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23 de fevereiro de 2026 - 16h54
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SAÚDE E CIÊNCIA

Molécula para lesão medular entra em testes e cientistas pedem cautela

Anvisa autorizou fase clínica da polilaminina, mas especialistas alertam que pesquisa ainda é experimental

23 fevereiro 2026 - 15h25Gabriel Damasceno
Polilaminina desenvolvida na UFRJ entra na fase de testes clínicos após autorização da Anvisa.
Polilaminina desenvolvida na UFRJ entra na fase de testes clínicos após autorização da Anvisa. - (Foto: Reprodução)

A autorização da Anvisa para o início dos testes clínicos da polilaminina colocou a pesquisa brasileira sobre lesões medulares no centro do debate nacional. Desenvolvida por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a molécula ainda está em fase experimental — e é justamente esse ponto que tem mobilizado a comunidade científica.

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Nos últimos dias, o avanço ganhou repercussão além do meio acadêmico e passou a gerar pedidos judiciais de acesso à substância, mesmo antes da conclusão das etapas obrigatórias de validação. Diante disso, entidades científicas pedem cautela para que a pesquisa não seja confundida com um tratamento já disponível.

O que foi autorizado - Em janeiro, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou o início dos testes clínicos para avaliar a segurança da polilaminina. Essa fase é essencial para verificar riscos e eficácia antes de qualquer possível aplicação ampla.

A decisão abriu caminho para a etapa clínica, mas não significa que o produto esteja liberado para uso terapêutico.

Em editorial publicado no Jornal da Ciência, a presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Francilene Procópio Garcia, e a presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC), Helena Bonciani Nader, destacaram que o tema ultrapassou o campo técnico e passou a envolver questões institucionais e regulatórias.

Segundo as cientistas, o caso expõe desafios estruturais do sistema brasileiro de ciência e inovação, especialmente na comunicação pública, na validação científica e na relação entre pesquisa e políticas de saúde.

Elas reforçam que, em áreas como neuroregeneração, o caminho entre descoberta e tratamento é longo e depende de várias etapas de comprovação. O processo inclui testes pré-clínicos, ensaios clínicos e análise rigorosa de evidências.

Debate faz parte da ciência - O editorial também ressalta que divergências e questionamentos são parte natural do desenvolvimento científico, sobretudo em pesquisas inovadoras.

Para as autoras, é fundamental diferenciar pesquisa básica, evidência consolidada e aplicação clínica. A preocupação é evitar que expectativas sejam criadas antes da comprovação científica necessária.

Outro ponto destacado é a importância de fortalecer a chamada medicina translacional — modelo que integra universidades, hospitais e centros de pesquisa para transformar descobertas em tratamentos seguros.

O texto aponta que o Brasil possui tradição sólida em pesquisa básica e instituições públicas fortes. Por outro lado, ainda enfrenta dificuldades na validação clínica, na gestão de propriedade intelectual e na articulação entre ciência, regulação e inovação.

Enquanto os testes avançam, a orientação da comunidade científica é clara: qualquer promessa terapêutica depende de evidências robustas e de um processo rigoroso de avaliação.

A polilaminina representa um avanço na pesquisa nacional, mas, neste momento, segue como estudo em fase experimental — e não como tratamento disponível à população.

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