Rayanderson Guerra | 29 de agosto de 2025 - 18h45

Ministério dos Direitos Humanos retifica certidão de óbito de Zuzu Angel, vítima da ditadura militar

A estilista, morta em 1976, passa a ter a causa da morte reconhecida oficialmente como assassinato pelo Estado brasileiro, no contexto da repressão política

POLÍTICA
Zuleika Angel Jones foi uma das mais importantes personalidades do mundo da moda brasileira. - (Foto: Arquivo/Estadão)

A certidão de óbito da estilista Zuzu Angel, que morreu em 1976 em um suposto acidente de carro durante a ditadura militar, foi retificada pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. A nova versão do documento foi entregue aos familiares de Zuzu nesta quinta-feira, 28, em cerimônia realizada pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, em Minas Gerais.

A estilista Zuzu Angel, ao centro, com os filhos Hidegalrd (dir.), Ana Cristina e Stuart. - (Foto: Divulgação)

A atualização da certidão segue a nova resolução aprovada pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) em dezembro de 2024, que trata da reclassificação de mortes de dissidentes políticos durante o regime militar de 1964 a 1985. Na versão anterior, constava que a causa da morte era "fratura de crânio com hemorragia subdural e laceração cortical", enquanto na retificação, o texto passa a informar que a morte foi "causada pelo Estado brasileiro, no contexto da perseguição sistemática e generalizada à população identificada como opositora política ao regime".

A mesma explicação foi adotada na certidão de óbito de Stuart Angel Jones, filho de Zuzu, militante político morto pelas forças de repressão. A entrega das certidões foi feita durante uma cerimônia na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, com a participação da ministra dos Direitos Humanos e Cidadania, Macaé Evaristo, que acompanhou o evento remotamente.

Em sua fala, a ministra destacou que a retificação representa um marco na reparação histórica, além de uma resposta do Estado democrático à violência cometida durante o regime militar. "É uma resposta que diz que a dignidade humana está acima da barbárie. Nós não nos afastaremos da luta por memória", afirmou Macaé Evaristo.

Quem foi Zuzu Angel?

Zuleika Angel Jones, mais conhecida como Zuzu Angel, foi uma das estilistas mais importantes da moda brasileira. Natural de Curvelo, Minas Gerais, Zuzu começou sua carreira no mundo da moda na década de 1950, quando se mudou para o Rio de Janeiro e iniciou sua trajetória como costureira. Nos anos 1970, já renomada, abriu sua própria loja e começou a realizar desfiles internacionais, consolidando seu nome no cenário fashion.

No entanto, sua maior notoriedade veio por sua luta incansável por justiça pela morte do filho, Stuart Angel Jones, militante do MR8, preso e torturado até a morte pelo regime militar. Desde a prisão de Stuart em 1971, Zuzu se tornou uma ativa combatente da ditadura, buscando respostas para o desaparecimento do filho. Sua luta, porém, teve um fim trágico em 1976, quando Zuzu morreu em um acidente de carro suspeito. Ela mesma havia deixado um documento, pouco antes de sua morte, onde afirmava que se morresse em circunstâncias misteriosas, seria obra dos assassinos de seu filho.

Em homenagem à sua coragem e memória, o túnel onde Zuzu morreu foi batizado com seu nome. Em 1993, sua filha Hildegard Angel fundou o Instituto Zuzu Angel, em memória de sua mãe, perpetuando seu legado na luta pelos direitos humanos e pela memória histórica do Brasil.