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17 de janeiro de 2026 - 10h37
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SAÚDE

Cinco anos da primeira vacina contra a covid-19: o dia em que o Brasil começou a sair do pesadelo

Com Mônica Calazans como a primeira imunizada, campanha iniciada em janeiro de 2021 salvou centenas de milhares de vidas, apesar de atrasos reconhecidos por estudos e pela CPI da Covid

17 janeiro 2026 - 09h00Agência Brasil
Há cinco anos, a primeira vacina contra a covid-19 trazia esperança ao Brasil
Há cinco anos, a primeira vacina contra a covid-19 trazia esperança ao Brasil - (Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Há cinco anos, o Brasil dava seus primeiros passos para sair de um dos períodos mais traumáticos de sua história recente. Em 17 de janeiro de 2021, poucas horas depois de a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizar o uso emergencial das primeiras vacinas contra a covid-19, a enfermeira paulista Mônica Calazans tornou-se a primeira pessoa vacinada no País.

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O momento simbólico marcou o início da campanha nacional de imunização e representou uma virada na luta contra a pandemia, que já havia ceifado centenas de milhares de vidas. Mônica foi escolhida para o ato histórico por ter participado dos ensaios clínicos da Coronavac, vacina desenvolvida pela farmacêutica chinesa Sinovac em parceria com o Instituto Butantan.

À época, ela trabalhava no Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em São Paulo, referência no atendimento a doenças infectocontagiosas e um dos hospitais mais sobrecarregados durante a crise sanitária, tendo atendido mais de 40 mil pacientes com covid-19.

Mônica conta que estava de plantão naquele domingo quando foi informada de que deveria se dirigir ao local da cerimônia oficial. Só ali descobriu que seria a primeira brasileira a receber a vacina.

“Eu chorava muito. A gente estava vivendo um momento traumatizante, e meu irmão estava com covid naquela época. Chorei de dor, mas também de emoção, porque a ciência estava dando um passo fundamental para acabar com aquela tragédia”, relembrou.

O gesto do punho cerrado após a aplicação se tornou um símbolo daquele dia. “Naquele momento, eu trouxe esperança para as pessoas. Era uma mensagem de vitória, de que nós iríamos vencer”, afirmou.

A vacinação em larga escala começou no dia seguinte, 18 de janeiro, após a distribuição de um primeiro lote de 6 milhões de doses da Coronavac, produzidas na China e importadas pelo Butantan, que posteriormente passou a processar e envasar o imunizante no Brasil.

Em 23 de janeiro, a campanha ganhou reforço com 2 milhões de doses da vacina da Oxford/AstraZeneca, inicialmente importadas da Índia pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Meses depois, a Fiocruz também incorporaria a tecnologia e passaria a produzir a vacina em território nacional.

A estratégia priorizou os grupos mais vulneráveis: profissionais de saúde da linha de frente, idosos, pessoas com deficiência institucionalizadas e povos indígenas. O início da campanha coincidiu com o auge da circulação da variante Gama, mais agressiva e letal do que as cepas anteriores.

Apesar do avanço gradual — limitado pela escassez inicial de doses —, os efeitos da vacinação logo se tornaram visíveis. Dados do Observatório Covid-19 Brasil mostram que, a partir de abril de 2021, houve queda acentuada nas hospitalizações e mortes entre idosos.

Pesquisadores estimam que, apenas nos primeiros sete meses da campanha, 165 mil internações e 58 mil mortes nessa faixa etária foram evitadas.

Com o aumento da produção nacional e a chegada de novos imunizantes adquiridos no mercado internacional, o ritmo da vacinação acelerou. Em um ano, 339 milhões de doses haviam sido aplicadas, alcançando cerca de 84% da população brasileira.

Estudos indicam que a imunização preveniu 74% dos casos graves e 82% das mortes esperadas, poupando mais de 300 mil vidas.

Apesar dos resultados expressivos, especialistas e entidades apontam que o início tardio da campanha custou caro. O mesmo estudo do Observatório Covid-19 Brasil concluiu que 47 mil mortes adicionais entre idosos poderiam ter sido evitadas se a vacinação tivesse começado antes.

A vice-presidente da Associação de Vítimas e Familiares de Vítimas da Covid-19 (Avico), Paola Falceta, acredita que sua mãe está entre essas estatísticas.

“A maioria das pessoas queria a vacina, mas não teve acesso a tempo. Isso foi resultado de decisões políticas que optaram por não negociar ou atrasar a compra dos imunizantes”, afirmou.

Uma pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) estimou que, se o Brasil tivesse iniciado a vacinação 40 dias antes — como fez o Reino Unido — e adotado medidas mais rígidas de proteção, até 400 mil mortes poderiam ter sido evitadas.

As conclusões foram reforçadas pela CPI da Covid-19, que apontou negligência do governo federal na aquisição de vacinas e identificou atrasos injustificáveis nas negociações com farmacêuticas, como a Pfizer, que ofereceu doses ainda em 2020 sem obter resposta.

O relatório final recomendou o indiciamento de 68 pessoas, incluindo o então presidente Jair Bolsonaro e ex-ministros da Saúde. O pedido foi arquivado em 2022, mas, no ano passado, o ministro do STF Flávio Dino determinou a abertura de um inquérito na Polícia Federal para apurar os fatos.

Cinco anos depois, o dia 17 de janeiro de 2021 permanece como um marco histórico: o momento em que a ciência ofereceu ao Brasil não apenas uma vacina, mas a possibilidade concreta de esperança diante de uma das maiores tragédias sanitárias do século.

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