
O uso de canetas emagrecedoras no Brasil entrou em alerta após a Anvisa registrar seis mortes suspeitas de pancreatite associadas a esses medicamentos. Os dados fazem parte do sistema VigiMed, que reúne notificações de efeitos adversos relacionados ao uso de remédios em todo o país.
Essas notificações não significam, necessariamente, que o medicamento causou as mortes. Elas servem como sinal de atenção para que os casos sejam investigados e monitorados pelas autoridades de saúde.
Nos últimos anos, o número de registros cresceu junto com a popularização das canetas, usadas tanto no tratamento do diabetes quanto para emagrecimento.
Número de casos cresce com o passar dos anos - Entre 1º de janeiro de 2020 e 7 de dezembro de 2025, a Anvisa recebeu 145 notificações de casos suspeitos de pancreatite por meio do VigiMed. Quando são somados os dados de pesquisas clínicas realizadas no Brasil, esse número sobe para 225 registros desde 2018.
O crescimento é gradual e constante. Em 2020, foi registrado apenas um caso. Em 2021, já eram 21. Em 2022, foram 23. No ano seguinte, 27. Em 2024, o total chegou a 28. Em 2025, foram 45 notificações, o maior número de todo o período.
Segundo a Anvisa, esse aumento acompanha o maior uso desses medicamentos e a ampliação do sistema de vigilância, e não indica, por si só, que o risco individual tenha aumentado.
Seis mortes seguem sob investigação - Entre os registros analisados, a Anvisa identificou seis mortes com suspeita de relação com pancreatite. A agência reforça que esses dados não confirmam que os medicamentos tenham causado os óbitos.
As mortes estão distribuídas da seguinte forma: três casos associados à liraglutida, princípio ativo do Saxenda; dois ligados à semaglutida, usada no Ozempic; e um relacionado à tirzepatida, presente no Mounjaro.
A Anvisa alerta que nem todos os casos podem estar ligados aos produtos originais vendidos em farmácias. Há suspeita de uso de canetas falsas, irregulares ou manipuladas, que circulam no mercado com nomes parecidos aos de medicamentos registrados.
Os locais onde essas mortes ocorreram não foram divulgados. A agência explica que os dados são preservados por questões de privacidade e porque as investigações ainda estão em andamento.
Quais medicamentos aparecem nos registros - Os casos envolvem remédios conhecidos como agonistas do GLP-1. Eles são usados no tratamento de diabetes tipo 2 e obesidade.
Entre os medicamentos citados estão a semaglutida, presente em marcas como Ozempic, Wegovy e Rybelsus; a liraglutida, do Saxenda e Victoza; a tirzepatida, do Mounjaro; a dulaglutida, do Trulicity; e a lixisenatida, usada no Xultophy.
A pancreatite já aparece nas bulas desses medicamentos como um possível efeito adverso, considerado incomum. Os fabricantes orientam que o uso seja interrompido imediatamente caso o paciente apresente sintomas como dor abdominal forte, náuseas persistentes e vômitos.
Onde os casos foram registrados - Os 225 casos suspeitos foram notificados em estados como São Paulo, Paraná, Bahia e no Distrito Federal. Os dados divulgados são agrupados e não permitem identificar com precisão onde cada ocorrência aconteceu.
Dos eventos adversos registrados, pelo menos 59 levaram à internação ou prolongamento do tempo no hospital, o que mostra que parte dos casos teve gravidade maior.
Fiscalizações em Mato Grosso do Sul reforçam alerta - Em Mato Grosso do Sul, não há registro oficial de casos de pancreatite ligados ao uso dessas canetas até o momento. Mesmo assim, ações recentes de fiscalização mostram que produtos irregulares circulam no estado.
Em janeiro de 2026, a Vigilância Sanitária apreendeu, durante uma operação nos Correios em Campo Grande, milhares de ampolas de tirzepatida, canetas de retatrutida e outros medicamentos sem registro na Anvisa. As autoridades alertaram para riscos de intoxicação e reações adversas graves.
Já em fevereiro de 2026, outra operação resultou na apreensão de produtos avaliados em mais de R$ 1 milhão. Parte das canetas teria vindo da fronteira com o Paraguai. Segundo os órgãos de fiscalização, o uso desses medicamentos sem prescrição médica pode causar problemas sérios, como pancreatite aguda, insuficiência renal e distúrbios metabólicos.
Mercado ilegal preocupa autoridades - A Anvisa estima que o mercado ilegal de canetas emagrecedoras movimente cerca de R$ 600 milhões por ano no Brasil. Marcas irregulares já foram proibidas por risco de contaminação e dosagem incorreta.
Desde abril de 2025, a agência intensificou as ações de fiscalização e passou a adotar medidas como retenção de receitas para tentar frear a venda desses produtos fora do controle sanitário.
Especialistas reforçam importância do acompanhamento médico - Especialistas afirmam que esses medicamentos têm papel importante no tratamento da obesidade e do diabetes, mas precisam ser usados com indicação médica e acompanhamento regular.
Segundo Alexandre Hohl, da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade, os riscos aumentam quando o uso é feito sem orientação ou com produtos de origem desconhecida, principalmente em pessoas com doenças pré-existentes.
O gastroenterologista Célio Geraldo de Oliveira Gomes, da UFMG, explica que a pancreatite pode ocorrer por uma estimulação anormal do pâncreas, alterando a produção de enzimas digestivas. Já o endocrinologista Bruno Halpern lembra que esse tipo de preocupação existe há décadas, mas que o risco é considerado baixo quando o uso é correto.
Monitoramento segue em andamento - A Anvisa reforça que não há comprovação de relação direta entre os medicamentos e as mortes notificadas. Os casos seguem sob investigação.
A agência também alerta que pode haver subnotificação, já que médicos e hospitais não são obrigados a registrar todos os eventos adversos, e muitos relatos informam apenas o princípio ativo do medicamento.
A orientação é clara: essas canetas devem ser usadas apenas com prescrição médica e acompanhamento profissional, especialmente diante do crescimento do uso fora das indicações aprovadas.
