
Diante da perspectiva de mais uma eleição presidencial marcada pela polarização entre petismo e bolsonarismo, partidos de centro e centro-direita passaram a discutir uma saída pragmática: não apoiar ninguém no plano nacional. A ideia é liberar os diretórios estaduais para decidir alianças conforme o cenário local, sem amarrar o partido a um único palanque.
A avaliação circula nos bastidores de siglas como MDB, PP, União Brasil e Republicanos. Para aliados do senador e pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o discurso de neutralidade é visto como uma estratégia clássica de negociação. Segundo eles, evitar um apoio antecipado preserva espaço para barganha política mais à frente.
O presidente do MDB, Baleia Rossi, admitiu publicamente essa possibilidade. Em entrevista ao Estadão, afirmou que, em uma disputa totalmente polarizada, a tendência do partido seria liberar seus diretórios nos estados. O movimento busca acomodar divisões internas que já existem na legenda.
No Nordeste e parte do Norte, o MDB costuma se alinhar ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Já no Centro-Oeste, Sul e Sudeste, a resistência ao PT é maior. A neutralidade nacional surge como uma solução para evitar rachas.
PP e União também avaliam liberar os estados - No Progressistas (PP), a discussão segue a mesma linha. O presidente da sigla, Ciro Nogueira, afirmou que a posição do partido — que deve formalizar federação com o União Brasil — dependerá da condução da campanha de Flávio Bolsonaro. Questionado se a falta de acenos ao centro pode levar à neutralidade, respondeu que sim.
Nos bastidores, lideranças do PP avaliam que Flávio tem dado sinais de aprofundar a polarização, o que gera receio. Um dos exemplos citados é a possibilidade de indicar o irmão, Eduardo Bolsonaro, para um ministério estratégico, como o das Relações Exteriores, caso eleito. O temor é que a escolha do vice siga a mesma lógica.
Caso o cenário se confirme, a tendência é liberar os diretórios estaduais, o que ampliaria a margem de manobra do partido, especialmente no Nordeste, onde alianças com o centro e a esquerda são mais comuns.
No União Brasil, a leitura é semelhante. O deputado Elmar Nascimento (BA) afirma que a federação deve dar autonomia aos estados. Para ele, essa estratégia fortalece candidaturas regionais e ajuda a ampliar a bancada no Congresso.
A própria legenda viveu esse dilema recentemente. Mesmo após romper oficialmente com o Planalto, cerca de 40% da bancada do União continuou votando com o governo Lula, o que escancarou a divisão interna.
Lula busca ao menos neutralidade - No Palácio do Planalto, a avaliação é pragmática. Um ministro ouvido pela reportagem afirma que o presidente Lula trabalha, ao menos, para garantir neutralidade das siglas que hoje comandam ministérios. Isso facilitaria a definição de palanques estaduais e reduziria conflitos locais.
Segundo esse aliado, conseguir a neutralidade do MDB já seria considerado um avanço político relevante.
O Republicanos é visto como o partido mais imprevisível. O presidente da sigla, Marcos Pereira (SP), mantém boa relação com Lula, enquanto o principal nome do partido, o governador Tarcísio de Freitas (SP), já declarou apoio a Flávio Bolsonaro.
Internamente, o partido ainda não formalizou discussão sobre apoio presidencial. Nos bastidores, porém, há avaliação de que Flávio pode ter dificuldades para unir o centro, o que tornaria a neutralidade uma alternativa viável.
O presidente da Câmara, Hugo Motta (PB), um dos principais quadros do Republicanos, afirmou recentemente que aguardará gestos do presidente Lula antes de definir posição. Segundo ele, qualquer apoio passará por interesses regionais e pela construção de um projeto político que beneficie seu estado.

