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POLÍTICA

Protesto na USP termina em confusão com ex-deputado Douglas Garcia

Ato contra o PL da Dosimetria no Largo São Francisco registra empurrões, troca de socos e expulsão de político ligado à direita radical

9 janeiro 2026 - 07h20Redação O Estado de S. Paulo
O ex-deputado estadual Douglas Garcia em discurso na Assembléia Legislativa de São Paulo (Alesp).
O ex-deputado estadual Douglas Garcia em discurso na Assembléia Legislativa de São Paulo (Alesp). - (Foto: Divulgação/Alesp)

Um protesto contra o chamado PL da Dosimetria terminou em confusão, empurrões e troca de socos na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), no Largo do São Francisco, centro da capital paulista, nesta quinta-feira, 8. O ex-deputado estadual e atual suplente de vereador Douglas Garcia, do União Brasil, foi expulso da escadaria do prédio após se desentender com manifestantes que participavam do ato.

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O protesto foi convocado justamente para marcar os três anos da invasão e vandalismo às sedes dos Três Poderes, em Brasília, em 8 de janeiro de 2023, por apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro. Em meio ao ato, Garcia chegou ao local acompanhado do vereador paulistano Rubinho Nunes e do vereador de Vinhedo Malcon Mazzucatto, ambos também filiados ao União Brasil.

Segundo relatos de quem estava no Largo São Francisco, o ex-deputado circulava pela faculdade tentando gravar vídeos em que provocava manifestantes contrários ao PL da Dosimetria. O clima, já tenso por causa da data simbólica, rapidamente se agravou.

Em um determinado momento, as discussões subiram de tom. Sob gritos de “recua, fascista”, Douglas Garcia foi empurrado escadaria abaixo e teve a camisa rasgada. O episódio foi registrado em vídeos que circularam nas redes sociais ao longo do dia.

Ao chegar ao andar térreo, a confusão continuou. Imagens mostram o ex-parlamentar trocando socos com militantes de esquerda que participavam do ato. O próprio Garcia divulgou um desses vídeos em seus perfis nas redes, afirmando que reagiu em “legítima defesa” depois de, segundo ele, ter sido agredido por manifestantes.

Já o vereador Rubinho Nunes negou, em declaração ao jornal Folha de S.Paulo, ter agredido alguém. Malcon Mazzucatto também publicou vídeo em que aparece empurrando e sendo empurrado por manifestantes na porta da faculdade.

O motivo inicial da mobilização era o PL da Dosimetria, projeto de lei aprovado pelo Congresso em 2025 e vetado nesta quinta-feira pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O texto trata de regras de dosimetria de penas e vinha sendo defendido por setores da direita e criticado por movimentos de direitos humanos e grupos de esquerda.

No Largo São Francisco, o ato reuniu estudantes, professores, juristas e militantes que, além de se oporem ao PL, lembravam os três anos dos ataques às sedes do Congresso, do Supremo Tribunal Federal e do Palácio do Planalto. A presença de políticos identificados com o bolsonarismo, como Douglas Garcia, foi vista por parte dos manifestantes como uma provocação direta justamente na data escolhida.

A trajetória de Garcia ajuda a explicar o embate. Ele foi eleito deputado estadual em 2018 pelo PSL, então partido de Jair Bolsonaro, defendendo pautas conservadoras. Na Assembleia Legislativa de São Paulo, se destacou por posições contra o aborto, contra o desarmamento e contra o que chama de “ideologia de gênero”.

Antes de assumir mandato, Garcia já era figura conhecida na militância da direita. Atuou como líder do grupo Direita São Paulo e chegou a organizar um bloco de carnaval em homenagem a Carlos Alberto Ustra, coronel reconhecido oficialmente como torturador do período da ditadura militar. A iniciativa foi alvo de críticas de entidades de direitos humanos e de movimentos sociais.

Dentro do PSL, a postura do então deputado acabou gerando conflito. Em 2020, Garcia foi expulso da legenda por violar o código de ética do partido, após sucessivos episódios em que difundiu notícias falsas e atacou instituições democráticas. Ele já havia sido suspenso anteriormente pela cúpula partidária, justamente pela forma agressiva como atuava nas redes e em manifestações de rua.

A carreira eleitoral sofreu um revés dois anos depois. Em 2022, o ex-deputado tentou uma vaga de deputado federal, mas terminou a eleição com pouco mais de 24 mil votos, insuficientes para garantir cadeira na Câmara dos Deputados. Em 2024, disputou o cargo de vereador em São Paulo, obteve cerca de 9 mil votos e ficou como suplente.

Mesmo fora de mandato, Garcia manteve presença constante nas redes sociais. Ele passou a apostar em um formato de conteúdo em que vai a atos de esquerda e manifestações progressistas para confrontar participantes diante das câmeras, produzindo vídeos de choque que alimentam sua base digital.

Foi nesse contexto que decidiu ir ao protesto no Largo do São Francisco. A tentativa de registrar novas imagens conflituosas acabou em confronto físico, expulsão do prédio da Faculdade de Direito e mais um episódio de violência política em um espaço historicamente ligado à defesa do Estado democrático de direito.

O episódio desta quinta-feira ocorre em uma data emblemática. Em 8 de janeiro de 2023, prédios do Congresso Nacional, do Supremo Tribunal Federal e do Palácio do Planalto foram invadidos e depredados em Brasília por golpistas que não aceitavam o resultado das eleições presidenciais. Três anos depois, o ato na USP pretendia lembrar os ataques e criticar decisões no campo da segurança pública e da Justiça que, na visão dos organizadores, fragilizariam o combate a ameaças similares.

A confusão envolvendo Douglas Garcia reforça um padrão da atuação do ex-deputado, que acumula episódios em que a tentativa de confrontar adversários no espaço público termina em registro de agressões, discussões e processos. A diferença, desta vez, é que o palco escolhido foi um dos endereços mais simbólicos do direito brasileiro, o tradicional Largo São Francisco.

Enquanto organizadores do protesto e parlamentares que acompanharam Garcia disputam nas redes a narrativa sobre quem começou a agressão, as imagens do episódio se somam a outros registros de tensões políticas recentes em universidades e espaços públicos do país. O ato, que começou como manifestação contra um projeto de lei e em memória de 8 de janeiro, acabou marcado também pela violência física e pela presença de grupos rivais em disputa direta por espaço e por versões sobre o que ocorreu.

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