizadas do Congresso. A proposta foi apresentada como resposta a um conjunto de problemas históricos na regularização fundiária de imóveis rurais em faixa de fronteira.

Na visão dos parlamentares ligados ao setor, o objetivo era garantir que produtores rurais tivessem mais tempo e regras claras para ratificar registros imobiliários feitos no passado, evitando que falhas burocráticas ou entraves jurídicos resultassem em perda de propriedades ou insegurança para quem trabalha na terra.

Com o veto integral, a tendência é que essa bancada pressione pela derrubada da decisão presidencial na votação em sessão conjunta do Congresso. A disputa coloca em lados opostos o argumento da segurança jurídica para o agronegócio e a preocupação do governo com soberania, defesa nacional e controle fundiário.

Limite atual segue em vigor até 2030 - Enquanto o impasse não é resolvido, permanece valendo a regra atual, que estabelece prazo até 2030 para a ratificação dos registros imobiliários de imóveis rurais em faixa de fronteira.

Ou seja, por enquanto, não há a prorrogação de 15 anos prevista no projeto aprovado pelo Congresso. O calendário e os mecanismos de regularização seguem os parâmetros da legislação em vigor, sem as alterações que tinham sido aprovadas pelos parlamentares.

Na prática, isso significa que proprietários e interessados em regularizar a situação de imóveis rurais nessas áreas continuam submetidos aos prazos e procedimentos já conhecidos, até que o Congresso decida se mantém o veto ou se restabelece o conteúdo do projeto de lei.

A palavra final sobre o destino do projeto será do próprio Congresso Nacional. Deputados e senadores vão analisar o veto de Lula em sessão conjunta, ainda sem data definida.

Para derrubar o veto presidencial, é necessária a aprovação da maioria absoluta das duas Casas:

pelo menos 257 votos na Câmara dos Deputados;

e 41 votos no Senado Federal.

Se o veto for derrubado, o texto aprovado anteriormente passa a valer, e o projeto se transforma em lei. Nesse cenário, as mudanças previstas — como o novo prazo de 15 anos e as regras específicas envolvendo tramitação em cartório, Congresso e situações de incapacidade civil — entram em vigor.

Se o veto for mantido, o projeto é arquivado e continua valendo apenas o que já está previsto na legislação atual, com prazo estabelecido até 2030 e sem as flexibilizações propostas.

No centro do embate entre governo e bancada do agronegócio estão duas preocupações que, em tese, não deveriam ser incompatíveis: segurança jurídica para proprietários rurais e controle efetivo do Estado sobre terras em áreas sensíveis.

De um lado, produtores e parlamentares aliados defendem que prazos maiores e regras mais flexíveis ajudam a corrigir distorções antigas, evitam que famílias e empresas percam propriedades por falhas formais e facilitam o acesso a crédito e investimentos.

De outro, o Planalto afirma que não é possível abrir mão de um controle mais rígido da União em faixas de fronteira, sob risco de enfraquecer a capacidade do Estado de atuar em temas que envolvem soberania, defesa, regularização fundiária e organização do território nacional.

O veto de Lula expõe esse conflito e empurra para o Congresso a decisão sobre qual visão prevalecerá. O resultado da votação vai indicar até que ponto o governo terá força para impor sua leitura sobre a questão fundiária em áreas de fronteira ou se terá de conviver com regras mais próximas das defendidas pelo agronegócio.