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09 de janeiro de 2026 - 12h17
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INVESTIGAÇÃO POLICIAL

Inquérito sobre jovem que sumiu no Pico Paraná aponta que não houve crime

Delegado da Polícia Civil pede arquivamento do caso de Roberto Farias Tomaz, de 19 anos, desaparecido por quatro dias após se perder em trilha no Pico Paraná, e afasta suspeita de omissão de socorro por parte da amiga que o acompanhava

8 janeiro 2026 - 19h30Ederson Hising
Operação de buscas mobilizou bombeiros e voluntários na região do Pico Paraná, no Paraná.
Operação de buscas mobilizou bombeiros e voluntários na região do Pico Paraná, no Paraná. - (Foto: Imagem ilustrativa/A Crítica)

O inquérito que apurou o desaparecimento de Roberto Farias Tomaz, de 19 anos, durante uma trilha no Pico Paraná, na região metropolitana de Curitiba, foi concluído pela Polícia Civil nesta quinta-feira, 8, com a recomendação de arquivamento. A investigação conduzida pelo delegado Glaison Lima, de Campina Grande do Sul, entendeu que não houve crime por parte da amiga do jovem, Thayane Smith Moraes, também de 19 anos, que se separou dele no percurso de descida da montanha.

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Segundo o delegado, o conjunto de provas colhidas ao longo da apuração levou à conclusão de que não há indícios de infração penal, nem mesmo de omissão de socorro. Foram consideradas diligências em campo, análise de dados e informações extraídas de telefones celulares de Roberto e de pessoas envolvidas na ocorrência.
"Após diversas investigações, diligências, análises de dados, análises de informações extraídas de telefones celulares da vítima e de pessoas envolvidas, a conclusão que chegamos é que não houve crime. Não houve nenhum tipo de infração penal, inclusive não houve omissão de socorro, de acordo com o que ficou apurado", afirmou o delegado.

A investigação se concentrou em esclarecer em que momento Roberto passou mal e em quais condições se deu a separação entre ele e Thayane na trilha. De acordo com o delegado, ficou demonstrado no inquérito que o jovem apresentou mal-estar durante a subida, e não na descida, quando desapareceu. Essa diferença de momento foi considerada decisiva para afastar a hipótese de omissão de socorro por parte da amiga.

Ainda conforme a conclusão policial, quando iniciaram o retorno, Roberto já estaria recuperado do mal-estar inicial.
"Já na descida ele estaria bem e não teria apresentado nenhum sintoma que precisasse de algum tipo de socorro. Roberto teria ficado para trás e teria pegado uma trilha errada. Por essa razão, ele teria desaparecido", explicou Glaison Lima.

Com base nessa reconstrução dos fatos, a Polícia Civil entendeu que não havia, naquele momento da descida, um quadro de urgência ou de vulnerabilidade que obrigasse Thayane, do ponto de vista penal, a permanecer ao lado do amigo. O delegado, então, encaminhou o pedido de arquivamento do inquérito à Justiça, passo que costuma encerrar a fase policial do caso, salvo se o Ministério Público entender de forma diferente.

O episódio começou no fim de ano. Roberto subiu o Pico Paraná, considerado o ponto mais alto do Sul do País, no dia 31 de dezembro, acompanhado de Thayane. A ideia dos dois era assistir ao nascer do sol no primeiro dia do ano, um roteiro que atrai trilheiros e montanhistas para a região.

Na manhã de 1º de janeiro, após passarem a noite na montanha, eles iniciaram a descida. Em determinado trecho, o grupo com o qual estavam começou a se dispersar, e foi nesse momento que Roberto acabou se distanciando. Ele se separou de Thayane e de outros trilheiros e, segundo a investigação, acabou seguindo uma sinalização equivocada, afastando-se da trilha principal.

O erro de percurso jogou o jovem para fora da rota usual de retorno e para áreas de mata mais fechada. A partir dali, ele passou a caminhar sozinho, sem reencontrar a amiga ou outros grupos de trilha, dando início a quatro dias de desaparecimento em meio à vegetação.

Durante o período em que permaneceu perdido, Roberto percorreu mais de 20 quilômetros em trechos de mata fechada, de acordo com o que foi relatado no inquérito. Sem conseguir retomar a trilha oficial, ele resolveu seguir o curso de um rio como referência, estratégia comum em situações de desorientação na mata.

O jovem contou que, em um desses trechos, chegou a saltar de uma cachoeira de cerca de 20 metros de altura para continuar avançando e tentar encontrar uma saída. Foram quatro dias de deslocamento em condições difíceis, com pouca orientação e recursos limitados, até que, exausto, conseguiu localizar uma fazenda na região.

Ao encontrar a propriedade rural, Roberto pediu ajuda e conseguiu ser resgatado. Depois de receber atendimento médico, ele teve alta na terça-feira, 6. Ainda se recuperando fisicamente, relatou que conhecia Thayane havia cerca de dois meses antes da trilha no Pico Paraná, o que reforça que não se tratava de uma amizade antiga, embora ele afirmasse que confiava na companheira de caminhada.

Após o episódio, Roberto relatou que se sentiu traído pela atitude de Thayane de seguir a trilha em um ritmo mais acelerado, deixando-o para trás. Em suas declarações, ele destacou a confiança que tinha na amiga, especialmente por ser uma atividade que envolve riscos e exige cuidado mútuo entre os participantes.

"Ela me passou uma confiança, porém, lá em cima ela quebrou legal essa confiança", disse o jovem, ao comentar o momento em que percebeu que tinha sido deixado sozinho na descida. Mesmo magoado, ele afirmou que não pretende transformar o episódio em uma campanha pessoal contra a amiga, nem incentivar ataques nas redes sociais.

"Eu me vejo magoado, mas não a culpo. Não tenho julgamento, não fico bravo com ela", completou Roberto. O tom mais contido do jovem contrasta com a reação que o caso gerou na internet, onde a conduta de Thayane passou a ser intensamente criticada após vir a público a informação de que ela havia seguido a trilha sem o amigo.

Do outro lado, Thayane sustenta que não abandonou o amigo. Ela afirma que a separação na descida aconteceu por causa da diferença de ritmo entre os dois. Segundo a jovem, Roberto estaria mais lento, enquanto ela acabou seguindo o passo de trilheiros que desciam mais rápido pela rota.

"Não abandonei! Eu assumi o meu B.O., assumi o problema todo. Eu assumo que errei de ter deixado ele para trás, quebrei a nossa regra dos trilheiros e montanhistas, de que vai junto e volta junto. Mas eu acompanhei o passo dos corredores e ele veio no ritmo dele", afirmou em entrevista ao Estadão.

Ao falar na "regra dos trilheiros e montanhistas, de que vai junto e volta junto", Thayane reconhece que, do ponto de vista da convivência entre praticantes de trilhas, sua atitude contrariou um código informal de responsabilidade entre os participantes do grupo. Ainda assim, ela enfatiza que não teve a intenção de abandonar o amigo, e destacou que encarou as críticas e a exposição pública do caso. A jovem foi alvo de ataques nas redes sociais, justamente por ter deixado Roberto para trás no trajeto de volta.

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