Safra de café 2026 do Brasil gera expectativa de alívio nos preços globais
Clima mais regular anima produtores, mas incertezas e estoques baixos ainda sustentam volatilidade
ECONOMIA AGRÍCOLAO mercado internacional de café acompanha com atenção a safra brasileira de 2026, que pode representar um alívio relevante no aperto da oferta global. Maior produtor mundial do grão, o Brasil vem de três anos consecutivos de frustrações produtivas, impactado por geadas e períodos prolongados de estiagem. Desta vez, o cenário climático nas principais regiões produtoras é considerado próximo da normalidade, o que reacende o otimismo do setor.
Segundo pesquisadores do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP, as chuvas têm ocorrido em volumes satisfatórios em diversas praças cafeeiras, com exceção de um intervalo de menor precipitação entre setembro e meados de outubro. Para os especialistas, esse quadro tende a favorecer o potencial produtivo da próxima temporada. A avaliação é de que o clima, até o momento, contribui positivamente para a formação da safra.
Até janeiro, as precipitações são consideradas decisivas para o chamado “pegamento” e o crescimento dos chumbinhos, que darão origem aos grãos. Já no período entre fevereiro e abril, fase que antecede a colheita, a regularidade das chuvas será fundamental para a expansão e o enchimento dos frutos. Analistas do BTG Pactual destacam que, apesar do cenário mais favorável, o ciclo ainda está sujeito a riscos climáticos, o que mantém a possibilidade de volatilidade nos preços.
As dificuldades, no entanto, não se restringem ao Brasil. Outros grandes produtores enfrentam desafios semelhantes. Países da Ásia, da África e da América Central também lidam com impactos climáticos sobre suas lavouras. O Vietnã, segundo maior produtor mundial de café, sofreu nos últimos anos com eventos climáticos adversos e, mesmo na atual safra, segue sob ameaça de tufões e tempestades. A estimativa, por enquanto, é de uma colheita em torno de 30 milhões de sacas de 60 quilos, próxima do potencial produtivo do país. Juntos, Brasil e Vietnã respondem por pouco mais da metade da produção global de café.
No Brasil, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) deve divulgar no fim de janeiro a primeira estimativa oficial da safra de 2026. Para 2025, a projeção é de 56,5 milhões de sacas. Mesmo em um ano de bienalidade negativa, o volume representa o terceiro maior da série histórica da Conab, atrás apenas de 2020 e 2018, ambos anos de bienalidade positiva, além de um crescimento de 4,3% em relação à safra anterior, que somou 54,22 milhões de sacas.
Além da perspectiva de maior oferta, outros fatores ajudam a desenhar um cenário de possível pressão sobre os preços internacionais. Entre eles está o fim do tarifaço dos Estados Unidos sobre o café brasileiro, com exceção do produto solúvel, que segue com tarifa de 50%. A medida tende a ampliar a disponibilidade do grão no maior mercado consumidor do mundo. Soma-se a isso o adiamento do Regulamento da União Europeia para Produtos Livres de Desmatamento (EUDR) para janeiro de 2027, o que reduz a urgência de compras por parte dos importadores europeus.
Por outro lado, os estoques globais historicamente baixos e o consumo mundial consistente funcionam como um freio para quedas mais acentuadas. Os armazéns vinculados à Bolsa de Nova York (ICE Futures US) registram atualmente cerca de 400 mil sacas, volume considerado crítico. Há quatro anos, esse estoque girava em torno de 1,5 milhão de sacas, caindo de forma contínua ao longo do período.
Especialistas avaliam que o consumo global pode ter sido impactado pela escalada dos preços, mas destacam que o café é um produto de difícil substituição. Ao mesmo tempo, novos mercados vêm ganhando relevância, especialmente na Ásia. A China, que há décadas tinha participação praticamente irrelevante nas estatísticas, passou a figurar entre os principais destinos do café brasileiro. Em 2022, o país asiático estava fora do top 20 e, em 2025, já aparece entre os oito a dez maiores compradores.
Na Bolsa de Nova York, os contratos futuros de café arábica iniciaram uma trajetória de alta há cerca de três anos, impulsionados pelas sucessivas frustrações de safra no Brasil. No fim de abril deste ano, a cotação chegou a atingir 410 centavos de dólar por libra-peso, contra 227,50 centavos no mesmo período do ano anterior, uma valorização de aproximadamente 80%. Atualmente, o preço gira em torno de 350 centavos por libra-peso.
Diante desse contexto, a expectativa predominante é de estabilidade ou queda limitada no curto prazo. Para o analista Marcelo Moreira, uma nova disparada das cotações em Nova York, acima do patamar de 400 a 450 centavos, dependeria basicamente de um evento climático relevante. Segundo ele, com o custo do dinheiro elevado, o consumidor tende a comprar de forma mais cautelosa, aguardando a entrada efetiva da próxima safra brasileira.