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EUA E VENEZUELA

Senado dos EUA tenta limitar poder de Trump após captura de Maduro

Resolução aprovada por maioria apertada exige aval do Congresso para novos ataques à Venezuela, mas tende a ser vetada pelo presidente americano

8 janeiro 2026 - 15h25Pedro Lima*
Senado dos EUA aprova avanço de resolução que busca limitar poderes de guerra de Donald Trump após operação que capturou Nicolás Maduro na Venezuela.
Senado dos EUA aprova avanço de resolução que busca limitar poderes de guerra de Donald Trump após operação que capturou Nicolás Maduro na Venezuela. - (Foto: Imagem ilustrativa/A Crítica)

O Senado dos Estados Unidos aprovou nesta quinta-feira (8) o avanço de uma resolução que busca limitar os poderes de guerra do presidente Donald Trump depois da operação militar que resultou na captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro. A medida foi interpretada em Washington como um recado político: há desconforto de parte do Congresso com a escalada da atuação militar americana na Venezuela e na região.

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A proposta passou por 52 votos a 47, com apoio de senadores democratas e de cinco republicanos, abrindo caminho para uma votação de mérito em um segundo momento. Apesar disso, as chances de que a resolução vire lei são consideradas pequenas. Para isso, teria de ser aprovada também na Câmara dos Representantes e, depois, sancionada pelo próprio Trump — que, segundo a imprensa americana, deve vetar o texto.

O ponto central da proposta é obrigar que qualquer novo ataque militar dos Estados Unidos contra a Venezuela tenha autorização prévia do Congresso. Hoje, o governo vem conduzindo operações com base em interpretações próprias sobre o alcance dos poderes do presidente como comandante das Forças Armadas.

Ao exigir sinal verde do Legislativo antes de novas ações, os senadores que apoiam a resolução querem recolocar o Congresso no centro das decisões sobre o uso da força, especialmente depois da operação surpresa que capturou Maduro e sua esposa, Cilia Flores, na madrugada de sábado.

Essa ofensiva foi planejada e executada sem debate público e com comunicação limitada aos líderes do Congresso, o que alimentou críticas de parlamentares preocupados com o risco de uma escalada militar na América do Sul.

A resolução é uma reação direta à operação relâmpago que levou à captura de Nicolás Maduro. Em uma ação surpresa, forças americanas entraram na Venezuela, fizeram ataques e retiraram o presidente venezuelano e sua esposa do país para levá-los aos Estados Unidos, onde devem enfrentar acusações formais.

A potência e a rapidez da ofensiva chamaram atenção, inclusive de quem costuma apoiar o governo Trump. Um dos pontos mais sensíveis foi justamente a falta de aviso detalhado ao Congresso antes da ação.

Líderes republicanos disseram não terem sido informados com antecedência sobre a operação. Só depois, em reuniões fechadas, receberam explicações do governo sobre o que havia sido feito e quais eram as justificativas jurídicas apresentadas para a intervenção.

Mesmo assim, o episódio deixou marcas: parte dos parlamentares passou a defender, com mais força, que decisões desse porte não podem ficar concentradas apenas na Casa Branca.

O placar de 52 a 47 deixa evidente a divisão dentro do Senado. Todos os democratas apoiaram a resolução, mas o avanço do texto só foi possível porque cinco republicanos romperam com a orientação mais alinhada ao governo e votaram a favor de limitar os poderes de guerra de Trump.

A maioria apertada tem peso simbólico. Na prática, muitos senadores sabem que o presidente dificilmente sancionará uma medida que restringe sua liberdade de ação militar, principalmente em um momento em que a Casa Branca tenta apresentar a captura de Maduro como demonstração de força.

Mas, mesmo sem perspectiva clara de virar lei, a resolução funciona como um gesto político: é um aviso de que parte do Congresso não está confortável com a forma como o governo vem utilizando instrumentos militares na Venezuela e em outros pontos da região.

Para que a resolução produza efeitos concretos, ainda é preciso cumprir etapas. O texto terá uma votação de mérito no próprio Senado. Depois, precisa ser aprovado pela Câmara dos Representantes. Só então seguiria para a mesa de Donald Trump, que tem poder de veto.

A expectativa é de que, se a proposta chegar até lá, o presidente use justamente esse instrumento para barrar a medida. O cenário abre espaço para um embate entre Executivo e Legislativo sobre o alcance dos poderes presidenciais em tempo de conflito.

Mesmo sem se transformar em lei, o processo legislativo pressiona o governo. Cada passo da resolução amplia o debate público sobre os limites da atuação militar americana e sobre a necessidade — ou não — de consultar o Congresso antes de ações semelhantes à que levou Maduro para Nova York.

Outro ponto que alimenta o desconforto é a variedade de justificativas legais apresentadas pela administração Trump para sustentar sua atuação na América Latina. Em diferentes momentos, o governo fala em combate ao narcotráfico, em operação de caráter policial para levar Maduro a julgamento nos Estados Unidos e em outras bases jurídicas para tentar enquadrar a ofensiva.

Para críticos da operação, essa multiplicidade de argumentos cria a impressão de que a Casa Branca está testando os limites do sistema, adaptando o discurso conforme o público — seja o Congresso, seja a opinião pública.

A resolução aprovada no Senado tenta responder justamente a esse cenário. Ao reforçar que novos ataques dependem de autorização prévia, senadores querem reduzir a margem para ações surpresa e para mudanças de narrativa sobre o que está em jogo na Venezuela.

A operação que capturou Maduro foi celebrada por parte dos apoiadores de Trump, que veem na ação uma forma de endurecer contra um governo acusado de violações de direitos humanos e envolvimento com o tráfico de drogas.

Por outro lado, há preocupação com a possibilidade de aumento da instabilidade na região e de um envolvimento prolongado dos Estados Unidos em mais um cenário de crise, com custo humano, político e financeiro. Pesquisas iniciais mostram um país dividido sobre a ofensiva, com apoio concentrado entre republicanos e resistência maior entre democratas e independentes.

É nesse ambiente polarizado que o Senado tenta se recolocar como ator-chave. A votação desta quinta-feira não altera, por si só, o que já foi feito na Venezuela, mas busca estabelecer uma barreira para futuras ações militares sem consulta mais ampla.

A partir de agora, a resolução ainda terá de enfrentar uma votação de mérito no Senado e o crivo da Câmara. Mesmo com a alta probabilidade de veto presidencial, o simples avanço do texto já coloca a política externa americana na Venezuela sob microscópio.

Cada nova etapa do processo legislativo tende a trazer mais discursos, pedidos de esclarecimento e debates sobre até onde o presidente pode ir por conta própria em operações militares. Ao mesmo tempo, Trump se apoia na captura de Maduro para reforçar a narrativa de força e de combate ao crime, numa tentativa de transformar a ação em ativo político interno.

Enquanto isso, a Venezuela segue em meio à incerteza, sob impacto direto das ações americanas. E o Congresso dos EUA tenta equilibrar duas pressões: a de não parecer omisso diante de um governo que expande a atuação militar, e a de não engessar completamente a resposta do país a crises internacionais.

No meio desse tabuleiro, a resolução que limita os poderes de guerra de Trump funciona como termômetro. Mostra até onde vai o desconforto do Legislativo com a forma como a Casa Branca tem tratado o uso da força — e até onde o próprio presidente está disposto a ir para manter as rédeas da política externa nas próprias mãos.

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