
A decisão dos Estados Unidos de se retirar de dezenas de organismos multilaterais ligados ao clima, incluindo a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC), o Fundo Verde do Clima (GCF) e o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), foi duramente criticada pela ONU. Para o secretário-executivo da UNFCCC, Simon Stiell, a medida representa um “gol contra colossal” e terá consequências diretas para os próprios norte-americanos.
Segundo Stiell, ao abandonar os principais fóruns internacionais de cooperação climática e científica, os EUA enfraquecem a própria economia, o mercado de trabalho e o padrão de vida da população, em um contexto de agravamento de incêndios florestais, enchentes, tempestades extremas e secas.
Em nota, ele lembrou que os Estados Unidos tiveram papel central na criação da UNFCCC e do Acordo de Paris, justamente por entenderem que esses instrumentos atendiam ao interesse nacional do país. Para o dirigente da ONU, o isolamento climático ocorre no momento em que outras nações avançam de forma conjunta em soluções e investimentos.
Impactos econômicos
Na avaliação da UNFCCC, a saída dos EUA tende a gerar efeitos práticos no dia a dia da população, como encarecimento da energia, dos alimentos, do transporte e dos seguros. Stiell afirma que, enquanto as fontes renováveis se tornam cada vez mais baratas, a dependência de combustíveis fósseis amplia a volatilidade econômica, os conflitos e a instabilidade regional.
Ele também alertou que eventos climáticos extremos devem atingir com mais frequência a infraestrutura, a produção agrícola e os negócios norte-americanos, elevando custos para famílias e empresas.
Reação internacional
O anúncio da retirada dos EUA de 66 organizações internacionais foi feito na quarta-feira (7) pelo governo de Donald Trump. Entre as saídas mais sensíveis estão a do IPCC, órgão científico da ONU responsável por relatórios sobre aquecimento global, e a do GCF, principal mecanismo internacional de financiamento climático.
Para o Instituto Talanoa, organização brasileira que atua no debate climático, a decisão representa um novo choque político em meio à crise ambiental global. A entidade avalia que o movimento enfraquece a credibilidade dos Estados Unidos, mas não determina sozinho o futuro da governança climática internacional.
Segundo o instituto, o impacto dependerá da reação de outros países: se novas lideranças assumirem o protagonismo, o sistema multilateral pode atravessar esse período sem colapso. Caso contrário, os custos em coordenação, financiamento e ambição climática serão elevados.
A presidente do Talanoa, Natalie Unterstell, observa que, embora o regime multilateral siga funcionando, o financiamento climático internacional deve sofrer queda imediata.
Justificativa do governo americano
Ao justificar a saída do Fundo Verde do Clima, o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, classificou o GCF como uma organização “radical”. Segundo ele, o governo Trump não pretende financiar iniciativas que, na visão da atual gestão, contrariam a prioridade de garantir energia acessível e confiável.
Bessent afirmou ainda que os Estados Unidos defendem o avanço de todas as fontes de energia consideradas viáveis pelo governo, mas que a continuidade no GCF foi considerada incompatível com as metas e prioridades da administração Trump.

