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12 de fevereiro de 2026 - 13h03
MARINA DE LUCA

"Abadás são um problema ambiental"

Fashion Revolution Brasil estima que 326 mil abadás produzidos para o Carnaval de Salvador em 2025 geraram 46 toneladas de poliéster de uso único; coordenadora defende ecodesign, maior reutilização das peças e responsabilização das marcas patrocinadoras

12 fevereiro 2026 - 11h20Redação
Estimativa aponta produção de 326 mil abadás no Carnaval de Salvador em 2025, a maioria feita de poliéster
Estimativa aponta produção de 326 mil abadás no Carnaval de Salvador em 2025, a maioria feita de poliéster - (Foto: Divulgação)

Uma estimativa da organização Fashion Revolution Brasil aponta que apenas para o carnaval de Salvador (BA) em 2025 foram produzidos cerca de 326 mil abadás, majoritariamente de poliéster. O volume representa aproximadamente 46 toneladas de tecido de origem fóssil em circulação para uso predominantemente único.

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Para a coordenadora de mobilização da entidade, Marina de Luca, o modelo atual de produção e consumo dos abadás tornou-se um problema ambiental. Em entrevista ao Estadão, ela afirma que a peça concentra todos os impactos de uma roupa convencional — consumo de água, energia, matéria-prima e trabalho — mas com vida útil extremamente curta.

“Quando olhamos para o abadá, vemos uma peça que demanda a mesma energia, matéria-prima, mão de obra e tempo que qualquer outra roupa, mas que é usada por apenas um dia. Isso é muito problemático do ponto de vista ambiental”, afirma.

Segundo ela, há alternativas viáveis caso haja interesse das empresas patrocinadoras. Entre elas, investir em design afetivo, formatos desmontáveis ou peças que possam ser reutilizadas ao longo do ano. Luca cita como exemplo os abadás inspirados na camisa da seleção brasileira, lançados neste ano pelo Camarote Brahma, que aumentam a possibilidade de uso posterior.

Confira abaixo os principais trechos da entrevista.

Estadão: Em artigo recente, a sra. afirmou que os abadás se tornaram um problema ambiental. O que isso significa na prática?

Marina de Luca: Vivemos em um mundo onde já produzimos muito mais roupa do que precisamos. Usamos por menos tempo e descartamos mais rápido. No caso do abadá, ele concentra todos os impactos de produção — água, energia, matéria-prima, mão de obra — mas é utilizado por apenas um dia. Quando calculamos a eficiência ambiental de uma peça, dividimos esses impactos pelo número de usos. Se ela é usada uma única vez, o impacto por uso é altíssimo. Não estamos honrando nem a matéria-prima retirada do planeta.

Estadão: Em 2025, foram estimadas 46 toneladas de poliéster apenas no carnaval de Salvador. Qual é o impacto desse volume?

Marina: São 46 toneladas de um material derivado do petróleo que entram em circulação para uso essencialmente único. O poliéster passa por um processo industrial intensivo em energia e, desde a transformação em fio, já começa a liberar microplásticos. Durante o uso e a lavagem, essas partículas seguem sendo liberadas e acabam nos oceanos. O setor têxtil é um dos principais responsáveis pela presença de microplásticos no ambiente marinho. Não dá para ignorar esse volume anual.

Estadão: A solução seria abandonar o poliéster e voltar ao algodão, como nas antigas mortalhas?

Marina: A questão central não é apenas a composição, mas evitar o uso único. As mortalhas de algodão tinham cultura de reaproveitamento — viravam almofadas, saias, decoração. Eram peças mais versáteis. Em um cenário ideal, poderíamos falar em algodão agroecológico, mas sabemos que o custo é maior e a indústria é movida por preço. O fundamental é pensar em um produto que possa ter vida útil mais longa.

Estadão: Que estratégias poderiam ser adotadas?

Marina: O design é central. É preciso pensar no material adequado ao uso — o poliéster esquenta, por exemplo — e também na possibilidade de reutilização. Um design desmontável, que permita transformar a peça em outro item, é uma estratégia. Reduzir o tamanho, criar formatos como lenços, pensar na desmontagem facilitada. Hoje o abadá é uma regata com acabamento que se desfaz quando cortado, além de aplicações como lantejoulas que dificultam o reaproveitamento.

Estadão: A customização também gera resíduo. Como lidar com essa responsabilidade compartilhada?

Marina: Não faz sentido culpar o folião. A customização faz parte da cultura do carnaval. O desafio é pensar como o design pode permitir customizações de menor impacto e que ainda possibilitem reutilização posterior. É algo que precisa ser pensado desde a criação da peça.

Estadão: O design pode, então, estimular o reuso?

Marina: Sem dúvida. Se o abadá é muito marcado por um evento específico, a chance de reutilização diminui. Quando há design afetivo — algo que conecta com outras ocasiões — a chance aumenta. O exemplo do Camarote Brahma, que lançou um modelo inspirado na camisa da seleção em ano de Copa, é interessante. As pessoas tendem a guardar e usar novamente.

Estadão: De quem é a responsabilidade principal por esse modelo de produção?

Marina: Quem encomenda são blocos e camarotes, mas eles existem a partir dos patrocinadores. As marcas que financiam esses espaços são as que mais lucram no processo. As confecções produzem o que lhes é pedido, geralmente com pressão por baixo custo. O custo do abadá é pequeno dentro da estrutura total do evento. Se fosse um pouco mais caro para viabilizar materiais de menor impacto, dificilmente isso inviabilizaria o negócio. Portanto, a responsabilidade maior recai sobre as marcas patrocinadoras.

Estadão: Cabe então às empresas revisar esse modelo?

Marina: Sim. Quem detém o capital tem poder de decisão. Mas o poder público também tem papel importante. Regulamentações, incentivos fiscais para práticas mais sustentáveis, fiscalização — tudo isso pode estimular mudanças. O que vemos na Europa, com regras mais rígidas de transparência na cadeia produtiva, mostra que políticas públicas influenciam o comportamento das empresas. É uma responsabilidade compartilhada, mas quem tem mais poder econômico precisa liderar essa transformação.

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