Janeiro Branco em MS reforça cuidado com a mente e combate ao preconceito
Campanha criada por lei estadual amplia debate sobre saúde mental, SUS, canabidiol e novas formas de cuidado em Mato Grosso do Sul
SAÚDE MENTALO começo do ano costuma ser tempo de balanços, metas e recomeços. Em Mato Grosso do Sul, esse período agora também é marco oficial para falar, de forma direta, sobre saúde mental. Desde 2024, o Estado integra o calendário nacional do Janeiro Branco, campanha criada em 2014 e oficializada no país pela Lei Federal 14.556/2023, com foco na conscientização sobre saúde mental e emocional. Aqui, a iniciativa ganhou força com a Lei Estadual 6.256/2024, de autoria da deputada Mara Caseiro (PSDB), 3ª vice-presidente da Assembleia Legislativa.
A proposta é simples e, ao mesmo tempo, profunda: aproveitar a simbologia da “tela em branco” de janeiro para que cada pessoa possa escrever uma nova história de cuidado consigo mesma, reconhecendo emoções, limites e a importância de pedir ajuda quando o sofrimento psíquico aparece.
“Janeiro Branco é uma campanha voltada para a urgência de olhar para um tema que por muito tempo permaneceu invisível: a saúde mental”, afirma a deputada Mara Caseiro.
Segundo ela, combater preconceitos é um dos eixos centrais da lei. “Depressão, ansiedade, estresse crônico e outros transtornos não são frescura ou fraqueza. São questões de saúde que exigem atenção, empatia e tratamento adequado. A campanha busca justamente iluminar essas questões, promovendo o diálogo e quebrando tabus”, ressalta.
Números que ligam o alerta - As estatísticas mostram por que o tema precisa estar em pauta. A Pesquisa Nacional de Saúde (PNS/IBGE – 2019) aponta que 6,8 milhões de brasileiros adultos viviam com diagnóstico de depressão e faziam acompanhamento com profissionais de saúde mental. Em Mato Grosso do Sul, eram 86,6 mil pessoas, sendo 46,1 mil apenas em Campo Grande.
A mesma pesquisa indica que 133,3 mil sul-mato-grossenses haviam sido diagnosticados com outros transtornos mentais, como ansiedade, transtorno bipolar, esquizofrenia, psicose ou TOC. Entre adolescentes, a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (2015) revelou que cerca de 18,8 mil estudantes do 9º ano relataram sentir-se sozinhos na maior parte do tempo.
No atendimento público, os números também chamam atenção. Dados da Secretaria de Estado de Saúde (SES) mostram que, entre 2022 e 2025, o SUS registrou 84.474 atendimentos por transtornos depressivos e ansiosos em Mato Grosso do Sul, reflexo tanto do aumento da demanda quanto da ampliação do acesso aos serviços da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS).
Saúde mental não é coisa simples - Para o psiquiatra Adriano Bernardi, formado pela UFMS, tratar ansiedade e depressão como “fraqueza” ou “falta de vontade” é ignorar a complexidade do problema. “O diagnóstico envolve esferas biológicas, psicológicas e sociais. É preciso considerar desde o funcionamento dos neurotransmissores até a história de vida, os valores pessoais e o contexto social do paciente”, explica.
Ele observa que, embora o acesso à informação tenha aproximado mais pessoas do tratamento, o preconceito ainda atrasa a busca por ajuda. “A doença mental não se resolve apenas com força de vontade. Existem desequilíbrios químicos que exigem tratamento adequado”, destaca.
No Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian (Humap-UFMS), o psiquiatra Kleber Meneghel Vargas acompanha de perto casos graves, em especial de pacientes internados por outras condições clínicas que também apresentam quadros psiquiátricos severos. Ele aponta a falta de leitos especializados como um dos grandes desafios atuais, somado à necessidade de fortalecer a formação, a assistência e a pesquisa em saúde mental no SUS.
Políticas públicas e o papel do SUS - Segundo a SES, Mato Grosso do Sul tem avançado na política estadual de saúde mental com a ampliação de Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), organização de fluxos de atendimento, capacitação de equipes e retomada do Comitê Estadual de Prevenção ao Suicídio.
O Janeiro Branco entra como peça importante nesse esforço, ajudando a integrar campanhas educativas às ações permanentes da rede pública. Mais do que um mês de posts nas redes sociais, a proposta é estimular que a população reconheça o sofrimento psíquico como questão de saúde e busque os serviços do SUS sem medo ou constrangimento.
Para o professor e pesquisador Jeferson Camargo Taborda, da UFMS, o sofrimento psíquico também é um fenômeno social e político. Estudos apontam maior vulnerabilidade entre mulheres, população LGBTQIAPN+, pessoas negras e indígenas. Ele alerta ainda para o crescimento dos índices de suicídio no Estado, que colocam Mato Grosso do Sul em posição de destaque negativo no cenário nacional.
“Integrar ciência, políticas públicas e campanhas sociais é essencial para reduzir estigmas, fortalecer o SUS e garantir acesso ao cuidado, especialmente para jovens e populações vulneráveis”, defende.
Escuta, prevenção e autocuidado no dia a dia - Na avaliação da psicóloga Tamyres Cuellar, o sofrimento emocional nem sempre é visível para quem está de fora. “Muitos sinais aparecem na intimidade, na solidão, e passam despercebidos. Campanhas como o Janeiro Branco permitem que o tema circule socialmente, ajudando as pessoas a nomearem aquilo que sentem e a buscarem ajuda”, explica.
Já a psicóloga Gabriela Molento chama atenção para o autocuidado e o respeito aos próprios limites. “O adoecimento psicológico é gradual. Perceber pensamentos, emoções e sensações corporais ajuda a identificar sinais precoces e a prevenir quadros mais graves”, afirma.
Para ela, o estigma ainda é uma das principais barreiras para iniciar a terapia. Campanhas educativas, como o Janeiro Branco, ajudam a diminuir esse medo, mesmo que de forma lenta.
Histórias que dão rosto às estatísticas - Por trás de cada número, há alguém tentando seguir em frente. Marcella A. (nome fictício), diagnosticada com transtorno bipolar, relata uma trajetória marcada por tentativas de suicídio, internações e tratamentos intensivos. “Aprender a lidar com os períodos de mania e depressão é uma luta diária”, resume.
A acadêmica de Jornalismo Rafaela Palieraqui, hoje morando em Portugal, percebeu ainda na infância que precisava de ajuda. Para ela, informação e redes de apoio foram decisivas. “Estamos vivendo uma espécie de epidemia de depressão. Fechar os olhos para isso é um retrocesso”, afirma.
Esses relatos mostram que buscar ajuda não é sinal de fraqueza, mas de coragem – e reforçam o que a campanha tenta dizer ao longo de todo o mês: ninguém precisa enfrentar o sofrimento psíquico sozinho.
Canabidiol como cuidado complementar - No debate atual sobre saúde mental, o canabidiol (CBD) aparece como uma possibilidade terapêutica complementar, sempre com acompanhamento médico. O clínico geral André Delamare, pós-graduado em Psiquiatria e Cannabis Medicinal, explica que a fitoterapia canabinoide pode auxiliar na regulação do humor, do sono e da ansiedade, desde que utilizada com cautela e prescrição adequada.
Embora ainda não exista consenso científico para o uso regular do CBD em todos os transtornos mentais, relatos clínicos e estudos têm apontado benefícios em situações específicas. Pacientes como André P. e Guilherme B. relatam redução significativa da ansiedade, melhora do sono e da qualidade de vida após iniciarem o tratamento, alguns conseguindo inclusive reduzir ou suspender medicações convencionais.
A professora Fátima Carvalho, fundadora da Associação Divina Flor, reforça a importância do acesso responsável à cannabis medicinal. A entidade atende milhares de pacientes, oferecendo informação, apoio e incentivo à pesquisa. Para ela, diagnóstico correto, acompanhamento profissional e transparência sobre riscos e benefícios são fundamentais para que a cannabis medicinal seja usada de forma ética e segura.
Um convite coletivo à coragem - Ao instituir o Janeiro Branco em Mato Grosso do Sul, a Assembleia Legislativa reforça a saúde mental como política pública, direito social e responsabilidade de toda a sociedade. Mais do que uma campanha institucional, o movimento busca mudar a forma como o tema é tratado em casa, no trabalho, na escola e nos serviços de saúde.
“Reconhecer que precisamos de ajuda é um ato de coragem e autocuidado”, enfatiza a deputada Mara Caseiro.
Que a “tela em branco” proposta pela campanha seja preenchida com mais escuta, empatia, informação e cuidado – não