
O ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, avalia que este ano será o pior do ciclo adverso que o agronegócio brasileiro enfrenta desde 2023/24. “Teremos um ano muito difícil, de transição. Será um ano de virada de chave para que 2027 seja um ano melhor para voltar a um ciclo de normalidade”, diz Fávaro em entrevista.
Endividamento elevado, onda de recuperações judiciais, preços menores de commodities agrícolas, dólar em queda e crédito escasso formam essa conjuntura desafiadora ao setor. Em contrapartida, a safra que caminha para novo recorde é “a boa notícia” do ano, segundo o ministro.
Fávaro, que deixa a pasta até o início de abril e retorna ao Senado pelo PSD de Mato Grosso, falou ainda sobre a expectativa de um novo Plano Safra recorde para a temporada 2026/27, que começa em 1º de julho. Ele diz que a previsão é de juros menores, acompanhando a tendência de redução da Selic. Também para a nova safra, o governo estrutura um novo seguro rural com orçamento de até R$ 5 bilhões e 50% de subvenção econômica, conta o ministro.
Ministro, a conjuntura traz desafios para o setor neste ano, considerando o endividamento crescente, achatamento de preços agrícolas, bancos seletivos na concessão de crédito, onda de recuperações judiciais e produção estável. Como o senhor avalia esse cenário? E que medidas podem ser estudadas para mitigação de impactos ao setor?
O ano é difícil para o setor agropecuário, mas poderia ser muito pior. Ações que foram tomadas, como aberturas de mercados, minimizaram os impactos com um portfólio gigante de mercados para o setor. Além disso, as estratégias tomadas internamente vão minimizar também os impactos, como o aumento em 50% da mistura do biodiesel, que gera uma grande demanda. O Brasil também vive um bom momento da economia e há uma enxurrada de recursos vindos do exterior, o que também traz consequências para a agropecuária em virtude da queda do dólar, o que faz com os preços se achatem. Então, buscamos ampliar os mercados tanto com exportação quanto para indústria local, que demandam soja e milho e garantem estabilidade de preços. Além disso, com a relação de troca entre insumos e commodities não favorável para a safra 2026/27, acho que os preços dos insumos devem se ajustar. Ainda assim, será um ano difícil, com preços achatados, sem renda, crédito escasso.
A conta das recuperações judiciais indiscriminadas chegou, com elas piorando o problema da dívida e crédito de muitos. Temos o desafio de montar um novo Plano Safra nesse cenário e com as taxas de juros elevadas. Vemos dificuldade de performance do Plano Safra atual para médios e grandes produtores justamente pelo endividamento elevado. Temos que fazer um esforço para resgate de crédito, o que acredito que será pela modernização do seguro rural.
Este será então um ano de transição?
Gradativamente, o setor vai voltar à normalidade, como superou as crises e voltou à normalidade em todas as outras vezes. Não será desta vez que o setor vai ficar sem solução. Será um ano de virada de chave para que, quem sabe — eu acredito muito nisso — 2027 seja um ano melhor para voltar a um ciclo de normalidade. Infelizmente, talvez seja o ano mais difícil deste ciclo, além de 2025. Entretanto, o ano começa também com boas notícias, com uma safra recorde e armazéns cheios. Não termos grandes problemas climáticos que afetem a safra já é uma boa notícia.
Dado esse cenário desafiador, é um ano no qual o setor tende a recorrer mais ao governo tanto para renegociação das dívidas quanto para crédito subsidiado. Qual a expectativa do senhor em relação ao próximo Plano Safra? O que podemos esperar de recursos e taxas de juros?
Os juros devem começar a cair a partir de março, conforme as sinalizações. Até o lançamento do novo Plano Safra, as taxas de juros devem estar pouco mais atrativas, o que vai facilitar um Plano Safra mais robusto, mas isso não vai ser suficiente. Neste momento, o setor precisa dos dois: juros menores e mais recursos. O esforço do plano safra 2025/26 foi aumentar recursos e alcançar taxas abaixo dos juros reais, que chegam a 20% no mercado. Com a Selic chegando talvez a 12%, como o mercado sinaliza, é possível termos boa parte do Plano Safra 2026/27 com juros em torno de 10%, talvez 9%. Acho que isso é possível, mantendo o orçamento para a subvenção dos juros e gerando liquidez. Hoje, produtores falam que não há recursos nos bancos, mas há recursos. O que acabou foi o crédito do produtor. Por isso, precisamos resgatar o crédito do produtor e criar ações positivas para que o mercado financeiro volte a acreditar na agricultura brasileira e nos produtores, que são cumpridores de compromissos, como o governo fez com os R$ 12 bilhões para renegociação de dívidas rurais.
O senhor citou juros de 9% a 10%. Taxas abaixo de dois dígitos podem ser uma das vocais do novo Plano Safra?
Isso depende de quanto será a redução da Selic. Uma taxa menor pode culminar em menos dinheiro disponível e o crédito fica mais seletivo, o que acaba privilegiando quem tem o score melhor. E aí a política pública não cumpre a sua função de incentivar a todos. Muitas vezes é melhor juros 1 ou 2 pontos porcentuais acima e recursos mais abundantes. Quero crer que o presidente Lula dará orientação ao novo ministro da Agricultura e ao novo ministro da Fazenda de trabalhar em planos safras recordes, como foram os últimos três sucessivos, e de construir o maior Plano Safra da história com participação robusta do Tesouro.
De que modo o seguro rural pode ajudar a melhorar o acesso ao crédito?
A ideia é universalizar o seguro rural para todos os produtores que acessarem o crédito subsidiado do Plano de Safra, porque, além de trazer estabilidade para a produção, vai ajudar na melhora do crédito do produtor. Na concessão, o banco analisa que, se a lavoura do produtor estiver segurada e houver frustração de safra, há o pagamento da seguradora. Acho que o seguro rural é uma das peças-chave para que o produtor possa voltar a ter crédito para sua atividade.
Ministro, em que pé está essa revisão para modernização do seguro rural? Isso passa por orçamento?
Quero deixar a melhoria do seguro rural encaminhada antes de sair (período para descompatibilização da pasta). Não se faz uma mudança do seguro rural sem ter mais recursos disponíveis, inclusive porque a ideia é universalizar para todos aqueles produtores que acessam os recursos controlados do Plano Safra, que tem subvenção de juros pelo Tesouro. Ou seja, para ter acesso aos recursos equalizados, será obrigatória a contratação do seguro, porque isso dá a garantia para o governo de que não vai precisar fazer renegociação de dívidas em caso de frustração de safra. O governo investe mais no seguro, mas sabe que não haverá endividamento para repactuar. O banco, por sua vez, passa a acreditar mais no produtor porque a safra estará coberta por seguro. Levamos uma proposta ao Ministério da Fazenda de aumento de recursos e de que os recursos não sejam contingenciados. Para um plano dessa magnitude, para ele parar em pé e gerar credibilidade, seguro não pode ter contingenciamento. É uma proposta que vai precisar também do apoio do Congresso Nacional, porque o governo vai apresentar um substitutivo ao projeto de lei que tramita no Congresso para aperfeiçoar a proposta com a participação do governo.
Esse novo seguro demanda quanto em orçamento? Hoje o orçamento para subvenção econômica do seguro rural está previsto em R$ 1,018 bilhão.
Estimamos necessidade de R$ 4,5 bilhões a R$ 5 bilhões para ter o seguro rural universalizado para todas as culturas e em todas as regiões do País com 50% de subvenção ao prêmio, proposta para estímulo ao seguro rural. O governo estimula, mas cria um ambiente virtuoso. O rearranjo orçamentário está em avaliação pelo Ministério da Fazenda.
O senhor citou movimento indiscriminado de recuperações judiciais como um dos motivos que deixam os bancos mais afastados do crédito rural. É um movimento que está se espalhando, do campo para as revendas, tradings?
Há um efeito cascata. As revendas veem seus clientes envolvidos em recuperações judiciais e, de repente, também passam a ser inadimplentes com seus fornecedores. É um ciclo que não faz bem e precisa ser cessado. É um instrumento legal e não contesto isso, mas não pode ser um instrumento usado de forma indiscriminada. Não é a grande solução. A RJ pode ser a solução para poucos. Muitos que aderiram já percebem que ela não resolveu a dívida.
Como o ministério pode atuar nesse tema, junto ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ)?
Fizemos com a Advocacia Geral da União (AGU) uma recomendação para que o CNJ faça uma recomendação aos magistrados para que cumpram a legislação, a Lei de Falências e Recuperação Judicial. Queremos que o regramento seja cumprido e não se extrapole os pedidos, porque a consequência será devastadora para o crédito. Os magistrados, talvez por desconhecimento, aceitavam o pleito da inclusão da Cédula de Produtor Rural (CPR) na recuperação judicial, o que não é permitido e destrói um dos principais mecanismos do crédito brasileiro, o penhor da safra. Isso não pode ser banalizado, bem como o respeito ao ato cooperativo, que proíbe a inclusão de operação do cooperado com a cooperativa na RJ. Sobre essas questões, acho que o CNJ vai fazer uma recomendação mais clara aos magistrados e, com isso, vai melhorar as condições de crédito.

