
O ataque militar dos Estados Unidos à Venezuela é mais do que uma operação pontual: ele se insere em uma ofensiva do governo Donald Trump para fortalecer uma extrema-direita transnacional na América Latina. A avaliação é da professora Clarissa Nascimento Forner, do Departamento de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).
Segundo Clarissa, a aproximação com governos alinhados à extrema-direita já vinha sendo um traço do projeto político de Trump na região. Ao mesmo tempo, afirma, há um movimento paralelo de confronto direto contra administrações que se posicionam na direção oposta a essas ideologias.
“Por outro lado, [há] uma ofensiva clara a governos que se colocam na contramão dessas ideologias de extrema-direita”, explica a pesquisadora, ao analisar o contexto do ataque ao território venezuelano.
Para a professora, o episódio confirma uma estratégia maior que ela identifica como marca do “trumpismo”: a articulação de redes transnacionais de extrema-direita. “Isso reafirma esse aspecto estratégico que a gente observa no Trumpismo, que é a articulação das redes transnacionais de extrema-direita. Portanto, fortalecendo a extrema-direita na região e enfraquecendo possíveis governos ou partidos de oposição”, afirma.
Instabilidade como método - Clarissa Forner avalia que os Estados Unidos se recolocam como um fator de instabilidade, tanto regional quanto global, a partir desse tipo de ação. Na visão dela, o cenário interno da Venezuela tende a ficar ainda mais delicado.
“Pensando no território venezuelano, agora a tendência é que a gente observe esse cenário de instabilidade interna necessariamente e que dificilmente vai se solucionar com um período de intervenção ou de administração militar pela parte norte-americana, conforme colocado pelo Trump na coletiva”, diz a professora, ao comentar o pronunciamento do presidente dos EUA feito neste sábado (3).
Ela atribui ao governo Trump um modus operandi baseado justamente na produção de crises como forma de abrir espaço para respostas que muitas vezes extrapolam os limites da legalidade internacional.
“Então [há] o próprio uso da força e esse processo de sequestro do presidente Maduro e da sua esposa como sendo um exemplo desse tipo de ação que escapa a qualquer tipo de norma de legalidade e sendo legitimada por essa ideia de que há uma crise em curso, de que há um combate ao crime”, aponta.
Para a pesquisadora, esse tipo de narrativa — de combate ao crime ou a um suposto inimigo — funciona como justificativa para ações que, na prática, representam intervenção direta em outro país e fragilizam normas e acordos internacionais.
Possibilidade de novos ataques - Na leitura de Clarissa, a ofensiva contra a Venezuela também sinaliza o risco de que outros países latino-americanos se tornem alvo de futuras operações militares ou ações de pressão intensa por parte de Washington.
“Fica muito em aberto, no discurso da coletiva de imprensa, que a Venezuela não é o último caso, o último dos ataques possíveis, que há uma perspectiva de que outros casos possam a vir acontecer na região”, menciona a professora.
Esse “aberto” no discurso, segundo ela, funciona como alerta e como recado político. De um lado, reforça o papel dos Estados Unidos como agente disposto a intervir diretamente no entorno regional. De outro, pressiona governos e forças políticas que não se alinham ao campo ideológico da extrema-direita.
Histórico de intervenções - O ataque à Venezuela se soma a um histórico de intervenções diretas dos Estados Unidos na América Latina. O episódio remete à invasão do Panamá em 1989, quando militares norte-americanos capturaram o então presidente Manuel Noriega, acusado de envolvimento com o narcotráfico.
Assim como no caso panamenho, a ação atual também é acompanhada de acusações contra o chefe de Estado. Os EUA acusam Nicolás Maduro de liderar um suposto cartel de drogas, chamado De Los Soles, ligado ao tráfico internacional. Especialistas na área, porém, contestam a própria existência desse cartel, que nunca teve provas apresentadas publicamente.
Antes do ataque, o governo Trump já havia oferecido recompensa de US$ 50 milhões por informações que levassem à prisão de Maduro. A oferta, combinada com o discurso de combate ao crime organizado, ajudou a construir o pano de fundo que agora é usado para tentar legitimar a ação militar.
Disputa geopolítica e petróleo - Críticos da operação norte-americana apontam que o ataque não pode ser visto apenas sob a ótica do combate ao narcotráfico. Para eles, trata-se de uma medida geopolítica que busca afastar a Venezuela da esfera de influência de adversários estratégicos dos Estados Unidos, como China e Rússia.
Outro ponto central é o petróleo. A Venezuela detém as maiores reservas de óleo comprovadas do planeta, o que torna o país peça-chave na disputa por energia em escala global. O controle — ou ao menos a influência direta — sobre essas reservas é visto como um dos interesses em jogo na ofensiva contra o governo Maduro.
Nesse contexto, a análise de Clarissa Forner insere o ataque em um tabuleiro mais amplo: o de uma extrema-direita transnacional em fortalecimento, articulada a partir de Washington, e de uma política externa que utiliza a instabilidade como ferramenta para rearranjar forças na América Latina.

