
A trajetória de um dos nomes mais influentes da Ciência Política brasileira chegou ao fim nesta sexta-feira. José Álvaro Moisés, um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT) e professor titular da Universidade de São Paulo (USP), morreu aos 81 anos após se afogar na Praia de Itamambuca, em Ubatuba, no litoral norte paulista.
Segundo o Grupamento de Bombeiros Marítimo (GBMar), Moisés foi encontrado inconsciente na faixa de areia. As equipes de resgate realizaram manobras de reanimação ainda no local, mas ele não resistiu.
Reconhecido por sua produção acadêmica e pelo protagonismo na análise da cultura política e da qualidade da democracia no Brasil, Moisés construiu uma carreira marcada tanto pela atuação intelectual quanto pela participação ativa no debate público nacional.
Intelectual na fundação do PT - José Álvaro Moisés esteve entre os principais intelectuais envolvidos na fundação do Partido dos Trabalhadores, no início da década de 1980. À época, o partido surgia como uma das principais forças políticas do país, em meio ao processo de redemocratização.
Ao longo dos anos, porém, sua relação com a legenda passou por mudanças. O cientista político tornou-se um crítico do partido que ajudou a criar. Em 2010, chegou a afirmar que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva havia “passado dos limites”, declaração que repercutiu no meio político e acadêmico.
A postura crítica se manteve nos anos seguintes. Em entrevista concedida ao jornal O Estado de S. Paulo, em 2023, Moisés avaliou que o PT “tinha um vício de achar que, se o protesto era feito por ele, era legítimo, mas se o protesto era contra, era ilegítimo”.
Na mesma ocasião, ele apontou que a omissão das forças democráticas diante do mal-estar em relação ao funcionamento do sistema político abriu espaço para a ascensão de grupos de direita e segmentos conservadores, que ganharam protagonismo nas manifestações ocorridas em 2013.
As análises de Moisés ajudaram a consolidar sua imagem como um intelectual independente, disposto a revisar posições e a criticar rumos políticos mesmo quando se tratava de um partido que ajudou a estruturar.
Professor titular de Ciência Política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, Moisés teve papel central na formação de gerações de pesquisadores. Sua produção teórica se concentrou especialmente nos estudos sobre cultura política e qualidade da democracia.
Além da atuação em sala de aula e da pesquisa acadêmica, o professor também exerceu funções de liderança institucional. A Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP) destacou, em nota publicada nas redes sociais, a relevância de sua contribuição.
“Sua trajetória acadêmica, marcada pelo rigor intelectual e pelo compromisso com a vida pública, deixa um legado incontornável para a área e para gerações de pesquisadoras e pesquisadores”, afirmou a entidade.
De acordo com a ABCP, Moisés foi uma figura central na internacionalização da pesquisa brasileira na área de Ciência Política. Ele representou o Brasil em fóruns globais de prestígio, integrando o Comitê Executivo da Associação Internacional de Ciência Política (IPSA) entre 2011 e 2015 e o Conselho Internacional de Ciências Sociais (ISSC) de 2013 a 2016.
No âmbito da própria ABCP, teve papel administrativo e organizacional de destaque. Foi o primeiro coordenador da Área Temática de Cultura Política e Democracia da instituição, função exercida de 2006 a 2012.
Legado acadêmico e político - A morte de José Álvaro Moisés provoca repercussão tanto no meio político quanto no acadêmico. Sua trajetória reúne dois elementos centrais da história recente do Brasil: a construção partidária no período de redemocratização e a consolidação da pesquisa científica sobre democracia no país.
Como fundador do PT, participou de um dos movimentos políticos mais relevantes das últimas décadas. Como professor e pesquisador, contribuiu para o amadurecimento do debate público, especialmente ao analisar o funcionamento das instituições democráticas e os comportamentos políticos da sociedade brasileira.
Mesmo após se afastar das posições iniciais que marcaram sua atuação política, manteve presença ativa nas discussões sobre os rumos da democracia e do sistema partidário nacional.
Aos 81 anos, deixa uma produção acadêmica reconhecida e uma trajetória que atravessa momentos decisivos da política brasileira contemporânea.

