Grupo Feitosa de Comunicação
(67) 99974-5440
(67) 3317-7890
07 de janeiro de 2026 - 17h50
senai
SAÚDE MENTAL

Janeiro Branco em MS reforça cuidado com a mente e combate ao preconceito

Campanha criada por lei estadual amplia debate sobre saúde mental, SUS, canabidiol e novas formas de cuidado em Mato Grosso do Sul

6 janeiro 2026 - 15h05João Grilo
O movimento propõe que cada pessoa possa escrever uma nova história de cuidado consigo mesma
O movimento propõe que cada pessoa possa escrever uma nova história de cuidado consigo mesma - (Foto: Imagem criada com IA )

O começo do ano costuma ser tempo de balanços, metas e recomeços. Em Mato Grosso do Sul, esse período agora também é marco oficial para falar, de forma direta, sobre saúde mental. Desde 2024, o Estado integra o calendário nacional do Janeiro Branco, campanha criada em 2014 e oficializada no país pela Lei Federal 14.556/2023, com foco na conscientização sobre saúde mental e emocional. Aqui, a iniciativa ganhou força com a Lei Estadual 6.256/2024, de autoria da deputada Mara Caseiro (PSDB), 3ª vice-presidente da Assembleia Legislativa.

Canal WhatsApp

A proposta é simples e, ao mesmo tempo, profunda: aproveitar a simbologia da “tela em branco” de janeiro para que cada pessoa possa escrever uma nova história de cuidado consigo mesma, reconhecendo emoções, limites e a importância de pedir ajuda quando o sofrimento psíquico aparece.

“Janeiro Branco é uma campanha voltada para a urgência de olhar para um tema que por muito tempo permaneceu invisível: a saúde mental”, afirma a deputada Mara Caseiro.

Segundo ela, combater preconceitos é um dos eixos centrais da lei. “Depressão, ansiedade, estresse crônico e outros transtornos não são frescura ou fraqueza. São questões de saúde que exigem atenção, empatia e tratamento adequado. A campanha busca justamente iluminar essas questões, promovendo o diálogo e quebrando tabus”, ressalta.

Mara Caseiro é autora da lei que instituiu o Janeiro Branco em MS (Foto: Wagner Guimarães)Mara Caseiro é autora da lei que instituiu o Janeiro Branco em MS (Foto: Wagner Guimarães)

Números que ligam o alerta - As estatísticas mostram por que o tema precisa estar em pauta. A Pesquisa Nacional de Saúde (PNS/IBGE – 2019) aponta que 6,8 milhões de brasileiros adultos viviam com diagnóstico de depressão e faziam acompanhamento com profissionais de saúde mental. Em Mato Grosso do Sul, eram 86,6 mil pessoas, sendo 46,1 mil apenas em Campo Grande.

A mesma pesquisa indica que 133,3 mil sul-mato-grossenses haviam sido diagnosticados com outros transtornos mentais, como ansiedade, transtorno bipolar, esquizofrenia, psicose ou TOC. Entre adolescentes, a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (2015) revelou que cerca de 18,8 mil estudantes do 9º ano relataram sentir-se sozinhos na maior parte do tempo.

No atendimento público, os números também chamam atenção. Dados da Secretaria de Estado de Saúde (SES) mostram que, entre 2022 e 2025, o SUS registrou 84.474 atendimentos por transtornos depressivos e ansiosos em Mato Grosso do Sul, reflexo tanto do aumento da demanda quanto da ampliação do acesso aos serviços da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS).

Psiquiatra Adriano Bernardi relata que preconceito leva pessoas a buscar ajuda tardiamente  (Foto: Acervo Pessoal) Psiquiatra Adriano Bernardi relata que preconceito leva pessoas a buscar ajuda tardiamente (Foto: Acervo Pessoal)

Saúde mental não é coisa simples - Para o psiquiatra Adriano Bernardi, formado pela UFMS, tratar ansiedade e depressão como “fraqueza” ou “falta de vontade” é ignorar a complexidade do problema. “O diagnóstico envolve esferas biológicas, psicológicas e sociais. É preciso considerar desde o funcionamento dos neurotransmissores até a história de vida, os valores pessoais e o contexto social do paciente”, explica.

Ele observa que, embora o acesso à informação tenha aproximado mais pessoas do tratamento, o preconceito ainda atrasa a busca por ajuda. “A doença mental não se resolve apenas com força de vontade. Existem desequilíbrios químicos que exigem tratamento adequado”, destaca.

No Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian (Humap-UFMS), o psiquiatra Kleber Meneghel Vargas acompanha de perto casos graves, em especial de pacientes internados por outras condições clínicas que também apresentam quadros psiquiátricos severos. Ele aponta a falta de leitos especializados como um dos grandes desafios atuais, somado à necessidade de fortalecer a formação, a assistência e a pesquisa em saúde mental no SUS.

Kleber Meneghel atende no Humap-UFMS e aponta falta de leitos especializados como desafio (Foto: Ascom Humap-UFMS)Kleber Meneghel atende no Humap-UFMS e aponta falta de leitos especializados como desafio (Foto: Ascom Humap-UFMS)

Políticas públicas e o papel do SUS - Segundo a SES, Mato Grosso do Sul tem avançado na política estadual de saúde mental com a ampliação de Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), organização de fluxos de atendimento, capacitação de equipes e retomada do Comitê Estadual de Prevenção ao Suicídio.

O Janeiro Branco entra como peça importante nesse esforço, ajudando a integrar campanhas educativas às ações permanentes da rede pública. Mais do que um mês de posts nas redes sociais, a proposta é estimular que a população reconheça o sofrimento psíquico como questão de saúde e busque os serviços do SUS sem medo ou constrangimento.

Para o professor e pesquisador Jeferson Camargo Taborda, da UFMS, o sofrimento psíquico também é um fenômeno social e político. Estudos apontam maior vulnerabilidade entre mulheres, população LGBTQIAPN+, pessoas negras e indígenas. Ele alerta ainda para o crescimento dos índices de suicídio no Estado, que colocam Mato Grosso do Sul em posição de destaque negativo no cenário nacional.

“Integrar ciência, políticas públicas e campanhas sociais é essencial para reduzir estigmas, fortalecer o SUS e garantir acesso ao cuidado, especialmente para jovens e populações vulneráveis”, defende.

Psicóloga Tamyres Cuellar informa que o sofrimento emocional nem sempre se manifesta de forma visível (Foto: Rafaela Bortolamedi)Psicóloga Tamyres Cuellar informa que o sofrimento emocional nem sempre se manifesta de forma visível (Foto: Rafaela Bortolamedi)

Escuta, prevenção e autocuidado no dia a dia - Na avaliação da psicóloga Tamyres Cuellar, o sofrimento emocional nem sempre é visível para quem está de fora. “Muitos sinais aparecem na intimidade, na solidão, e passam despercebidos. Campanhas como o Janeiro Branco permitem que o tema circule socialmente, ajudando as pessoas a nomearem aquilo que sentem e a buscarem ajuda”, explica.

Já a psicóloga Gabriela Molento chama atenção para o autocuidado e o respeito aos próprios limites. “O adoecimento psicológico é gradual. Perceber pensamentos, emoções e sensações corporais ajuda a identificar sinais precoces e a prevenir quadros mais graves”, afirma.

Para ela, o estigma ainda é uma das principais barreiras para iniciar a terapia. Campanhas educativas, como o Janeiro Branco, ajudam a diminuir esse medo, mesmo que de forma lenta.

Já a psicóloga Gabriela Molento destaca a importância do autocuidado e atenção aos próprios limites  (Foto: Acervo Pessoal) Já a psicóloga Gabriela Molento destaca a importância do autocuidado e atenção aos próprios limites (Foto: Acervo Pessoal)

Histórias que dão rosto às estatísticas - Por trás de cada número, há alguém tentando seguir em frente. Marcella A. (nome fictício), diagnosticada com transtorno bipolar, relata uma trajetória marcada por tentativas de suicídio, internações e tratamentos intensivos. “Aprender a lidar com os períodos de mania e depressão é uma luta diária”, resume.

A acadêmica de Jornalismo Rafaela Palieraqui, hoje morando em Portugal, percebeu ainda na infância que precisava de ajuda. Para ela, informação e redes de apoio foram decisivas. “Estamos vivendo uma espécie de epidemia de depressão. Fechar os olhos para isso é um retrocesso”, afirma.

Esses relatos mostram que buscar ajuda não é sinal de fraqueza, mas de coragem – e reforçam o que a campanha tenta dizer ao longo de todo o mês: ninguém precisa enfrentar o sofrimento psíquico sozinho.

Rafaela Palieraqui percebeu a necessidade de ajuda ainda na infância (Foto: Acerveo Pessoal) Rafaela Palieraqui percebeu a necessidade de ajuda ainda na infância (Foto: Acerveo Pessoal)

Canabidiol como cuidado complementar - No debate atual sobre saúde mental, o canabidiol (CBD) aparece como uma possibilidade terapêutica complementar, sempre com acompanhamento médico. O clínico geral André Delamare, pós-graduado em Psiquiatria e Cannabis Medicinal, explica que a fitoterapia canabinoide pode auxiliar na regulação do humor, do sono e da ansiedade, desde que utilizada com cautela e prescrição adequada.

Embora ainda não exista consenso científico para o uso regular do CBD em todos os transtornos mentais, relatos clínicos e estudos têm apontado benefícios em situações específicas. Pacientes como André P. e Guilherme B. relatam redução significativa da ansiedade, melhora do sono e da qualidade de vida após iniciarem o tratamento, alguns conseguindo inclusive reduzir ou suspender medicações convencionais.

André Delamare explica que a fitoterapia canabinoide pode auxiliar na regulação do humor (Foto: Acervo Pessoal)André Delamare explica que a fitoterapia canabinoide pode auxiliar na regulação do humor (Foto: Acervo Pessoal)

A professora Fátima Carvalho, fundadora da Associação Divina Flor, reforça a importância do acesso responsável à cannabis medicinal. A entidade atende milhares de pacientes, oferecendo informação, apoio e incentivo à pesquisa. Para ela, diagnóstico correto, acompanhamento profissional e transparência sobre riscos e benefícios são fundamentais para que a cannabis medicinal seja usada de forma ética e segura.

Fátima Carvalho reforça a importância do acesso responsável à cannabis medicinal (Foto: Dragão Produções)Fátima Carvalho reforça a importância do acesso responsável à cannabis medicinal (Foto: Dragão Produções)

Um convite coletivo à coragem - Ao instituir o Janeiro Branco em Mato Grosso do Sul, a Assembleia Legislativa reforça a saúde mental como política pública, direito social e responsabilidade de toda a sociedade. Mais do que uma campanha institucional, o movimento busca mudar a forma como o tema é tratado em casa, no trabalho, na escola e nos serviços de saúde.

“Reconhecer que precisamos de ajuda é um ato de coragem e autocuidado”, enfatiza a deputada Mara Caseiro.

Que a “tela em branco” proposta pela campanha seja preenchida com mais escuta, empatia, informação e cuidado – não

Assine a Newsletter
Banner Whatsapp Desktop