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15 de janeiro de 2026 - 13h00
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CALOR URBANO

Campo Grande sente avanço do calor e expõe desigualdades na cidade

Ilhas de calor, uso intenso de ar-condicionado e falta de planejamento integrado desafiam a capital em verões cada vez mais quentes

15 janeiro 2026 - 11h00Iury de Oliveira e Rafael Rodrigues
Campo Grande sob altas temperaturas, cenário que reforça o debate sobre adaptação urbana e saúde pública
Campo Grande sob altas temperaturas, cenário que reforça o debate sobre adaptação urbana e saúde pública - (Foto: Williams Souza)

Apesar da forte chuva dos últimos dias, Campo Grande atravessa um período de calor forte, com máximas em torno dos 30° C e sensação de abafamento ao longo do dia. Ainda não há alerta oficial de onda de calor, mas a previsão para os próximos dias e meses aponta continuidade desse cenário com sol, pancadas de chuva no fim da tarde, noites quentes e pouca variação de temperatura. A soma de verões mais longos, crescimento urbano desordenado e uso intenso de ar-condicionado levanta uma questão central: a cidade está realmente preparada para enfrentar períodos de calor mais prolongados?

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Serviços de meteorologia indicam que, no curto prazo, as temperaturas devem seguir entre 30º C e 32º C, com mínimas acima de 20º C. As chuvas típicas de verão aliviam o desconforto por pouco tempo, mas não quebram a sequência de dias quentes. Projeções para janeiro e fevereiro apontam calor recorrente, sensação de abafamento e risco de vários dias consecutivos com temperaturas elevadas, mesmo sem uma onda de calor extrema oficialmente decretada.

Para o meteorologista Natálio Abraão, o que se vê hoje não é um evento isolado. "Algumas situações de eventos associados a altas temperaturas indicam que a causa sejam exatamente porque as médias das temperaturas nesses últimos dez a vinte anos contribuam para potencializar esses eventos”.

Ele destaca que vários eventos no país e no mundo já contribuem para associar as mudanças climáticas e aqui também são recorrentes e reforça que temperaturas máximas frequentes acima de 40º C e 41º C vêm puxando as médias históricas para cima. "A comunidade científica não tem receio de falar que a causa desses eventos seja mesmo as mudanças climáticas e que serão mais frequentes e mais devastadores”, aponta.

Calor volta a ser predominante na Capital após dias de chuvaA cidade está realmente preparada para enfrentar períodos de calor mais prolongados? - (Foto: Rafael Rodrigues)

Se o clima muda, a forma como a cidade foi ocupada ajuda a definir quem sofre mais. A arquiteta e urbanista Camila Amaro, especialista em climatologia urbana e conselheira estadual do Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU/MS), pesquisou as ilhas de calor em Campo Grande e encontrou diferenças importantes entre bairros.

“Analisei este fenômeno, de ilhas de calor urbanas em Campo Grande e identifiquei ICU de magnitude alta em nossa cidade, na região urbana centro e na porção sudoeste da cidade”, afirma. Segundo ela, isso representa cerca de 3º C a mais na temperatura do ar em relação a áreas com mais vegetação e até 12º C na temperatura de superfície em comparação com regiões de mata densa, quando se observa asfalto, concreto e galpões metálicos.

Camila explica que esse contraste aparece claramente ao longo da avenida Afonso Pena, do Parque dos Poderes rumo ao oeste da cidade. Na parte leste, mais arborizada, o clima é mais ameno; na região central, “altamente impermeabilizada”, a temperatura sobe; e volta a cair conforme se aproxima da zona rural. Nos mapas analisados por ela, bairros como Aero Rancho, Los Angeles e a área central apresentam ilhas de calor mais intensas e carência de vegetação.

Os bairros mais vulneráveis concentram problemas com pouca cobertura verde, drenagem precária, alagamentos e casas construídas com materiais que retêm calor. “As casas geralmente possuem materiais de construção com baixa resistência térmica, ausência de forros e lajes adequados ao nosso clima, o que implica em mais acúmulo de calor ainda”, aponta Camila. Já regiões mais arborizadas e com maior renda, como trechos da porção nordeste da cidade, tendem a ser mais confortáveis.

Mapa da temperatura média da superfície urbana de Campo Grande (20242025). Tons em vermelho e laranja indicam áreas mais quentes, enquanto verde e azul mostram regiões mais amenas, com maior presença de vegetação. O mapa evidencia ilhas de calor em áreasMapa da temperatura média da superfície urbana de Campo Grande (2024–2025). Tons em vermelho e laranja indicam áreas mais quentes, enquanto verde e azul mostram regiões mais amenas, com maior presença de vegetação. O mapa evidencia ilhas de calor em áreas mais urbanizadas da cidade. Fonte: Imagens Landsat 8/9 (NASA/USGS). Elaboração: Observatório do Clima Urbano/UFMS.

Ela cita a regra 3-30-300, incorporada no Brasil pelo Plano Nacional de Arborização Urbana (PLANAU): poder ver três árvores da janela de casa, morar em um bairro com pelo menos 30% de cobertura verde e ter uma praça ou parque a até 300 metros de distância. Bairros que se aproximam desse padrão sentem menos os extremos de calor.

A geógrafa Gislene Porangaba reforça que o próprio desenho urbano intensifica o problema. Para ela, todas as cidades, de todos os portes, favorecem e intensificam o calor por conta da configuração de ilhas de calor urbano. Esse efeito aparece quando materiais naturais são substituídos por superfícies artificiais. “Esses materiais artificiais respondem à radiação solar intensificando a troca de energia solar com a atmosfera, configurando ilhas de calor urbano, que são bolsões de ar quente que atuam nas cidades”, explica.

Em Campo Grande, suas pesquisas já identificaram ilhas de calor de até 8º C em relação à área rural próxima, com concentração em bairros como Nova Lima, Núcleo Industrial, Jardim Noroeste, Nova Campo Grande e região das Moreninhas, a partir de imagens de satélite. Esse aumento de temperatura impacta diretamente a sensação térmica e a saúde. Gislene lembra que os efeitos do calor são muitas vezes invisíveis nos registros oficiais: “O calor, as ações dele na nossa saúde, são silenciosas. Problemas cardiovasculares, por exemplo, podem ser agravados pelo ambiente quente sem que isso apareça como causa nas estatísticas", explica.

Apesar da fama de cidade arborizada, ela avalia que ainda falta muito. “É preciso pensar em formas de aumentar a arborização, fazer corredores verdes nas vias, para que as pessoas possam se locomover em áreas sombreadas, em áreas com melhor conforto térmico”, defende. A vegetação, segundo a geógrafa, reduz a temperatura por evapotranspiração, enquanto pavimentos escuros e telhados inadequados absorvem calor durante o dia e o liberam à noite. Por isso, ela defende ampliar coberturas verdes, parques, corredores vegetados e incentivar materiais de cores claras em telhados e vias.

Mapa de uso e ocupação do solo de Campo Grande mostra a predominância de áreas impermeabilizadas na malha urbana, intercaladas por fragmentos de vegetação e corpos d'água. As áreas em verde indicam cobertura vegetal, enquanto o cinza representa solo imperMapa de uso e ocupação do solo de Campo Grande mostra a predominância de áreas impermeabilizadas na malha urbana, intercaladas por fragmentos de vegetação e corpos d’água. As áreas em verde indicam cobertura vegetal, enquanto o cinza representa solo impermeável, evidenciando o avanço da urbanização e a redução de áreas naturais. Fonte: Imagens CBERS-4A. Elaboração: Observatório do Clima Urbano/UFMS.

Na síntese de Camila Amaro, Campo Grande ainda não tem um planejamento robusto e integrado para lidar com eventos climáticos extremos no Plano Diretor. As ondas de calor evidenciam desigualdades: bairros de baixa renda e periferias são os mais afetados, enquanto a cidade investe principalmente em obras de drenagem, sem integrar plenamente essas intervenções com soluções baseadas na natureza, como arborização em massa e proteção de áreas permeáveis.

Na saúde, o impacto aparece de forma mais difusa. A Secretaria Municipal de Saúde (Sesau) informa que monitora atendimentos por insolação, síncope, cãibras e exaustão por calor, com base nos registros do SUS, mas afirma que não é possível relacionar esses casos exclusivamente aos períodos de altas temperaturas, já que os dados são anuais. A pasta diz que a rede está preparada para atender a população, com foco em grupos vulneráveis como idosos, crianças, trabalhadores expostos ao sol e pessoas em situação de vulnerabilidade, e recomenda hidratação, roupas leves, evitar exposição prolongada e procurar atendimento em caso de tontura, fraqueza ou mal-estar.

O técnico em ar-condicionado e sócio proprietário da Alto Controle MS, Luiz Carlos Ben de Oliveira - (Foto: Arquivo pessoal)

Climatização - Diante do calor, o ar-condicionado se torna refúgio para quem pode pagar. Mas o uso intenso traz custos e riscos. “O ar-condicionado é um equipamento de engenharia avançada presente no nosso dia a dia, sendo ele, em uma residência, um dos equipamentos de maior consumo de energia em longo período de uso”, explica o técnico em ar-condicionado e sócio proprietário da Alto Controle MS, Luiz Carlos Ben de Oliveira. Ele lembra que “o motor do aparelho precisa trabalhar muito mais para baixar a temperatura de um ambiente que está a 30º C ou 40º C do que ele trabalharia em dias amenos” e que aparelhos antigos ou com filtros sujos fazem “o consumo disparar”.

Na saúde, o problema é o excesso e o mau uso. O ar-condicionado retira umidade do ar e pode causar ressecamento de nariz, garganta e olhos, facilitando sangramentos nasais, rouquidão, tosse seca e a “síndrome do olho seco”. Com mucosas ressecadas, aumenta a entrada de vírus e bactérias. O choque de sair da rua a 35º C e entrar em um ambiente a 17º C também causa estresse no organismo, com possíveis alterações de pressão arterial e queda momentânea da imunidade. "Sem manutenção adequada, o aparelho acumula ácaros, fungos e bactérias, agravando rinite, sinusite, asma e bronquite, e em sistemas centrais antigos pode haver risco de bactérias como a Legionella, causadora de pneumonia grave", detalha.

Os bairros mais vulneráveis concentram problemas com pouca cobertura verde, drenagem precária, alagamentos e casas construídas com materiais que retêm calor - (Foto: Arte A Crítica)

A Lei Federal nº 13.589/2018 tornou obrigatória a implantação do Plano de Manutenção, Operação e Controle (PMOC) em edifícios de uso público e coletivo, justamente para garantir qualidade do ar e reduzir riscos. Para equilibrar conforto e consumo, a recomendação é manter o aparelho em torno de 23º C ou 24º C, beber bastante água e, quando possível, renovar o ar abrindo janelas ou utilizando umidificador ou toalha molhada em ambientes muito secos.

Na conta de luz, a combinação de calor e aparelhos ligados quase o dia todo pesa. A Energisa orienta medidas simples de consumo consciente: trocar lâmpadas antigas por LED, apagar luzes em ambientes vazios, desligar equipamentos da tomada, evitar abrir e fechar a geladeira a todo momento, concentrar o uso do ferro de passar e da máquina de lavar e, sempre que possível, aproveitar a luz natural. No caso do ar-condicionado, a empresa recomenda verificar se a capacidade do aparelho é compatível com o ambiente, se há boa circulação de ar, evitar o uso simultâneo de vários equipamentos de alto consumo em horários de pico (entre 17h e 21h) e priorizar eletrodomésticos com selo de alta eficiência energética.

A reportagem tentou contato com a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Desenvolvimento Urbano (Semadur) para tratar das ações de arborização e adaptação climática, mas, até o momento, não obteve retorno.

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