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CÂMARA FEDERAL

Comissão de Saúde elege Giovani Cherini, deputado crítico de vacinas, para presidência

Parlamentar do PL assume colegiado responsável por R$ 4,2 bilhões em emendas após defender terapias sem comprovação científica

4 fevereiro 2026 - 14h00Levy Teles
Giovani Cherini (PL-RS) foi eleito presidente da Comissão de Saúde da Câmara dos Deputados nesta quarta-feira (4).
Giovani Cherini (PL-RS) foi eleito presidente da Comissão de Saúde da Câmara dos Deputados nesta quarta-feira (4). - Foto: Câmara dos Deputados

A Comissão de Saúde da Câmara dos Deputados elegeu nesta quarta-feira (4) o deputado Giovani Cherini (PL-RS) como presidente do colegiado em 2025. A escolha ocorre em meio a críticas por parte de parlamentares da oposição e de entidades médicas, devido ao histórico do deputado de defesa de tratamentos sem eficácia científica comprovada e de posicionamentos contrários a vacinas, especialmente durante a pandemia da covid-19.

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Cherini foi eleito com 38 votos favoráveis e seis votos em branco. Não houve candidatura alternativa para a presidência da comissão. Antes da votação, o deputado encaminhou aos colegas, por meio de mensagens de WhatsApp, um texto no qual apresentava seus argumentos para comandar o colegiado.

No material, afirmou ter atuado como relator ou colaborador na regulamentação de práticas como acupuntura, yoga, arteterapia, ayurveda, ozonioterapia, naturologia e terapia floral. Também se definiu como defensor da chamada “saúde integrativa”, abordagem que considera o indivíduo sob aspectos físicos, emocionais, espirituais e sociais.

Comissão estratégica e disputa por recursos - A Comissão de Saúde é uma das mais disputadas da Câmara dos Deputados devido ao volume de recursos sob sua influência. Em 2025, o colegiado poderá distribuir cerca de R$ 4,2 bilhões em emendas parlamentares destinadas a ações e serviços de saúde em todo o país.

Após ser eleito, Cherini afirmou que uma de suas prioridades será justamente a destinação dessas verbas. “Meu compromisso é lógico: priorizar as emendas parlamentares”, declarou. O tema ganha relevância em um cenário no qual as emendas de bancada continuam sendo alvo de questionamentos quanto à transparência, conforme já apontado em reportagens recentes.

Histórico de embates com a ciência - O novo presidente da comissão tem um histórico marcado por declarações contrárias a vacinas e pela defesa de medicamentos sem comprovação científica para o tratamento da covid-19. Durante a pandemia, Cherini se posicionou contra a imunização e promoveu discursos que colocavam em dúvida a ocupação de hospitais e a eficácia das vacinas.

Procurado para comentar essas posições, o deputado voltou a questionar os imunizantes contra o coronavírus. Ele afirmou, sem apresentar dados, que teria havido aumento de casos de câncer e de acidentes vasculares cerebrais após a vacinação. “Triplicou o câncer, o AVC, a pandemia de câncer”, disse.

Ao abordar o debate sobre responsabilidades durante a crise sanitária, Cherini afirmou que não vê sentido em revisitar o tema. “Penso que não adianta chorar o leite derramado. Ou achar culpados ou vencedores. Essa disputa não ajuda a saúde”, declarou.

Defesa da ozonioterapia - Em 2021, Cherini atuou pela aprovação de um projeto de lei que autoriza o uso da ozonioterapia no Brasil. Naquele mesmo ano, defendeu o emprego do ozônio como tratamento pós-covid. A proposta foi aprovada pelo Congresso e sancionada em 2023, durante o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A ozonioterapia, no entanto, é classificada como prática experimental pelo Conselho Federal de Medicina (CFM). Em nota divulgada em agosto de 2020, o órgão afirmou que a técnica não possui reconhecimento científico para o tratamento da covid-19 nem de qualquer outra doença.

Em resolução de 2018, o CFM já havia estabelecido que a ozonioterapia não poderia ser incorporada à prática médica regular por falta de evidências que sustentassem sua eficácia. O procedimento consiste na introdução de ozônio no organismo por diferentes vias, como aplicações intravenosas, intramusculares, subcutâneas ou por meio de cavidades corporais.

Durante agosto de 2020, em um dos períodos mais críticos da pandemia no Brasil, Cherini criticou a corrida global por uma vacina contra a covid-19 e também questionou a vacina contra o papilomavírus humano (HPV). Na época, chegou a afirmar que a ivermectina seria “a vacina contra o coronavírus”, apesar da ausência de comprovação científica.

Naquele mês, o Brasil registrava quase 29 mil mortes pela doença. Ao longo da pandemia, o número total de vítimas ultrapassou 700 mil.

Mesmo após o fim da emergência sanitária, o deputado manteve discursos que associam a superlotação hospitalar à vacinação. Em pronunciamento no plenário, sugeriu dúvida sobre a causa do aumento da demanda por atendimentos médicos, sem apresentar evidências.

Espiritualidade e saúde - Outro ponto recorrente nas falas de Cherini é a defesa da espiritualidade como elemento central na ciência da saúde. Em junho de 2023, afirmou que ciência e espiritualidade deveriam caminhar juntas e classificou essa integração como um “novo paradigma” para o cuidado com a saúde.

As declarações são alvo de críticas de parlamentares e especialistas, que alertam para o risco de confundir crenças pessoais com políticas públicas baseadas em evidências científicas.

A escolha de Cherini para presidir a Comissão de Saúde gerou protestos entre deputados do PT. O deputado Jorge Solla (PT-BA), integrante do colegiado, afirmou que o parlamentar do PL teve atuação decisiva durante a pandemia ao lado do então presidente Jair Bolsonaro.

Solla votou em branco na eleição, já que não havia a possibilidade de voto contrário sem outro candidato. Para ele, a presidência da comissão por Cherini representa um sinal de alerta sobre os rumos do debate em saúde pública na Câmara.

Acordo político - Cherini foi indicado pelo PL após um acordo entre líderes partidários para manter, em 2025, os mesmos partidos no comando das comissões que presidiam no ano anterior. Segundo líderes ouvidos nos bastidores, a decisão levou em conta o fato de este ser um ano eleitoral, com o objetivo de evitar disputas prolongadas e conflitos internos no primeiro semestre.

Com isso, a Comissão de Saúde inicia o ano sob comando de um parlamentar cujas posições anteriores seguem no centro do debate político e científico, em um colegiado responsável por decisões que impactam diretamente o sistema de saúde brasileiro.

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