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03 de fevereiro de 2026 - 09h43
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TENTATIVA DE ATENTADO

Monitoramento digital frustra plano de ataque na Paulista e no centro do Rio

Polícia Civil detém suspeitos e apura atuação de rede com mais de 7 mil participantes que discutia ações violentas em diferentes estados

3 fevereiro 2026 - 08h40Ítalo Lo Re
Vista aérea da Avenida Paulista, em São Paulo 
Vista aérea da Avenida Paulista, em São Paulo  - (Foto: Cifotart/Reprodução)

O monitoramento de grupos em redes sociais pela Polícia Civil de São Paulo e do Rio de Janeiro frustrou, nesta segunda-feira, 2, um plano de ataques com bombas caseiras e coquetéis molotov na Avenida Paulista, um dos principais cartões-postais da capital paulista, e no centro do Rio. Ao menos cinco suspeitos foram detidos no Parque Trianon, em frente ao Masp, e outros três acabaram presos na capital fluminense, em ações que expuseram uma rede virtual com alcance nacional e milhares de participantes voltados à discussão de ações violentas.

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Em São Paulo, a movimentação da polícia começou após a identificação de um grupo que planejava um ataque na região da Paulista. Segundo a Secretaria da Segurança Pública do Estado (SSP), 12 suspeitos, com idades entre 15 e 30 anos, foram identificados e levados para prestar esclarecimentos em delegacias da capital, da região metropolitana e do interior. Parte deles foi abordada já na região em que o ato violento estaria sendo preparado.

Os investigadores apontam que o grupo pretendia usar artefatos incendiários improvisados durante uma manifestação convocada para a Avenida Paulista. Em paralelo, no Rio, a Polícia Civil informou ter impedido uma ação semelhante em frente à Assembleia Legislativa do Estado (Alerj), também marcada pelo uso de bombas caseiras e coquetéis molotov.

Detenções em frente ao Masp

Na tarde desta segunda-feira, 2, ao menos cinco pessoas foram detidas no Parque Trianon, bem em frente ao Museu de Arte de São Paulo (Masp). Um homem de 26 anos acabou preso em flagrante após ser encontrado com materiais que, segundo a polícia, seriam usados para fabricar coquetéis molotov.

De acordo com o boletim de ocorrência, o jovem estava com óleo de motor, três garrafas de vidro, pedaços de pano e um isqueiro. Questionado pelos policiais, ele teria dito que montaria “coquetéis molotov para se defender”. A defesa dele não foi localizada, segundo o registro policial.

Os outros quatro detidos, três homens e uma mulher, foram encaminhados ao 78º Distrito Policial (Jardins), onde prestaram depoimento e acabaram liberados. Ainda conforme o boletim de ocorrência, o grupo trazia consigo objetos como sinalizadores, isqueiros e cartazes. Eles afirmaram que participariam de um ato intitulado “Manifestação Gen Z Acorda Brasil - Fora Corruptos”.

Em coletiva de imprensa, o secretário da Segurança Pública de São Paulo, delegado Osvaldo Nico Gonçalves, disse que o grupo não tinha uma pauta definida de reivindicações. “Não tinha pauta nenhuma, mas eles queriam tumultuar, angariando pessoas para fazer uma manifestação e para fazer um tipo de atentado”, afirmou.

Informações preliminares indicam que os cinco detidos no Parque Trianon não estavam entre os investigados que eram considerados lideranças do grupo monitorado pela Polícia Civil. A abordagem teria ocorrido por agentes da Polícia Militar, a partir do alerta de que poderia ocorrer um ataque na Avenida Paulista.

Ação preventiva no Rio de Janeiro

Enquanto a operação era deflagrada em São Paulo, a Polícia Civil do Rio de Janeiro também atuava para impedir um ataque planejado para o centro da capital fluminense. Segundo a corporação, a intenção era realizar, nesta segunda-feira, uma manifestação de caráter antidemocrático em frente à Alerj, utilizando bombas caseiras e coquetéis molotov.

Três suspeitos foram detidos no Rio. De acordo com as investigações iniciais, há relação direta entre os envolvidos nas articulações em São Paulo e os identificados na capital fluminense. A linha de apuração indica que integrantes de uma mesma rede nacional trocavam informações, instruções e mensagens para organizar ações coordenadas em diferentes cidades.

A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo afirma que a mobilização observada em São Paulo e no Rio ocorre dentro de uma comunidade virtual mais ampla, que reúne milhares de pessoas em torno da discussão de atos violentos.

No caso paulista, a operação desta segunda-feira é apresentada como resultado direto de um trabalho de inteligência conduzido pelo Núcleo de Observação e Análise Digital (Noad), unidade da Polícia Civil especializada em monitorar possíveis comportamentos criminosos nas redes sociais. O núcleo atua em parceria com a Divisão de Crimes Cibernéticos (DCCiber).

Segundo o secretário da Segurança, trata-se de um “trabalho de antecipação, de chegar na frente antes que aconteça”. A ideia é identificar, em ambientes virtuais, sinais de organização de atos violentos, como chamadas para protestos com uso de armas ou artefatos, instruções de ataque e tentativas de cooptar participantes.

Com apoio da DCCiber, os investigadores rastrearam perfis e grupos em plataformas digitais e concluíram que os alvos atuavam tanto na capital paulista como em cidades da região metropolitana e do interior do Estado. As informações indicam que eles repassavam orientações a outros integrantes, inclusive com uma espécie de divisão informal de funções.

Segundo a SSP, seis dos envolvidos tinham poder de comando dentro dos grupos. Ao menos um deles foi encontrado com simulacros de arma de fogo. Ainda de acordo com a pasta, durante semanas os participantes “compartilharam vídeos e instruções detalhadas sobre a fabricação e o lançamento de artefatos explosivos improvisados”.

Manual para driblar a polícia

As investigações apontam ainda que os suspeitos iam além da troca de mensagens sobre a confecção de artefatos. Em entrevista, o delegado-geral da Polícia Civil de São Paulo, Artur Dian, afirmou que o grupo também discutia maneiras de tentar escapar da fiscalização em atos de rua.

De acordo com Dian, os integrantes “instruíam inclusive como os participantes do grupo poderiam identificar policiais infiltrados durante eventuais manifestações”, funcionando como uma espécie de “manual de instrução” dos ataques planejados. Esse material circulava entre membros da comunidade virtual monitorada pelo Noad e pela DCCiber.

Os investigadores agora analisam o conteúdo apreendido para entender com mais precisão o grau de organização do grupo, a extensão das ações planejadas e o papel de cada um dos suspeitos identificados. A avaliação inclui vídeos, mensagens, tutoriais e demais registros compartilhados pelos participantes ao longo das últimas semanas.

Rede nacional com mais de 7 mil participantes

Um dos pontos que mais chamou a atenção das autoridades foi a dimensão da rede virtual monitorada. A Secretaria da Segurança Pública afirma que o grupo que vinha sendo acompanhado integra uma estrutura de alcance nacional, com mais de 7 mil participantes dedicados a discutir ações violentas em diferentes regiões do País.

Apesar da abrangência, as investigações identificaram uma concentração maior de mobilização nos Estados de São Paulo e do Rio de Janeiro. Em São Paulo, a comunidade virtual usada como principal espaço para a organização do ataque planejado à Avenida Paulista reunia quase 600 integrantes, segundo a pasta.

É nesse ambiente que teriam sido combinados detalhes da manifestação que seria realizada na região do Masp, com estímulo à presença de pessoas dispostas a usar artefatos incendiários improvisados e a provocar tumultos durante o ato.

A suspeita das autoridades é que nem todos os participantes da comunidade virtual estariam diretamente envolvidos na preparação dos ataques, mas o espaço funcionava como ponto de encontro, troca de conteúdos e alinhamento de discursos para ações coordenadas em diferentes cidades.

Até o fim da tarde desta segunda-feira, as polícias de São Paulo e do Rio de Janeiro continuavam ouvindo os suspeitos detidos nas duas operações. Em São Paulo, os casos foram registrados em delegacias da capital e de outras cidades paulistas.

“Estamos analisando se os atos preparatórios configuram crime, em ocorrências que estão sendo registradas nas respectivas delegacias, tanto em São Paulo quanto no interior, para saber quais serão os próximos passos. Os indivíduos estão sendo ouvidos”, afirmou o delegado-geral Artur Dian.

A Secretaria da Segurança Pública reforça que as investigações seguem em curso para aprofundar a identificação de lideranças, mapear o funcionamento da rede nacional e verificar possíveis conexões com outros episódios de violência ou de convocação de atos antidemocráticos.

Enquanto essa etapa avança, o episódio é usado internamente como exemplo do que as autoridades chamam de “ação antecipatória”: em vez de reagir a um ataque consumado, a polícia busca identificar, por meio de monitoramento digital, o momento em que a violência ainda está em fase de organização, permitindo agir antes que bombas caseiras ou coquetéis molotov sejam de fato lançados em via pública.

Para as forças de segurança, o desafio é equilibrar a vigilância de comunidades virtuais com o respeito a direitos e garantias individuais, ao mesmo tempo em que se responde com rapidez a sinais concretos de preparação de ataques, como os que levaram à operação desta segunda-feira em São Paulo e no Rio.

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