
O ano de 2025 trouxe à tona uma realidade dolorosa e alarmante para Mato Grosso do Sul: a violência contra as mulheres, em especial os feminicídios, continua a ser uma epidemia. A morte da jornalista Vanessa Ricarte, assassinada a facadas em fevereiro de 2025, marcou profundamente a sociedade e teve repercussão em todo o estado. O assassinato de Vanessa não só gerou comoção, mas também trouxe à tona falhas no atendimento a mulheres em risco e impulsionou mudanças importantes nos protocolos de atendimento. Entretanto, um ano depois, o processo ainda não foi julgado, e a luta por justiça segue.
Vanessa, de 42 anos, foi morta na entrada da casa onde morava, no Bairro São Francisco, em Campo Grande. Antes de sua morte, ela havia procurado a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam) para denunciar agressões e pedir medida protetiva contra o ex-noivo, Caio Cesar Nascimento Pereira. Vanessa relatou episódios de violência, mas, segundo áudio enviado a um amigo, seu atendimento na Deam foi frio, e ela foi orientada a voltar para casa. Tragicamente, horas depois, foi atacada e morta. O caso gerou críticas e exigiu uma reflexão profunda sobre a eficácia dos protocolos de proteção a mulheres em situação de risco.
Casa da Mulher Brasileira em Campo Grande: centro de apoio às mulheres vítimas de violência, oferecendo suporte jurídico, psicológico e acolhimento para mulheres em situação de riscoO Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS) tem trabalhado de forma significativa na tentativa de acelerar processos de feminicídio, com a garantia de que esses casos recebam prioridade. Em nota, o TJMS esclareceu que, apesar da prioridade dada aos processos de feminicídio, o caso de Vanessa teve uma tramitação mais lenta devido à quantidade de recursos apresentados pelas partes envolvidas e a análise de pedidos no processo. No entanto, o juiz responsável, Carlos Alberto Garcete, da 1ª Vara do Tribunal do Júri, reiterou que a celeridade nos julgamentos de feminicídios é um compromisso do Tribunal.
Em relação à tramitação do caso de Vanessa, o processo já passou por várias etapas, e o próximo passo será o interrogatório do réu em março de 2026. A espera pela justiça continua, mas o caso serviu como um divisor de águas na forma como o sistema de justiça lida com os feminicídios. Mudanças internas foram implementadas, como a criação de um grupo de trabalho para monitorar boletins de ocorrência e aprimorar o atendimento na Casa da Mulher Brasileira, além de ajustes no acompanhamento policial e maior agilidade nas medidas protetivas.
A sociedade tem um papel fundamental nesse processo. É essencial que as pessoas se envolvam, que as denúncias sejam feitas de maneira rápida e eficaz, e que haja uma cobrança contínua pela justiça. A mudança de mentalidade e a conscientização sobre o impacto da violência contra as mulheres é um passo crucial para garantir que casos como o de Vanessa não se repitam.
Primeira Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher em Campo Grande: unidade especializada na investigação de crimes contra mulheres, visando garantir mais eficiência e acolhimento às vítimas.Em 2025, Mato Grosso do Sul registrou 39 feminicídios, e, embora um caso tenha sido julgado e condenado — o de Giseli Cristina Oliskowiski, cuja morte levou à condenação de seu marido a 33 anos de prisão —, a maioria dos processos ainda segue em andamento. Alguns aguardam o julgamento, enquanto outros estão em diferentes estágios de investigação. Em cinco casos, não houve ação penal devido à morte do agressor ou ao suicídio do mesmo.
As estatísticas são tristes, mas há esperança. O sistema de justiça, junto a movimentos da sociedade civil, ONGs e instituições públicas como o TJMS, está trabalhando para que cada vez mais mulheres sejam protegidas e que a justiça seja feita de maneira mais rápida e eficaz. A participação ativa da sociedade na denúncia de abusos e a colaboração com as políticas públicas são essenciais para combater essa epidemia de violência.
