
Mesmo com tratamento disponível e gratuito pelo SUS, a hanseníase segue como um desafio de saúde pública no Brasil. Entre 2015 e 2024, o país registrou mais de 300 mil casos da doença, segundo boletim epidemiológico divulgado pelo Ministério da Saúde na quarta-feira (28). Do total de notificações, 79% foram classificados como casos novos, o que coloca o Brasil na segunda posição mundial em número de registros, atrás apenas da Índia.
O levantamento mostra que 2015 foi o ano com maior número de notificações, somando 28.758 casos. Já 2020 apresentou o menor volume, com 17.979 registros, queda associada ao período mais crítico da pandemia de covid-19, quando houve redução na busca por atendimento e no diagnóstico de outras doenças. Em 2024, o país voltou a registrar cerca de 22 mil novos casos.
Os dados mais recentes indicam que aproximadamente 72% das notificações em 2024 ocorreram entre pessoas pretas e pardas. Mato Grosso e Tocantins lideraram as taxas de detecção naquele ano. Ao longo de toda a série histórica, as regiões Norte e Centro-Oeste concentraram os maiores índices da doença, reforçando a desigualdade regional no acesso ao diagnóstico precoce.
A hanseníase é uma doença infecciosa crônica causada pela bactéria Mycobacterium leprae e está diretamente relacionada a contextos de vulnerabilidade social. Um dos principais problemas apontados pelo Ministério da Saúde é o diagnóstico tardio. Cerca de 11,5% dos casos novos foram identificados já no grau 2 de incapacidade, fase em que o paciente apresenta sequelas físicas visíveis.
Outro ponto de atenção é o abandono do tratamento. A taxa, que era de 4,6% em 2015, subiu para 7,3% em 2024, dificultando o controle da transmissão e aumentando o risco de complicações.
A transmissão da hanseníase acontece pelas vias aéreas superiores, por meio da tosse, espirro ou fala de pessoas infectadas que ainda não iniciaram o tratamento. O contágio exige contato próximo e prolongado. A doença não é transmitida por roupas, aperto de mão ou abraços.
Segundo o Ministério da Saúde, as principais formas de prevenção são o diagnóstico precoce, o início imediato do tratamento e a investigação de pessoas que convivem ou conviveram de forma prolongada com casos confirmados.
O período de incubação da hanseníase pode variar, em média, de dois a sete anos. Durante esse tempo, o paciente pode não apresentar sintomas. Quando surgem, os sinais mais comuns incluem manchas na pele com alteração ou perda de sensibilidade, comprometimento dos nervos periféricos, redução de pelos e do suor, formigamento em mãos e pés, diminuição da força muscular e, em alguns casos, aparecimento de nódulos dolorosos.
Sem tratamento adequado, a doença pode evoluir para incapacidades permanentes, devido às lesões cutâneas e ao comprometimento sensitivo e motor.
Tratamento e atenção às crianças - O diagnóstico é feito principalmente por avaliação clínica, com exames dermatológicos e neurológicos. Em crianças, a identificação tende a ser mais difícil. Em 2024, 4,1% dos casos registrados no país ocorreram em menores de 15 anos. Para a Sociedade Brasileira de Dermatologia, a presença da doença nessa faixa etária indica transmissão ativa e recente.
O tratamento é oferecido gratuitamente pelo SUS, sem necessidade de internação, e realizado nas unidades básicas de saúde. A terapia utiliza a poliquimioterapia única, que combina três antimicrobianos. A duração varia conforme a forma da doença, geralmente entre seis meses e um ano. Em situações específicas, o sistema público também disponibiliza esquemas alternativos.

