Redação O Estado de S. Paulo* | 31 de dezembro de 2025 - 21h45

China encerra exercícios militares perto de Taiwan e eleva tensão no Leste Asiático

Manobras testaram operações conjuntas do Exército chinês e foram criticadas por Japão, Filipinas e aliados de Taiwan

MUNDO
Transmissão do discurso do presidente chinês Xi Jinping em um telão instalado em um shopping de Pequim. - (Foto: Imagem ilustrativa/A Crítica)

O Exército Popular de Libertação (PLA) da China anunciou nesta quarta-feira, 31, que concluiu “com sucesso” dois dias de exercícios militares nas águas ao redor de Taiwan. As manobras, realizadas no fim de 2025, aumentaram a tensão no Leste Asiático e foram interpretadas como um recado direto a Taiwan e a países que apoiam a ilha.

Em comunicado divulgado na véspera do Ano Novo, o PLA afirmou que a operação, batizada de “Missão Justiça 2025”, testou de forma abrangente a capacidade de operações conjuntas integradas das tropas chinesas. O anúncio foi apresentado em vídeo, acompanhado de música marcial, mas sem detalhar as ações específicas realizadas durante os exercícios.

Segundo o capitão sênior Li Xi, porta-voz do Comando do Teatro de Operações Oriental do PLA, as forças chinesas permanecerão em estado de alerta máximo. “As tropas continuarão fortalecendo a prontidão para o combate, frustrando resolutamente as tentativas dos separatistas da ‘Independência de Taiwan’ e a intervenção externa, e salvaguardando firmemente a soberania estatal e a integridade territorial”, declarou.

Apesar da confirmação do encerramento das manobras, o PLA não especificou o momento exato do fim dos exercícios nem se houve alguma atividade residual na quarta-feira. Anúncios anteriores indicavam que as ações ocorreriam na segunda e na terça-feira, mas não ficou claro se operações adicionais foram mantidas nas imediações da ilha.

Autoridades chinesas já haviam sinalizado que os exercícios tinham caráter estratégico e simbólico, com o objetivo de enviar uma mensagem às chamadas “forças externas”, em referência principalmente aos Estados Unidos e a aliados regionais que apoiam Taiwan.

Taiwan é considerada há décadas a questão mais sensível da política externa chinesa. Pequim sustenta que a ilha é parte de seu território e afirma que a reunificação poderá ocorrer pela força, se necessário. Taiwan se separou do continente em 1949, após a vitória comunista na guerra civil chinesa, e desde então mantém um governo autônomo.

Nos últimos anos, a China intensificou a presença militar ao redor da ilha, com envio quase diário de aviões de guerra e navios da marinha, além de exercícios de grande escala.

Nesta quarta-feira, o presidente chinês Xi Jinping mencionou a questão de forma indireta em seu discurso de Ano Novo. Ele afirmou que chineses de ambos os lados do Estreito de Taiwan compartilham “laços de sangue e parentesco” e declarou que “a reunificação da pátria é uma tendência da época e inevitável”.

As manobras foram recebidas com críticas de países da região. O Ministério das Relações Exteriores do Japão classificou os exercícios como um ato que “aumenta a tensão no Estreito de Taiwan” e informou que expressou preocupação formal a Pequim.

“O Japão espera que as questões relacionadas a Taiwan sejam resolvidas pacificamente por meio do diálogo. A paz e a estabilidade no Estreito de Taiwan são importantes para toda a comunidade internacional”, afirmou o governo japonês em nota.

Em novembro, a primeira-ministra do Japão chegou a declarar que não descartaria uma intervenção militar caso Taiwan fosse alvo de um ataque direto, o que elevou ainda mais a sensibilidade diplomática com Pequim.

Nas Filipinas, o ministro da Defesa, Gilberto C. Teodoro Jr., disse estar “profundamente preocupado” com as ações militares chinesas em torno de Taiwan, avaliando que elas agravam um cenário geopolítico já instável. “Esse aumento da coerção tem implicações que vão além do Estreito de Taiwan e afeta toda a região do Indo-Pacífico”, afirmou.

Os Estados Unidos também aparecem como peça central no cenário. Em meados de dezembro, Washington anunciou um pacote de venda de armas para Taiwan que, se aprovado pelo Congresso, será o maior já destinado à ilha. A iniciativa foi duramente criticada pelo governo chinês.

Apesar das tensões, o presidente norte-americano Donald Trump afirmou no início da semana que não está preocupado com os exercícios, alegando manter um bom relacionamento com Xi Jinping e lembrando que a China realiza manobras navais na região “há cerca de 20 anos”.