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10 de fevereiro de 2026 - 10h24
ARTIGO

Dia Mundial das Áreas Úmidas: proteger a água é proteger culturas, saberes e futuros

PorRafaela Nicola (*)

10 fevereiro 2026 - 08h28PorRafaela Nicola (*)
Rafaela Nicola é diretora executiva da Wetlands International Brasil.
Rafaela Nicola é diretora executiva da Wetlands International Brasil. - (Foto: Divulgação)

No dia 2 de fevereiro, o mundo celebra o Dia Mundial das Áreas Úmidas, uma data que vai além da preservação de ecossistemas alagados e convida à reflexão sobre a relação entre água, natureza e sociedade. Em 2026, o tema definido pela Convenção deRamsar— “Áreas úmidas e conhecimento tradicional: celebrando o patrimônio cultural” — reforça uma verdade conhecida há gerações por comunidades tradicionais: cuidar daságuas edas paisagens formadas pela naturezaé também cuidar da vida, da cultura e da história dos territórios.

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As áreas úmidas estão entre os ecossistemas mais produtivos do planeta. Elas regulam o clima, contribuem para o armazenamento de carbono, garantem segurança hídrica, sustentam a biodiversidade e mantêm modos de vida inteiros. No entanto, sua conservação só se torna efetiva quando reconhecemose fazemos usodasdiferentesformasdeinteragir e aprender sobre essesecossistemas.

De forma didática, é possível identificar três tipos de saberes que caminham juntos. O conhecimento empírico nasce da observação cotidiana, da prática e da experiência direta com o ambiente. O conhecimento tradicional é coletivo, transmitido entre gerações, profundamente conectado à cultura, à espiritualidade e ao território. Já o conhecimento técnico-científico se estrutura a partir de métodos sistematizados, pesquisas e dados. Nenhum desses saberes é superior ao outro. É justamente no diálogo entre eles que surgem soluções mais justas, duradouras e eficazes para os desafios ambientais e climáticos.

Essa compreensão orienta a trajetória daMupan– Mulheres em Ação no Pantanal, organização construída por mulheres e com forte atuação comunitária no coração do território pantaneiro. Desde sua origem, aMupanreconhece e valoriza os saberes tradicionais e empíricos como pilares da conservação. O protagonismo das mulheres, dos povos indígenas e das comunidades tradicionais sempre esteve no centro das discussões sobre território, água, conservação da natureza e modos de vida, sustentando o cuidado, a transmissão de conhecimentos e a resistência cultural.

AWetlandsInternationalBrasil compartilha dessa visão ao atuar em áreas úmidas muitas vezes pouco visibilizadas pelas políticas públicas. Seu trabalhofortalecepontes entre comunidades, ciência, governos e tomadores de decisão, ampliando espaços de construção conjunta e contribuindo para políticas públicas mais eficazes, inclusivas e conectadas às realidades territoriais.

Nocontextodo trabalho conjunto desenvolvido pelas duas instituições,sevalorizaa relação inseparável entreesses conhecimentos como caminhos paraencontrar soluções duradouras, socialmente justas, inclusivas e quepromovama manutenção de ecossistemas saudáveise resilientes.Essa forma de trabalho se traduz em ações práticas, tais comoacolaboração comcomunidades tradicionais paraterritóriosresilientes,comoadesenvolvida juntoaopovo Kadiwéu. Também merece destaque a atuação no âmbito dos TICCA — Territórios e Áreas Conservadas por Comunidades Indígenas e Locais.

AMupan/WetlandsInternationalBrasilatuamcomo organização ponto focal do Consórcio TICCA no Brasil desde 2015, promovendo o reconhecimento, a documentação e o apoio ao registro internacional desses territórios,que constituemexemplos concretos de conservação liderada por comunidades.

Portanto, celebrar o Dia Mundial das Áreas Úmidas é reafirmar um compromisso praticado diariamente. Proteger esses ecossistemas é também proteger culturas, histórias e modos de vida, reconhecendo que soluções duradouras nascem do diálogo entre conhecimentos tradicionais, empíricos e técnico-científicos.

Entre os resultados que marcam essa trajetória, destaca-se o Programa CorredorAzul, desenvolvidojuntamente com aWetlandsInternationalArgentinaLAC,iniciadoem 2017, que conecta pessoas, natureza e economias ao longo do SistemaParaguai- Paranáde Áreas Úmidas. Nesse território, cerca de4.532pessoas já participaram de plataformas de diálogo, capacitações e ações de fortalecimento comunitário, desenvolvidas em conjunto com comunidades locais.

Atédezembrode 2025, o Programacontabilizou 135.550hectaresde áreas produtivas com aplicação de melhores práticas de manejo.E, no Pantanal, mais de 2.000 espécies de flora e 1.200 espécies de fauna foram registradas, evidenciando a relevância ecológica de um dos últimos corredores fluviais de fluxo livre do mundo.

Esses resultados refletem um trabalho que fortalece comunidades, promove práticas produtivas sustentáveis, apoia a gestão de áreas protegidas e impulsiona soluções inovadoras para a conservação e o desenvolvimento sustentável. Garantir a saúde e a conectividade desse sistema de áreas úmidas é essencial para enfrentar a crise climática, conservar a biodiversidade e assegurar a resiliência das comunidades que dele dependem.

Só construiremos futuros possíveis quando diferentes saberes caminharem juntos, com respeito, escutaativae corresponsabilidade.

(*) Rafaela é diretora executiva da Wetlands International Brasil.

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