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SAÚDE

Brasil pode registrar 781 mil novos casos de câncer por ano até 2028, aponta Inca

Estimativa indica avanço da doença, desigualdades regionais e alerta para prevenção e diagnóstico precoce

4 fevereiro 2026 - 14h05Isabela Moya
Estimativa do Inca aponta crescimento dos casos de câncer e reforça importância da prevenção e do diagnóstico precoce.
Estimativa do Inca aponta crescimento dos casos de câncer e reforça importância da prevenção e do diagnóstico precoce. - (Foto: Imagem Ilustrativa/A Critica)

O Brasil deve registrar, em média, 781 mil novos casos de câncer por ano entre 2026 e 2028. A projeção faz parte da publicação Estimativa 2026-2028: Incidência de Câncer no Brasil, divulgada nesta quarta-feira (4), Dia Mundial do Câncer, pelo Instituto Nacional de Câncer (Inca). Desse total, cerca de 263 mil casos anuais devem ser de câncer de pele não melanoma, o tipo mais frequente no País.

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Os dados reforçam que o câncer segue em trajetória de crescimento e se aproxima das doenças cardiovasculares como uma das principais causas de adoecimento e morte no Brasil. Segundo o Inca, esse cenário está diretamente ligado ao envelhecimento da população, às desigualdades regionais e às dificuldades persistentes no acesso à prevenção, ao diagnóstico precoce e ao tratamento oportuno.

Para especialistas, o aumento do número de casos não pode ser analisado apenas como um indicador negativo. “O câncer está prestes a se tornar a principal causa de morte no País e vai superar, daqui alguns anos, as doenças cardiovasculares”, afirma Ariel Kann, head do Centro Especializado em Oncologia do Hospital Alemão Oswaldo Cruz. Ele pondera, no entanto, que parte desse crescimento reflete o aumento da expectativa de vida da população.

“Antes, havia menos câncer porque as pessoas viviam menos. Ter uma população mais envelhecida também é um sinal de desenvolvimento”, explica. Ainda assim, Kann chama atenção para outro aspecto que considera mais preocupante: a desigualdade na distribuição dos tipos de câncer entre as regiões brasileiras.

Segundo ele, enquanto no Sul e Sudeste crescem os casos de câncer colorretal e de pulmão, associados ao estilo de vida urbano e ao tabagismo, no Norte e Nordeste predominam tumores ligados à baixa renda e a problemas estruturais, como falta de saneamento básico. “Nessas regiões, vemos maior incidência de câncer de colo de útero e de estômago”, observa.

O câncer de pele não melanoma continua sendo o mais incidente tanto entre homens quanto entre mulheres. Apesar da alta frequência, apresenta baixa letalidade. “É muito raro um câncer de pele não melanoma causar metástase ou levar ao óbito. Por isso, ele tem um comportamento diferente e acaba sendo excluído de algumas estatísticas comparativas”, explica o oncologista Fernando de Moura, da Beneficência Portuguesa de São Paulo e integrante do Comitê Científico do Instituto Vencer o Câncer.

Excluindo esse tipo, os tumores mais frequentes entre os homens são os de próstata, cólon e reto, pulmão, estômago e cavidade oral. Entre as mulheres, predominam os cânceres de mama, cólon e reto, colo de útero, pulmão e tireoide.

A estimativa também chama atenção para tumores com alto potencial de prevenção e detecção precoce, como os cânceres de colo de útero e colorretal, que seguem entre os mais incidentes no País. Moura destaca que, embora a maioria dos tumores tenha apresentado aumento médio de cerca de 10%, o câncer colorretal teve crescimento próximo de 30%.

“Isso corresponde ao que vemos no consultório: os tumores colorretais estão mais frequentes, inclusive em populações mais jovens”, afirma. Em contrapartida, o câncer de pulmão apresentou estabilidade no período analisado, sem crescimento expressivo.

“Esse é um dado positivo e provavelmente reflete políticas públicas de combate ao tabagismo implementadas ao longo dos últimos 20 anos”, avalia Moura, ao lembrar a redução histórica no número de fumantes no Brasil.

Kann, porém, demonstra preocupação com a retomada do consumo de nicotina, especialmente entre jovens. “O tabagismo vinha caindo, mas voltou a crescer nos últimos dois anos, muito relacionado à entrada dos vapers”, alerta. Segundo ele, os cigarros eletrônicos são apresentados como menos agressivos, mas oferecem riscos semelhantes aos do cigarro convencional.

“Isso é um desafio para a saúde pública. Vai refletir, com certeza, no aumento de cânceres relacionados ao cigarro, como os de pulmão, cabeça e pescoço, bexiga e pâncreas”, afirma.

Na avaliação do oncologista Carlos Gil Ferreira, diretor médico do Instituto Oncoclínicas, os números divulgados pelo Inca confirmam tendências observadas há anos. “O crescimento reflete o envelhecimento da população, mas também a exposição contínua a fatores evitáveis, como sedentarismo, obesidade, alimentação inadequada e tabagismo, agora agravados pelo avanço do cigarro eletrônico entre jovens”, analisa.

Ferreira também destaca o aumento da incidência de câncer em pessoas com menos de 50 anos, fenômeno observado globalmente e que começa a se consolidar no Brasil. “O câncer está se tornando mais jovem. Tumores antes típicos da terceira idade agora surgem em pacientes na casa dos 30 e 40 anos, especialmente o colorretal”, afirma.

As estimativas do Inca são elaboradas a cada três anos e têm como objetivo orientar o planejamento e a vigilância em saúde no curto prazo. Por se tratarem de projeções, os dados não devem ser usados como série histórica, já que podem variar de acordo com políticas públicas e mudanças no comportamento da população.

O estudo também evidencia desigualdades regionais marcantes. No Norte e Nordeste, o câncer de colo de útero está entre os mais incidentes entre mulheres, enquanto o câncer de estômago aparece com maior frequência entre os homens. No Norte, esse tipo ocupa a segunda posição em incidência.

“Está relacionado a condições socioeconômicas desfavoráveis e à exposição à bactéria Helicobacter pylori. Isso mostra o desafio de eliminar fatores de risco na região”, afirma a coordenadora de Prevenção e Vigilância do Inca, Marcia Sarpa.

Ela ressalta que o câncer de colo de útero é evitável e pode ser eliminado com vacinação contra o HPV e rastreamento adequado. “O fato de ele ainda estar entre os mais frequentes no Norte e Nordeste indica que precisamos ampliar as taxas de rastreio”, diz.

No Sul e Sudeste, por outro lado, são mais comuns os tumores associados ao tabagismo, como os de pulmão e cavidade oral.

Especialistas reforçam que o controle do tabagismo, a redução do consumo de álcool, a alimentação saudável e a prática regular de atividade física são medidas centrais para a prevenção do câncer. O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, destacou que os hábitos cotidianos têm impacto direto no aumento da doença. “O modo como vivemos nos leva, cada vez mais, ao câncer, e precisamos nos preocupar com isso”, afirmou.

Apesar dos avanços no tratamento, como imunoterapia e terapias-alvo, o acesso ainda é um dos principais gargalos. “Temos tratamentos comparáveis aos dos Estados Unidos e da Europa no sistema privado, mas há atraso significativo na incorporação dessas tecnologias pelo SUS”, avalia Ferreira.

Para tumores diagnosticados precocemente, as chances de cura podem ultrapassar 70%, chegando a cerca de 90% no caso do câncer de mama em estágio inicial. “Mais do que estatísticas, esses números são um chamado à ação. Investir em prevenção, diagnóstico oportuno e acesso ao tratamento é investir em vidas”, conclui o oncologista.

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