02 de janeiro de 2026 - 13h15

Gramados sintéticos avançam nos clubes e batem recorde na Série A em 2026

Uso do piso artificial cresce nos CTs e divide opiniões no futebol brasileiro e internacional

FUTEBOL
Clubes brasileiros ampliam o uso do gramado sintético em centros de treinamento e estádios - Foto: Freepik

A discussão sobre o uso de gramados sintéticos ganhou força no futebol brasileiro e passou a ocupar espaço constante no noticiário esportivo. Sem consenso entre jogadores, dirigentes e especialistas, o piso artificial, ainda assim, segue em expansão. Em 2026, a Série A do Campeonato Brasileiro terá seis clubes utilizando gramado sintético em jogos como mandante, o maior número já registrado na elite nacional. A tendência também se reflete nos centros de treinamento das equipes das Séries A e B.

Atualmente, 22 dos 40 clubes que disputam as duas principais divisões do futebol brasileiro contam com campos alternativos de grama sintética em seus CTs. Esse número deve aumentar em breve, já que Botafogo, Athletic, Ferroviária e Paysandu estão em processo de construção de campos com esse tipo de piso. Entre os clubes da Série A, apenas Internacional e Vasco ainda não adotaram o gramado sintético em seus centros de treinamento.

O Juventude é um dos exemplos mais recentes desse movimento. O clube inaugurou o primeiro campo sintético do Centro de Formação de Atletas e Cidadãos (CFAC), em Caxias do Sul, estrutura utilizada tanto pelas categorias de base quanto pelo elenco profissional. O gramado recebeu a certificação Fifa Quality Pro, a mais alta concedida pela entidade máxima do futebol.

“Demos mais um passo fundamental em nosso processo de crescimento estrutural. Dentro de um rigoroso controle orçamentário, não temos medido esforços para oferecer aos nossos atletas e à comissão técnica o melhor que estiver ao nosso alcance. Temos avançado em diversos setores, investindo em equipamentos e capacitação, e a inauguração deste gramado sintético, equivalente ao que há de melhor no mundo, é motivo de grande orgulho”, afirmou o presidente do Juventude, Fábio Pizzamiglio.

Outro clube da Série A que concluiu a implantação de um campo com grama artificial em 2025 foi o Santos. O clube finalizou recentemente a instalação do gramado no CT, também com selo Fifa Quality Pro, voltado principalmente para adaptação a partidas disputadas em campos sintéticos.

“É fundamental melhorar as condições de trabalho investindo na estrutura em diversas áreas do clube. A instalação do gramado sintético é importante para valorizarmos nosso patrimônio e para que possamos oferecer à comissão técnica e aos jogadores condições de desenvolverem todas as nossas atividades com a melhor tecnologia disponível”, declarou o presidente santista, Marcelo Teixeira.

Na Série B, o Cuiabá também investiu na tecnologia. O clube concluiu as obras do campo 4 do CT Manoel Dresch, que passou a contar com gramado sintético Fifa Quality Pro, modelo idêntico ao utilizado pelo Chelsea, da Inglaterra, em um de seus centros de treinamento.

“Seguimos com um projeto sólido de crescimento e fortalecimento do departamento de futebol. Esse campo com gramado sintético de padrão internacional amplia nossa capacidade de treinamentos e nos ajudará a nos adequarmos a alguns tipos de pisos utilizados em alguns estádios do Brasil. Esse é mais um investimento que garante qualidade, segurança e eficiência para o nosso dia a dia no CT”, afirmou o presidente do Cuiabá, Cristiano Dresch.

Mais recentemente, o Botafogo-SP inaugurou um campo com grama sintética na Botafogo Academy, novo centro de treinamento das categorias de base do clube. O investimento no complexo é estimado em R$ 25 milhões. O gramado recebeu o selo Fifa Quality Pro e já está liberado para uso.

Segundo Sergio Schildt, presidente da Recoma, empresa especializada em infraestrutura esportiva e responsável pela instalação de mais de dois milhões de metros quadrados de gramados sintéticos ao longo de 46 anos, o piso artificial se apresenta como uma alternativa viável para muitos clubes, especialmente por fatores climáticos e custos de manutenção.

“Cientificamente, foi comprovado que o gramado sintético de alto padrão possui estrutura de nível semelhante aos naturais. Inclusive, sendo introduzidos por ao menos 30 testes, como drenagem, planicidade, geometria, caimento, rolagem da bola, quique da bola e deslizamento. Outro fator relevante é que a manutenção do gramado natural é 10 vezes mais cara do que um gramado sintético”, explicou.

Apesar do avanço no Brasil, o cenário é diferente em parte da Europa. Há uma forte pressão de clubes, ligas e sindicatos de jogadores contra o uso do gramado totalmente artificial. Nesta temporada, a Holanda proibiu partidas em campos 100% sintéticos após reclamações relacionadas ao comportamento da bola e ao aumento do risco de lesões.

As principais ligas do continente, como as primeiras divisões de Inglaterra, Espanha, Itália, Alemanha, França e Portugal, também não realizam jogos em estádios com gramado totalmente sintético. Ainda assim, há exceções. O Young Boys, da Suíça, que disputa a Liga dos Campeões, utiliza piso sintético no Stadion Wankdorf, decisão associada às condições climáticas do país, marcado por frequentes nevascas.

A Uefa autoriza o uso de gramado sintético em suas competições, com exceção da final. O campo precisa ter certificação Fifa Quality Pro válida durante toda a competição, cabendo ao clube mandante garantir a manutenção e a segurança para a realização das partidas.

Do ponto de vista físico, especialistas analisam possíveis impactos do gramado sintético na recuperação e no desempenho dos atletas. Fabrício Rapello, fisioterapeuta esportivo especialista pela Sociedade Nacional de Fisioterapia Esportiva e da Atividade Física (Sonafe Brasil), explica que ainda há poucos estudos conclusivos sobre o tema.

“Existem poucos dados científicos, até o presente momento, que investigaram as diferenças no desempenho físico de jogadores de futebol em gramados sintético e natural. Uma pesquisa recente evidenciou que durante os jogos realizados em gramado sintético, os zagueiros, volantes e laterais percorreram uma distância total maior e realizaram mais ações de corrida de média e alta velocidade”, afirmou.

Segundo ele, zagueiros, volantes e atacantes também realizam mais ações de aceleração e desaceleração no gramado sintético, especialmente em alta intensidade. “Sendo assim, é necessário que a comissão técnica e preparadores físicos planejem e executem treinos adequados para que os atletas suportem a maior demanda física inerente aos jogos realizados nesse tipo de piso”, completou.

Atualmente, clubes como Atlético-MG, Bahia, Corinthians, Flamengo, Palmeiras, São Paulo, Santos, Grêmio, Cruzeiro, Athletico Paranaense e Cuiabá, entre outros, já contam com campos sintéticos em seus centros de treinamento. A tendência indica que o debate sobre o tema seguirá presente no futebol brasileiro nos próximos anos, à medida que o número de gramados artificiais continua a crescer.