
Conhecido inicialmente por seu perfil ultraliberal e por um discurso econômico agressivo, o presidente da Argentina, Javier Milei, agora revela um lado menos conhecido — e bem mais controverso. Em seu novo livro, o jornalista e biógrafo Juan Luis González afirma que Milei abandonou a racionalidade do mercado e passou a tomar decisões políticas com base em crenças esotéricas. A obra, intitulada As Forças do Céu: Segredos, Confissões e Perigos da Primeira Presidência Messiânica, expande as revelações feitas na primeira biografia do líder argentino, O Louco, publicada em 2022.

Segundo González, a espiritualidade mística é hoje o centro da vida política de Milei. O ponto de partida do livro foi uma entrevista em que o presidente mencionou ter "cinco" cães, mesmo que apenas quatro fossem visíveis. A investigação revelou que os animais são clones de seu cachorro de estimação, Conan, e que um deles, embora morto, ainda seria considerado "presente" por Milei. “É um elemento central da sua visão de mundo, baseada em uma espécie de missão divina”, afirmou o autor ao jornal O Estado de S. Paulo.
Do liberal ao místico - González sustenta que o presidente argentino acredita ter sido escolhido por uma força celestial desde a infância. Segundo relatos ouvidos pelo autor, Milei teria passado por um episódio traumático na juventude, quando, após uma agressão do pai, foi consolado pela irmã Karina sob uma "mensagem divina" vinda de um raio de luz.
Essa espiritualidade, vista inicialmente como excentricidade por muitos ao seu redor, ganhou força com sua ascensão ao poder. Hoje, segundo o biógrafo, é exigido que os assessores mais próximos compartilhem dessa crença messiânica para permanecer no círculo íntimo do presidente. Mesmo os que não acreditam, tratam Milei como uma figura religiosa.
Karina Milei: a influência mística e política - A irmã do presidente, Karina Milei, é apontada por González como a verdadeira comandante do governo. De acordo com o autor, ela toma decisões com base em cartas de tarô e teria, segundo relatos do próprio presidente, a capacidade de “canalizar mensagens angelicais”. “Ela acredita falar com Deus”, afirma o jornalista, que também detalha denúncias de captação de recursos durante a campanha eleitoral com reuniões pagas entre empresários e Milei, em valores que variavam entre US$ 3 mil e US$ 5 mil.
Isolamento, segredos e censura - Outra revelação do livro diz respeito à rotina reservada do presidente. Segundo registros, Milei raramente comparece à Casa Rosada — no máximo duas vezes por semana — e restringe severamente o acesso à residência oficial, a Quinta de Olivos. A divulgação da clonagem dos cães teria sido, inclusive, um dos motivos para a demissão de membros da equipe de governo, após uma crise emocional do presidente.
A Casa Rosada também teria alterado por decreto a Lei de Acesso à Informação Pública para barrar reportagens sobre o tema. “O assunto se tornou tabu”, diz González.

Acusações e plágios - O livro também aborda contradições acadêmicas. Milei afirma ser doutor em economia, mas seu título seria apenas honorário, concedido pela Eseade, uma escola de negócios de Buenos Aires. O biógrafo diz que o presidente nunca defendeu uma tese e que plagiou discursos e trechos de livros de ao menos seis autores.
Relação com os Bolsonaro - Sobre o Brasil, González diz que Milei teve apoio fundamental da família Bolsonaro durante a campanha, principalmente de Eduardo Bolsonaro. Contudo, após assumir a presidência, os laços teriam se enfraquecido. “Ele não é mais um aliado tão próximo, embora siga defendendo Bolsonaro em público”, afirmou.
O autor cita ainda que figuras próximas a Milei, como o fundador do site La Derecha Diario, chegaram a ser investigadas por envolvimento em atos golpistas no Brasil.
A biografia aprofunda um aspecto pouco explorado da figura presidencial de Milei, revelando uma mescla de política, misticismo, poder familiar e sigilo. Segundo González, compreender esse lado é essencial para entender as decisões e o rumo do governo argentino.
