Maria Edite Vendas | 02 de janeiro de 2026 - 12h40

Moda de raspar cílios se espalha nas redes e acende alerta entre médicos

Tendência que começou em EUA e Reino Unido chega a jovens brasileiros e pode causar lesões, infecções e até danos permanentes à visão

ALERTA
Tendência disseminada nas redes sociais incentiva que homens raspem os cílios, o que preocupada oftalmologistas - ( Foto: javiindy/Adobe Stock)

Uma nova moda nas redes sociais, especialmente no TikTok, vem preocupando especialistas em visão: homens raspando completamente os cílios como suposto sinal de “masculinidade”. A tendência, que ganha força em países como Estados Unidos e Reino Unido e já começa a aparecer entre jovens brasileiros, parece inofensiva, mas expõe os olhos a uma série de riscos. “Os cílios não estão ali só por estética, eles têm funções essenciais para a proteção e o bom funcionamento da superfície ocular”, explica o oftalmologista Lucas Zago Ribeiro, do Hospital Israelita Albert Einstein em Goiânia.

Segundo o médico, cada olho tem entre 150 e 250 cílios, que atuam como barreira contra poeira, sujeira e micro-organismos, ajudam a filtrar a luz e o ar, disparam o reflexo de piscar quando algo se aproxima e reduzem a evaporação da lágrima, evitando ressecamento. Ao raspá-los, todos esses mecanismos de defesa ficam comprometidos. O uso de lâmina ou objeto cortante tão perto do olho pode causar cortes na pálpebra e até lesões na córnea, muitas vezes dolorosas e com risco de afetar a visão. Durante a raspagem, fragmentos dos próprios fios podem cair dentro do olho e provocar irritação, inflamação ou infecção. Sem a proteção natural, aumenta a chance de blefarite (inflamação das pálpebras), infecções recorrentes e olho seco crônico, com sensação de areia, coceira e vermelhidão.

Os cílios levam, em média, de quatro a dez semanas para crescer de novo, mas a agressão repetida pode danificar a raiz e provocar falhas permanentes. “Quando há dano direto à borda palpebral, o cílio pode voltar mais fino, torto ou em menor quantidade”, alerta Zago. A raspagem também interfere nas glândulas das pálpebras, responsáveis pela camada oleosa da lágrima; quando essa região é irritada, o olho fica mais seco e exposto. Quem já removeu os cílios deve ficar atento a sinais como ardor, dor, inchaço, vermelhidão ou secreção e procurar um oftalmologista. Colírios lubrificantes ajudam no alívio, mas só o médico consegue identificar infecções ou inflamações mais graves e indicar o tratamento correto.

O oftalmologista lembra que a medicina só recomenda a retirada dos cílios em situações específicas, como em casos de triquíase (quando crescem voltados para dentro) ou distiquíase (fileiras extras), sempre com técnica adequada e supervisão profissional. Fora disso, o risco é considerado desnecessário. Zago também chama atenção para a responsabilidade de influenciadores que exibem esse tipo de prática a milhões de seguidores. “Quando comportamentos sem qualquer base científica são mostrados como algo normal ou ‘estiloso’, muitos adolescentes tendem a copiar por curiosidade ou por padrão estético, sem ter noção do impacto na saúde ocular”, afirma.