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NACIONAL

MPF denuncia 5 agentes da ditadura militar pela morte de Carlos Marighella

Quase 55 anos depois, ação acusa 4 policiais comandados pelo delegado Fleury de participar do assassinato do comunista e um legista de omitir informações sobre as circunstâncias da morte

14 maio 2024 - 17h20Da Redação
Carro do delegado Romeu Tuma, então chefe do Serviço Secreto do Dops; veículo levava a investigadora Estela Morato que se dirigia ao local da morte de Marighella, tendo sido morta por engano após não respeitar bloqueio do Dops
Carro do delegado Romeu Tuma, então chefe do Serviço Secreto do Dops; veículo levava a investigadora Estela Morato que se dirigia ao local da morte de Marighella, tendo sido morta por engano após não respeitar bloqueio do Dops - Foto: Acervo/Estadão
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O Ministério Público Federal (MPF) denunciou nesta terça-feira, 14, quatro policiais e um médico-legista sob a acusação de envolvimento no assassinato do líder comunista Carlos Marighella e na fraude processual para despistar a Justiça. Quase 55 anos depois da emboscada comandada pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury, do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), e oito anos depois de a investigação do caso ser reaberta, em 2016, a investigação da Procuradoria da República chegou ao fim.

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Carlos Marighella, morto no fusca na Alameda Casa Branca. Marighela dirigia a ALN e foi deputado Federal do PCB Foto: Acervo/Estadão

Foi na noite do dia 4 de novembro de 1969, por volta das 20h15, que policiais do Dops surpreenderam o líder da Ação Libertadora Nacional (ALN), na Alameda Casa Branca, nos Jardins, na zona sul de São Paulo. Eles usaram dois frades dominicanos capturados e torturados na sede do Dops para atrair Marighella, o inimigo público n.º 1 do regime militar, para uma armadilha.

Marighella defendia que a resistência ao regime militar deveria ser armada, tanto no campo como nas cidades. Seu objetivo era criar colunas guerrilheiras, a exemplo do que fizeram Fidel Castro e Che Guevara em Cuba. Sua obra Minimanual do Guerrilheiro Urbano influenciaria grupos implicados em assassinatos, sequestros e em atentados na Itália, como as Brigadas Vermelhas, e na Alemanha Federal, como o Baader-Meinhoff. Na época, o delegado Fleury o qualificava como o “chefe do terrorismo no Brasil”.

Quando chegou ao encontro marcado com os frades, Marighella entrou em um Fusca. Não percebeu que os militares e civis se escondiam no quarteirão da Alameda Casa Branca, aguardando a sua chegada. De acordo com as investigações do MPF, entre os policiais que participaram da emboscada estavam Amador Navarro Parra, Luiz Antônio Mariano, Walter Francisco e Djalma Oliveira da Silva, todos subordinados a Fleury. Os quatro foram denunciados por assassinato. A coluna não conseguiu localizar seus defensores.

Pessoas na Alameda Casa Branca, nos Jardins, observam cena do crime Foto: Acervo/Estadão

“O homicídio de Marighella foi cometido por motivo torpe, consistente na busca pela preservação do poder usurpado em 1964 mediante violência e uso do aparato estatal para reprimir e eliminar opositores do regime e garantir a impunidade de homicídios, torturas, sequestros e ocultação de cadáveres”, escreveu o procurador da República Andrey Borges de Mendonça na denúncia à qual o Estadão teve acesso. Outros 25 participantes da emboscada já faleceram. Ao todo, 43 homens e mulheres foram mobilizados direta e indiretamente na operação.

Além de acusar os quatro policiais de coautoria no homicídio, o procurador também denunciou o médico-legista Harry Shibata, sob a acusação de ele ter feito uma perícia falsa a fim de garantir a impunidade dos envolvidos. Shibata foi um dos dois legistas que examinaram os corpos das vítimas da emboscada. Ele teria omitido informações sobre a distância dos disparos, entre outras, que permitiriam atestar a execução de Marighella. A coluna não conseguiu localizar Shibata nem seus advogados.

O procurador descreve na denúncia a prisão de um militante da ALN que revelou as relações de Marighella com frades dominicanos de São Paulo Yves do Amaral Lesbaupin, o Frei Ivo, e Fernando de Brito, o Frei Fernando. Outro dominicano que mantinha contatos com integrantes da ALN era Carlos Alberto Christo, o Frei Betto. Os policiais acreditaram que o Convento dos Dominicanos, em Perdizes, na zona oeste, serviria de base para o grupo de Marighella. E interceptaram um telefone que seria usado pelo líder comunista para se comunicar com os frades.

Croqui feito pelo Ministério Público Federal da operação que levou à morte de Marighella Foto: Reprodução / Estadão

Assim, de acordo com a denúncia, os policiais do Dops capturaram os Freis Ivo e Fernando, no Rio, com a ajuda de militares da Marinha. “Os freis foram torturados seguidamente, desde o início da tarde, por volta das 15 horas, até o início da noite (de) 3 (de novembro). Frei Fernando afirmou: ‘Arrancaram-se as roupas, dependuraram-me no pau de arara, ligaram os eletrodos em minhas orelhas e nos órgãos genitais; armaram-se de porretes, rodaram a manivela, fizeram-me estrebuchar sob a virulência das descargas elétricas.’ Após intensas torturas, os freis confessaram que faziam parte da rede de apoio de Marighella”.

A denúncia do MPF afirma ainda que os freis foram trazido para São Paulo e aqui, às 16h30 do dia 4 de novembro, com uma arma apontada para sua cabeça, Frei Fernando recebeu uma ligação telefônica com a seguinte mensagem: “É da parte do Ernesto (Marighella), hoje ele irá à gráfica as 20h30″. Isso significava que Marighella iria ao encontro dos frades, naquela noite, na Alameda Casa Branca.

De acordo com a denúncia, “a partir de então, o delegado Sérgio Fleury (morto em 1979) procedeu ao reconhecimento do local, sendo o plano de ação esquematizado em colaboração com os delegados Rubens Cardoso de Mello Tucunduva e Francisco Guimarães do Nascimento (ambos falecidos). Este último era o responsável pelas comunicações e setor da aparelhagem técnica”.

De acordo com as investigações, foi montado um esquema com sete equipes e 29 agentes no local; outros permaneceram guarnecendo o Convento dos Dominicanos. No chamado carro-piloto, um Chevrolet Bel-Air, ano 1956, estavam Fleury e as investigadoras Ana Teresa Leite e Estela Borges Morato, além do guarda civil João Lopes, como se fossem dois casais. “O veículo estava estacionado praticamente em frente ao local em que estaria o carro dos padres, mas do outro lado da rua. Sua missão oficial seria “aguardar a entrada de Marighella no carro dos padres, acionar os outros e dar voz de prisão”, constou de relatório do Dops.

O Bel Air pertencia ao delegado Romeu Tuma, chefe do Serviço de Informações do Dops. O Chevrolet foi usado de última hora, segundo disse o investigador J.R.A. ao Estadão, depois que um outro carro quebrou, um Aero Willys usado pelo departamento – todos os carros usados na operação eram descaracterizados. Essa troca teria consequência na operação.

Em outro veículo, uma caminhonete, estavam escondidos seis policiais na caçamba, entre eles o soldado Djalma de Oliveira da Silva, um dos denunciados pelo MPF, que levava o pastor alemão Átila. Oliveira pertencia à antiga Força Pública.

Em outros cinco carros – todos Fuscas – estavam equipes que deveriam bloquear o quarteirão da Alameda Casa Branca, quando fossem acionadas. Em um deles havia outro denunciado, o investigador Luiz Antônio Mariano. Em outro estava o terceiro acusado: o também investigador Amador Navarro Parra. E no último veículo, o investigador Walter Francisco.

Para a alameda, os policiais conduziram os Freis Fernando e Ivo em um Fusca azul, 1969, placas 24-69-28, que sempre era utilizado para os encontros com Marighella. “Referido veículo foi conduzido pelo investigador Aduzino Uribe e escoltado pelos veículos 1 e 5 (dois dos Fuscas com policiais)”. Quando chegaram à alameda, o policial desceu do carro e os dois dominicanos foram obrigados a passar para o banco dianteiro – Frei Ivo assumiu o lugar do motorista e Fernando, sentou no banco do carona. Todas as equipes de policiais estavam com rádios walkie-talkies.

Por volta das 20 horas, surgiu Marighella com seu disfarce – ele usava uma peruca preta –, a pé, subindo a Alameda Casa Branca em direção à Avenida Paulista. “Nesse momento, Fleury transmitiu a ordem para que todas as viaturas ocupassem suas posições”, escreveu o procurador. O líder comunista vinha pela calçada oposta à do carro dos religiosos e, quando ficou de frente para o Fusca, atravessou a rua, abriu a porta do Volkswagen, entrou no carro e sentou-se no banco traseiro. Nesse momento, os policiais cercaram o veículo e retiraram os freis de de seu interior.

Carro onde Frei Ivo e Fernando de Brito esperavam Marighella no dia em que o Dops encurralou o guerrilheiro Foto: Acervo/Estadão

De acordo com a denúncia, Fleury se aproximou do veículo e “efetuou o primeiro disparo executório contra a vítima”. “Na sequência, a vítima foi atingida por outros três ou quatro disparos. Inclusive, o disparo fatal que atingiu Marighella foi dado com arma a curtíssima distância, de menos de oito centímetros, ou seja, quase encostada no corpo da vítima. Referido disparo, dado no tórax de Marighella, atravessou o seu corpo e saiu pelas costas. Provavelmente o disparo foi feito pela carabina calibre 44 de João Carlos Tralli, enfiada por uma janela do Fusca, quase grudada em Marighella.”

De fato. O investigador J.R.A., um dos 43 participantes da operação, contou ao Estadão que o autor do disparo que matou o líder comunista foi o investigador Tralli. “Foi o Tralli, que usou uma espingarda Winchester calibre 44. O Tralli na verdade se apavorou. O Marighella era um mito. Achavam que estaria com uma baita segurança. O nome dele era tão forte quanto o do Fleury. Ninguém achou que ele ia dar uma moleza de ir sozinho a um ponto.”, disse o investigador.

Na mesma operação morreram a investigadora Estela Morato, do Dops e o protético Friedrich Rohmann, ambos baleados por policiais do departamento. Estela estava no Chevrolet Bell Air de Tuma, com Fleury. Rohmann entrou na Alameda Casa Branca com seu Buick preto, furando o cerco policial, " o que levou os agentes a acreditarem que se tratava de um veículo do aparato de segurança da ALN”.

“O problema é que nem todo o pessoal da operação sabia do (Chevrolet) Bell Air. Aí o dentista (na verdade o protético Friedrich Rohmann, que morreu) furou o bloqueio. E o pessoal atirou. Teve gente que descarregou mais de um pente de metralhadora. Foi fogo amigo, assim como o Tucunduva (delegado Rubens Tucunduva, também ferido na ação). Eu estava lá com meu parceiro, o Celso Cipriani. A Estela trabalhava no SI, como eu. Eu estava a uma quadra de onde o Marighella foi morto. Tinha muita gente lá.”, contou o investigador.

Para o procurador, não há dúvida: “Marighella morreu imediatamente no local, sem que tivesse tido chances de se defender. A todo o tempo esteve sentado no banco traseiro do veículo, sem que pudesse correr, fugir ou reagir”.

O líder comunista Carlos Marighella morto em emboscada montada pelo Dops, em 1969, na Alamenda Casa Branca, nos Jardins, em São Paulo Foto: ArquivAcervo/Estadão

O procurador conseguiu reconstituir a operação que levou à morte de Marighella por meio de um documento do Dops, assinado pelo delegado Ivair Freitas Garcia, do Dops, datado de 9 de novembro de 1969, que mostra uma versão detalhada dos fatos. “A intenção deste relatório era realizar a promoção meritória de todos que, de alguma forma, auxiliaram na operação, no total de 43 agentes da repressão.”

De acordo com o procurador, é “incontroverso” que Marighella não reagiu. “O Laudo de Exame em Peças 3871/69, acerca da pesquisa de resíduo de combustão de pólvora no revólver que teria sido apreendido dentro da pasta que portava Carlos Marighella, deu negativo. Isso significa que a vítima não chegou a disparar nenhum tiro. Em verdade, todos os disparos partiram de fora para dentro do veículo.”

Na época, a polícia justificou os disparos, alegando que Marighella segurou uma pasta, como se quisesse apanhar uma arma dentro dela. Para o procurador, no entanto, o relato oficial reconhece que o líder comunista não havia empunhado sua arma, muito menos disparado. “É incontroverso o fato de que Marighella não estava com a sua arma em punho no momento que foi sumariamente executado. O fato de segurar sua pasta não seria justificativa para a execução da vítima, que poderia ser facilmente rendida.”

Os três investigadores e o soldado da Força Pública denunciados que participaram da emboscada foram promovidos “por bravura e ação meritória” por terem colaborado “de forma decisiva, cada um dentro do setor que lhe foi destinado, cumprindo as missões que permitiram o completo êxito do plano de ação elaborado para a localização e prisão do líder terrorista Carlos Marighella”. É o que registrou o relatório do delegado Ivair Freitas Garcia.

A Lei da Anistia e o julgamento do Supremo - Por fim, o procurador afirma que a morte de Marighella seria um dos delitos “cometidos em contexto de ataque sistemático e generalizado à população, em razão da ditadura militar brasileira, com pleno conhecimento desse ataque, o que os qualifica como crimes contra a humanidade – e, portanto, imprescritíveis e impassíveis de anistia.

Até agora somente um agente do Dops de São Paulo foi condenado por um crime ocorrido durante a ditadura militar. No Rio, um militar está sendo processado sob a acusação de estuprar uma presa. Uma das testemunhas ouvidas pelo procurador no caso Marighella foi o jornalista José Maria Mayrink. Então profissional do Estadão, ele foi o primeiro repórter a chegar ao local da emboscada e conhecia os Freis Ivo e Fernando. Mayrink faleceu em 2020. Ele contou aos procuradores detalhes sobre a tortura dos dominicanos.

Procurador da República Andrey Borges de Mendonça Foto: Felipe Rau/Estadão

A defesa de policiais e de militares sempre alega que os crimes, por acaso cometidos durante a ditadura, não podem ser punidos em razão da Lei de Anistia. Em 2010, o Supremo Tribunal Federal (STF) julgou uma Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) proposta pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), que questionava a legalidade da extensão da anistia para os agentes do regime militar que haviam sido responsáveis por violações dos direitos humanos.

Relator da ADPF, o ministro Eros Grau votou pelo reconhecimento da anistia e que ela havia sido recepcionada pela Constituição Federal de 1988. Para ele, a Lei de Anistia, a Emenda Constitucional 26/85 e o Artigo 8° das Disposições Transitórias da Constituição de 1988 afirmavam que a anistia foi “ampla, geral e irrestrita” para os “crimes políticos e conexos”. Ao Estadão, o ministro disse: “O que o tribunal fez quando julgou a ADPF? Ele não fez justiça, ele aplicou a lei e a Constituição.” Agora, mais uma vez, a Justiça deverá dar seu veredicto a respeito. Desta vez, envolvendo o caso de Carlos Marighella.

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