Peptídeos viram febre entre influenciadores, mas especialistas alertam para riscos
Substâncias prometem melhor pele, ganho de massa e longevidade, mas muitos produtos são experimentais e sem comprovação científica
SAÚDEPeptídeos se tornaram um dos temas mais comentados entre celebridades, influenciadores e clínicas estéticas. De cremes que prometem pele mais firme a injeções ligadas ao ganho muscular e até tratamentos supostamente voltados à longevidade, essas substâncias estão em alta. Mas, apesar do entusiasmo nas redes, grande parte do que circula sobre elas mistura ciência, marketing e muita especulação.
Quimicamente, peptídeos são cadeias curtas de aminoácidos que participam de funções essenciais no organismo — como regular hormônios e reduzir inflamações. Estão presentes naturalmente no corpo, mas também são produzidos em laboratório. Medicamentos como a insulina e até o Ozempic fazem parte desse grupo. O interesse atual, no entanto, mira outro campo: produtos e terapias ainda pouco estudados.
Benefícios na pele
Nos últimos anos, cremes e séruns com peptídeos se multiplicaram. Há compostos que estimulam colágeno, como o Matrixyl, e outros que ajudam na regeneração da pele, como o GHK-Cu. Há até peptídeos que imitam a ação do botox, relaxando músculos faciais.
Segundo Adam Friedman, professor de dermatologia da Universidade George Washington, esses produtos podem trazer algum benefício, mas não fazem milagres. Peptídeos são estruturas químicas frágeis, difíceis de penetrar na pele, que age como barreira natural. Novas tecnologias, como nanoemulsões e lipossomos, tentam melhorar essa absorção — mas não há forma confiável de saber quais marcas realmente empregam essas técnicas.
Dermatologistas consideram o uso tópico relativamente seguro, desde que o consumidor suspenda caso tenha reação. Ainda assim, alertam: peptídeos devem ser vistos como complemento, não como solução principal. Protetor solar, hidratantes e retinoides seguem como a base mais eficaz para cuidados antienvelhecimento.
Ganho de massa muscular
Outro uso popular são os peptídeos que estimulam o corpo a produzir hormônio do crescimento (HGH). Como o HGH sintético só pode ser prescrito em casos específicos, clínicas passaram a oferecer compostos como sermorelina e tesamorelina para aumentar os níveis do hormônio.
Apesar de legais em prescrição off-label, especialistas afirmam que sua eficácia é limitada. Estudos pequenas mostram aumento discreto de massa magra em homens mais velhos, mas sem ganho real de força ou recuperação. E elevar artificialmente o HGH pode trazer riscos como diabetes, câncer e acromegalia.
Mesmo sendo promovida como alternativa “natural”, a sermorelina carrega os mesmos riscos a longo prazo e é proibida pelas principais entidades esportivas.
Biohacking e longevidade
Peptídeos experimentais, como BPC-157, epitalon, semax e selank, ganharam fama em comunidades de biohacking. Há relatos de influenciadores dizendo que essas substâncias melhoram dor crônica, sono, libido e até cognição. No entanto, quase todas essas alegações vêm de pesquisas iniciais — muitas feitas apenas em laboratório, sem testes em humanos.
Como esses compostos são vendidos como “grau de pesquisa”, não seguem padrões de segurança ou qualidade. Não há garantia de pureza, eficácia ou sequer dos ingredientes usados. Alguns já foram associados a efeitos adversos, como dor, inchaço e até estímulo ao crescimento de tumores.
Diante disso, especialistas recomendam cautela. A orientação é clara: quem busca pele melhor, mais força ou longevidade deve recorrer antes a terapias que já possuem comprovação e regulação adequadas.