Relator do caso Banco Master no TCU concentra agenda com políticos do Centrão
Desde 2023, Jhonatan de Jesus recebeu mais parlamentares e aliados de Roraima do que técnicos; ele questiona atuação do BC na liquidação do banco
CASO MASTERDesde que tomou posse no Tribunal de Contas da União (TCU), em março de 2023, o ministro Jhonatan de Jesus, relator do processo sobre a liquidação do Banco Master, manteve uma agenda pública marcada por encontros com políticos do Centrão e lideranças de Roraima, seu Estado de origem. Em quase três anos, sua página oficial registra 47 reuniões e 132 sessões do TCU. Das reuniões, 24 — ou 51% do total — foram com deputados, senadores, autoridades roraimenses e dirigentes de órgãos sob influência do Centrão, como FNDE e Codevasf. Ele foi indicado à Corte em um arranjo político articulado pelo então presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), com apoio do bloco.
As demais 23 agendas incluem encontros com ministros de Estado, como Sílvio Costa Filho, Renan Filho, Celso Sabino e André de Paula, além de representantes do governo, empresas privadas e entidades de classe. Entre os visitantes também estiveram o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e o então presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, recebido duas vezes em 2024. No campo político, Jhonatan continuou próximo de figuras de seu Estado, como o comando do Corpo de Bombeiros de Roraima e a presidente da Codesaima, e de parlamentares de partidos como Republicanos, PSD, PL e União. O ministro não se manifestou sobre o conteúdo das agendas.
Um dos encontros de destaque foi com o deputado João Carlos Bacelar (PL-BA), em agosto de 2024. Documentos ligados ao parlamentar foram encontrados pela Polícia Federal em endereço do empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, o que levou o caso à alçada do Supremo Tribunal Federal (STF) por causa do foro privilegiado. O TCU, sob relatoria de Jhonatan, analisa a atuação do Banco Central na liquidação do Master, acusada pela PF de vender ao Banco de Brasília (BRB) carteiras falsas de crédito consignado de R$ 12,2 bilhões. O BC sustenta que a intervenção se deu por “profunda e crônica crise de liquidez” e “grave e reiterado descumprimento de normas” por parte da instituição.
Em despacho recente, o ministro pediu explicações ao Banco Central e sugeriu que a liquidação poderia ter sido precipitada, o que acabou colocando sob questionamento os técnicos responsáveis pela fiscalização, em vez de concentrar a cobrança sobre os envolvidos na operação de compra e venda dos ativos. O processo corre em sigilo: primeiro será analisado pela área técnica do TCU e, em seguida, voltará ao gabinete de Jhonatan de Jesus para decisão.