Por trás dos números em MS, o 'minha vida acabou' de Victoria mostra lado humano do HIV
Brasil registrou quase 40 mil novos diagnósticos em 2024; Mato Grosso do Sul é o nono estado com maior taxa de detecção do vírus
DEZEMBRO VERMELHO“Minha vida acabou”. Esse foi o primeiro pensamento da estudante de psicologia Victoria Pereira ao receber o diagnóstico positivo para o HIV.
Em 2024, quase 40 mil pessoas no Brasil viveram situação semelhante, segundo o Boletim Epidemiológico HIV e Aids do Ministério da Saúde, divulgado em dezembro de 2025. O total representa um aumento de 2,6% em relação ao ano anterior e coloca Mato Grosso do Sul na 9ª posição entre os estados com maiores taxas de detecção, com 20,7 casos a cada 100 mil habitantes.
Diante desse cenário, o mês de dezembro concentra ações voltadas à prevenção e à conscientização, com a campanha Dezembro Vermelho, que mobiliza a saúde pública para ampliar o acesso à informação, enfrentar o estigma e incentivar o diagnóstico precoce do HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis.
A campanha chama atenção para a necessidade de reconhecer sinais iniciais do HIV, que muitas vezes passam despercebidos. Os sintomas podem surgir entre duas e quatro semanas após o contágio e, em geral, são confundidos com quadros de gripe, resfriado ou virose. Febre, dor de garganta, mal-estar, cansaço e erupções na pele tendem a desaparecer espontaneamente, o que dificulta a identificação do vírus nessa fase e favorece o diagnóstico tardio.
Outro foco da campanha é esclarecer a diferença entre HIV e Aids, ainda pouco compreendida por parte da população. O HIV é o vírus que causa a infecção, enquanto a Aids corresponde ao estágio mais avançado da doença, marcado pelo enfraquecimento do sistema imunológico e pelo aparecimento de infecções como pneumonias, tuberculose, parasitoses e doenças fúngicas.
O diagnóstico é feito por exames de sangue, inicialmente com testes rápidos, aplicados em pelo menos duas amostras de fabricantes diferentes. A identificação da infecção permite iniciar o tratamento antes do comprometimento da imunidade, melhora a qualidade e a expectativa de vida e reduz a transmissão do vírus. Com acompanhamento regular, a maioria das pessoas vivendo com HIV não desenvolve Aids.
Victoria relata que recebeu o diagnóstico em outubro de 2023 e optou por iniciar o tratamento imediatamente após a confirmação da condição. Ela ressalta, no entanto, que a escolha pelo início imediato do tratamento foi pessoal e varia de acordo com o momento de cada pessoa. "Eu fiz o teste rápido em uma clínica da família, sozinha mesmo, e assim que a médica me informou o resultado já solicitei que o tratamento começasse na hora, mas a médica que me atendeu falou que poderia começar no dia seguinte para que eu pudesse ir para casa respirar fundo e me acalmar".
A estudante conta que, em um primeiro momento, o tratamento foi feito em uma unidade de saúde da família próxima de casa, mas optou por transferir o acompanhamento para outra clínica por receio de encontrar pessoas conhecidas. No novo local, relata que o acompanhamento tem sido muito acolhedor e respeitoso. “Os enfermeiros e os médicos me tratam super bem e estão sempre preocupados comigo, principalmente na hora de pegar o remédio. Quando completa um mês, já tem que buscar de novo. Se passa de um mês, eles perguntam o que aconteceu, se preciso de ajuda para buscar, se estou tomando direitinho... Sempre são muito cuidadosos.”
O receio de identificação, comum entre pessoas que buscam testagem e acompanhamento médico contínuo, também é considerado na organização dos serviços públicos de saúde. Em Campo Grande, o Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA) foi estruturado pensando exatamente em garantir discrição desde a entrada, com fachada simples e atendimento humanizado. No local, são disponibilizados testes rápidos, medicamentos e acompanhamento para a população atendida.
De acordo com o médico infectologista Percival Henrique, os profissionais da unidade reconhecem que o receio e os estigmas sociais são os principais obstáculos para a realização dos testes. “Os medos mais recorrentes são o resultado positivo, o preconceito e a quebra de sigilo. Por isso, o CTA trabalha com acolhimento, escuta qualificada, sigilo absoluto e informação clara, o que reduz o medo dos pacientes. Temos psicólogos, enfermeiros e médicos treinados para o aconselhamento.”
A equipe do jornal acompanhou todas as etapas do processo de testagem, desde o preenchimento do questionário inicial até a coleta de sangue. O formulário é utilizado para fins estatísticos e serve de base para a elaboração de boletins epidemiológicos, com informações sobre o perfil das pessoas atendidas, como sexo, identidade de gênero, orientação sexual e escolaridade.
A assistente social Andréia Silva, responsável pelo atendimento, explica que essa fase funciona como um estudo, anterior ao exame laboratorial. “Na chegada, é feita uma avaliação inicial, baseada em perguntas pré-orientadas. São abordados aspectos como consumo de bebida alcoólica, ocorrência de relações sexuais sem proteção, uso de medicamentos, entre outros pontos.”
Além da testagem, o Centro de Testagem disponibiliza a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) e a Profilaxia Pós-Exposição (PEP), estratégias utilizadas na prevenção da infecção pelo HIV. Percival explica que os medicamentos têm indicações distintas e são utilizados em contextos diferentes.
“A PrEP é indicada para pessoas que buscam a profilaxia pré-exposição, um medicamento que impede a infecção pelo HIV. Ela não substitui o uso da camisinha e não protege contra outras infecções sexualmente transmissíveis, por isso o preservativo continua sendo fundamental. Já a PEP é a profilaxia pós-exposição, indicada após situações de risco, como relação sexual sem preservativo ou acidente com material biológico. Trata-se de um uso emergencial de antirretrovirais por 28 dias após uma possível exposição ao HIV.”
Segundo o médico infectologista, a PEP deve ser iniciada em até 72 horas após a exposição. Quanto mais cedo é iniciado o tratamento, maior a sua eficácia. O acesso ao medicamento ocorre por meio de serviços de referência, como o CTA, o Centro de Doenças Infecto Parasitárias (CEDIP) e algumas Unidades Básicas de Saúde, após avaliação e acompanhamento.
A informação correta sobre o HIV é um passo decisivo para que as pessoas busquem esses serviços sem medo. Antes de qualquer reação de pânico, especialistas destacam a importância de compreender quais são, de fato, os riscos de transmissão, uma vez que o vírus é transmitido apenas por fluidos específicos, como sangue, sêmen, fluidos vaginais e leite materno. Ainda assim, persistem equívocos comuns, como a crença de que qualquer contato transmite o vírus, de que o compartilhamento de objetos causa infecção ou de que a contaminação pode ocorrer pelo beijo
Victoria conta que o tratamento permite qualidade de vida às pessoas soropositivas, mas ressalta que ainda existem limitações, especialmente no que diz respeito à maternidade. Segundo ela, a questão que mais a afetou foi não poder amamentar. “Isso foi o que mais me impactou. A amamentação sempre foi algo que me deixou muito sensível e eu não imaginava que não pudesse fazer. Quando eu tiver um filho, vou precisar tirar o leite e jogar fora, porque há risco de transmissão do HIV para a criança.”
Mesmo diante dos desafios relatados por mulheres que vivem com HIV, os avanços no cuidado materno-infantil permitiram ao Brasil eliminar a transmissão vertical do vírus, da mãe para o bebê, conquista reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS). O resultado foi alcançado com a ampliação da testagem, o início precoce do tratamento e a oferta contínua de terapias mais modernas pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Cenário - Ainda que haja avanços no diagnóstico e no tratamento, a Aids segue como um desafio no Brasil. Em 2024, o país registrou 9.157 mortes relacionadas à doença, número que indica a permanência da epidemia. Especialistas avaliam que fatores sociais, como estigma, desinformação e dificuldades de acesso aos serviços de saúde, continuam afastando parte da população do diagnóstico precoce e do acompanhamento regular, essencial para impedir a progressão do HIV.
No plano estadual, Percival ressalta que, ainda em 2024, 157 pessoas morreram em decorrência do HIV em Mato Grosso do Sul. Os dados revelam um cenário preocupante e evidenciam a necessidade de uma reorganização do sistema de saúde. “O vírus não está vencendo por ser mais esperto. Ele está vencendo porque chega sempre antes do sistema.”