
Só nos primeiros nove meses de 2025, a MRV lançou mais de 31 mil unidades residenciais. Delas, 97% se enquadram no Minha Casa, Minha Vida. O programa habitacional ajudou a empresa a driblar o cenário de juros altos e impulsionou a receita operacional em 17,6%, além de estimular uma alta de 35,5% no lucro bruto.
Em meio a uma reestruturação, com a saída de praças menores, venda de terrenos e fim de operação internacional, a expectativa é de anos melhores daqui para a frente.
Segundo Eduardo Fischer, CEO da MRV&CO, o segmento econômico é impulsionado pelo grande déficit habitacional do País. “O nosso mercado sempre tem demanda”, afirma.
À frente de uma das empresas de construção mais impactantes do País, Fischer celebra mudanças no MCMV, explica porque os imóveis estão mais caros, fala dos obstáculos da operação internacional, elogia a legislação habitacional de São Paulo, demonstra otimismo para o mercado imobiliário em 2026 e critica as elevadas taxas de juros que chama de “coisa de maluco”. A seguir, os principais trechos da entrevista concedida ao jornal Estadão:
PERGUNTA: Em um ano tão simbólico para o Minha Casa, Minha Vida no Brasil, como você analisa o desempenho da MRV?
FISCHER: Foi um ano forte, com crescimento em todas as métricas. Num país com grande déficit habitacional, a demanda é estrutural, ainda mais com programas federais e regionais de apoio. As margens vêm se recuperando do pós-pandemia e olhamos para 2026 com bastante otimismo.
PERGUNTA: O preço das unidades vendidas no segmento de baixa renda da MRV está subindo ano a ano. Isso é valorização dos imóveis, custo de construção mais alto ou apenas atualização de mercado?
FISCHER: A inflação do nosso setor está acima do IPCA, então precisamos repassar preços. Vendemos algo que ainda será construído, sem saber exatamente quanto vai custar, por isso projetamos a inflação no preço. Essa dinâmica deve continuar e os imóveis tendem a ficar mais caros, não só na MRV, mas em toda a indústria.
PERGUNTA: No relatório do terceiro trimestre de 2025, a MRV afirmou estar otimista com a elevação do teto de valor de imóveis no MCMV. Como essa mudança impacta o negócio?
FISCHER: Quando o preço do imóvel encosta no teto de cada faixa, a viabilidade de compra cai. A revisão do teto corrige, em parte, o efeito inflacionário acumulado. Nem cobre toda a inflação, mas ajuda a manter a capacidade de compra das famílias dentro do programa.
PERGUNTA: Falando de MCMV, como a Faixa 1 se encaixa na estratégia de vocês?
FISCHER: A Faixa 1 representa cerca de 25% das nossas vendas e é muito relevante. Mas está pressionada: é preciso elevar a renda máxima acima de R$ 2.850, porque, com a alta dos preços, muitas famílias deixam de se enquadrar e migram para a Faixa 2, deixando o público de menor renda sem acesso ao programa.
PERGUNTA: Existe um argumento de que a Faixa 1 não é tão rentável para as incorporadoras. Essa premissa faz sentido? Como vocês rentabilizam esses imóveis?
FISCHER: É rentável, desde que os valores sejam corrigidos. A Faixa 1 tem incentivo tributário justamente porque atende famílias com renda mais frágil, sem poupança. Pagamos menos imposto e conseguimos ofertar um produto mais barato. A reforma tributária, porém, ameaça esse benefício, o que pode afetar a rentabilidade.
PERGUNTA: O governo atual é reconhecido por colocar o MCMV como protagonista no projeto de País. Com as eleições de 2026, o que vocês esperam em caso de reeleição do Lula ou vitória de outro candidato?
FISCHER: O presidente Lula sempre priorizou habitação, o próprio MCMV nasceu em seu mandato. Mas hoje o tema é suprapartidário. Quando uma família melhora a moradia, melhora educação, renda e qualidade de vida. Por isso a habitação ganhou peso nas agendas políticas e sociais.
Além disso, programas estaduais se consolidaram: 17 estados já têm iniciativas próprias que complementam o MCMV. Mesmo se houver troca de governo, muitos dos potenciais candidatos são governadores que já operam bons programas regionais e conhecem o impacto social da habitação.
Se olharmos para trás, no governo Bolsonaro o MCMV virou Casa Verde e Amarela, mas a lógica e a estrutura permaneceram iguais. O entendimento de que habitação popular traz grande retorno social já está enraizado na classe política.
PERGUNTA: Então você enxerga o Minha Casa, Minha Vida como um direito já garantido?
FISCHER: Em grande medida, sim. Lideranças de direita, esquerda e centro já perceberam o papel da habitação. Uma eventual transição política não nos preocupa tanto justamente porque o programa se consolidou como política de Estado, não de governo.
PERGUNTA: Além das eleições, estamos na iminência de uma queda de juros. Vocês já têm estratégia para esse cenário?
FISCHER: A taxa de juros atual é “coisa de maluco”. Fica muito difícil tocar qualquer negócio com juros de 15% ao ano, com crédito a 17%, 18%. Isso afeta especialmente setores intensivos em capital, como o nosso.
Por outro lado, o cliente de baixa renda usa recursos do FGTS, cujo regramento é independente da Selic. Para ele, o crédito continua barato em comparação ao mercado, o que até nos protege. Ainda assim, para empresas alavancadas, juros altos são ruins; sempre que caem, é positivo para a MRV.
PERGUNTA: E as eleições? Geram incertezas para o negócio?
FISCHER: Em geral, não. O nosso cliente não deixa de comprar imóvel porque é o Lula, o Tarcísio, o Ratinho Júnior ou outro nome. Só um cenário muito confuso, de ruptura ou forte instabilidade, poderia levar alguém a adiar a decisão de compra. Fora isso, a eleição não é um fator determinante.
PERGUNTA: Existe um debate amplo sobre dificuldade para encontrar mão de obra na construção civil. Como funciona para vocês?
FISCHER: Esse é um desafio global. O trabalho é pesado e a indústria não é tão atrativa. Sentimos mais essa pressão em São Paulo, mas nosso processo construtivo exige menos gente, o que ajuda.
A remuneração também mudou: há muitos anos o setor paga melhor, justamente porque mão de obra virou um gargalo. E não vejo isso se resolvendo no curto prazo. Isso nos empurra para a industrialização e maior automação do canteiro, numa transição gradual ao longo dos próximos anos.
PERGUNTA: Essa falta de mão de obra já provocou atrasos nas entregas de vocês?
FISCHER: Não. Temos alguns pontos de atenção, mas nada estrutural. Antigamente havia fila na porta das obras; hoje não é mais assim. Ainda dá para produzir, mas as empresas estão aprendendo a fazer mais com menos. No nosso caso, aumentamos o quadro próprio e reduzimos a dependência de terceiros, mantendo equipes por mais tempo nas diversas obras.
PERGUNTA: Quantos canteiros de obras vocês têm simultâneos hoje?
FISCHER: Estamos com 270 canteiros abertos em 22 estados.
PERGUNTA: A Resia, operação internacional, está em desinvestimento, com plano de vender 800 milhões de dólares em ativos até 2026. Esse valor deve se concretizar?
FISCHER: O processo está em andamento: já vendemos 150 milhões de dólares. O mercado americano é forte e líquido, o que nos dá confiança de que vamos bater a meta até 2026.
Esse movimento faz parte de uma estratégia de simplificação, com redução de despesas administrativas e foco em menos empreendimentos. A operação nos EUA não vai acabar, mas ficará menor e mais fácil de gerir.
PERGUNTA: Sobre essa simplificação, quais iniciativas vocês adotaram?
FISCHER: Decidimos sair de algumas praças e concentrar atuação nas cidades maiores. Também estamos reduzindo a base de terrenos para deixar a empresa mais leve. E mudamos a forma de comprar: em vez de pagar adiantado, priorizamos acordos com desembolsos mais equilibrados ao longo do tempo.
PERGUNTA: Tem mais alguma coisa que você gostaria de destacar sobre o momento do mercado imobiliário?
FISCHER: Em São Paulo, a mudança da legislação de HIS há cerca de 10 anos teve um impacto gigantesco. Bairros como Barra Funda e Lapa passaram a receber muitos imóveis de interesse social, com acesso ao metrô, algo impensável no passado.
Isso permite que quem morava longe, em regiões como Itaquera ou Ermelino Matarazzo, possa morar mais perto do trabalho. Alivia o transporte público e gera enorme ganho social. A legislação de Habitação de Interesse Social paulistana virou referência para outras cidades.
